O Mundial costuma ser um momento estranhamente poderoso. Durante alguns dias, criamos, instintivamente, a sensação de união em torno da nossa bandeira e da nossa seleção e transformamo-nos num símbolo coletivo. É um daqueles raros momentos em que a ideia de ser “país” parece simples. Mesmo quem não acompanha normalmente o futebol, vibra junto com quem é apaixonado por ele, reconhecemo-nos uns nos outros e todos na nossa seleção.
Há dias, num final de tarde a olhar o nosso mar, dei por mim a pensar: o que é, afinal, um país? O que é uma pátria? Será apenas um território, uma bandeira, um hino, uma seleção? Ou será, antes de tudo, uma comunidade viva de pessoas, construída por valores, história, cultura, diversidade e escolhas éticas sobre como nos relacionamos uns com os outros?
O amor por um país não pode ser confundido com a aceitação passiva de tudo aquilo que é feito em seu nome. Pelo contrário, o vínculo mais profundo revela-se na capacidade de o questionarmos quando o vemos a afastar-se dos valores que diz defender.
Desagrada-me a forma como o meu país tem lidado com as grandes questões do nosso tempo. Em particular, a posição política e diplomática perante o sofrimento do povo palestiniano, a violência em Gaza e o incumprimento do direito internacional e dos direitos humanos.
Desagrada-me a distância entre o discurso e a ação, e a falta de coerência quando estão em causa vidas humanas na sua grande maioria, crianças.
Também me desagrada o modo como se tem moldado o debate público, com a desigual visibilidade de vozes, a normalização de discursos que desvalorizam a dignidade humana e a pouca empatia com migrantes, minorias e pessoas em situação de pobreza. Uma sociedade perde densidade moral quando aceita a desigualdade como uma necessidade rotineira.
Desagrada-me a transformação acelerada das cidades e dos seus hábitos, o impacto da especulação imobiliária e do modelo de investimento desregulado que impossibilitam a permanência de quem lá vivia. Quando uma cidade deixa de pertencer a quem a habita, e passa pertencer a quem a visita, algo essencial se está a perder.
Desagrada-me também a crescente presença de capital estrangeiro na compra de imóveis, terrenos e recursos, nomeadamente florestas, tanto nas cidades como no interior do país. Não ponho em causa a abertura ao mundo, que até é positiva, mas a ausência de regulação que garanta equilíbrio social e direito à habitação. Um país não pode ser só mercado e atividade económica.
Desagrada-me o distanciamento entre as decisões políticas e os valores humanistas e éticos que uma parte significativa da população reconhece como seus e os quais me foram transmitidos: valores de solidariedade, dignidade e respeito pelo outro. Não estou a rejeitar o meu país, mas a interrogar se ele está a ser fiel ao que se diz ser.
No plano simbólico, o desporto deveria ser um momento de união. Desagrada-me, no entanto, a forma como certas figuras públicas, que também representam o nosso país, demonstram uma ausência de consciência ética proporcional à sua influência. A desilusão perante o silêncio ou a ausência de posicionamento face a situações de sofrimento humano, como o genocídio em Gaza, afasta as pessoas desse sentimento de pertença.
No caso do Mundial, que se deveria manter um momento de união, porque a presença da seleção nacional evoca esse sentimento de pertença, ele torna-se contraditório quando nos confrontamos com o silêncio e as incoerências éticas de algumas figuras no espaço público. A ausência de demonstração pública de empatia, não é por muitos sentida como neutra, mas sim como um afastamento moral que nos desune.
Temos em Portugal uma história rica, uma cultura plural e uma capacidade única de encontro com outros povos. Mas a nossa história deve ser contada com verdade. Falar do passado implica reconhecer que os chamados “descobrimentos” não foram apenas feitos de navegação e engenho. Foram também processos de dominação, violência, escravatura, exploração de povos e territórios, e apropriação das suas riquezas naturais. Reconhecer isto completa a nossa história e enriquece-a.
Um país ou uma pátria madura não pode viver só de orgulho, mas também de consciência crítica. Da capacidade de olhar para si sem ilusões e de se conseguir transformar.
O verdadeiro amor ao país não se mede pela ausência de críticas, mas pela exigência de que ele seja mais justo, mais coerente e mais humano. Um país digno de ser amado é aquele que não teme olhar para as suas contradições e que escolhe melhorar-se continuamente.
É nesse sentido que o meu sentimento em relação a Portugal se torna confuso. Amar Portugal é também não aceitar que ele se afaste da sua própria humanidade.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.