Passámos anos a acreditar que comer de três em três horas era essencial para a saúde. Hoje, a nova tendência diz-nos exatamente o contrário — quanto mais tempo passamos sem comer, melhor. No meio deste ruído, uma pergunta impõe-se: estaremos a melhorar a nossa saúde ou apenas a seguir mais uma moda bem vendida?
O jejum intermitente tornou-se uma das estratégias alimentares mais populares da atualidade, impulsionado pelas redes sociais e por testemunhos de resultados rápidos. Ao contrário das dietas tradicionais, não define o que comer, mas sim quando comer. Modelos como o 16:8, que alterna 16 horas de jejum com uma janela de alimentação de 8 horas, são hoje amplamente utilizados por quem procura perder peso ou “otimizar” o metabolismo.
Na prática, o seu principal efeito é simples: comer menos. E é precisamente essa redução calórica que explica grande parte dos resultados. Embora alguns estudos apontem melhorias na sensibilidade à insulina, controlo da glicemia e níveis de triglicéridos, importa clarificar que estes benefícios não são exclusivos desta abordagem. Qualquer estratégia alimentar que promova défice calórico, de forma consistente, poderá gerar efeitos semelhantes.
Ainda assim, o jejum intermitente continua a ser apresentado como uma solução quase milagrosa. E é aqui que importa recentrar a discussão. Nem sempre é sustentável, nem sempre é adequado e, em alguns casos, pode ser contraproducente. Fadiga, irritabilidade, dores de cabeça e dificuldade de concentração são queixas frequentes. Para algumas pessoas, pode ainda aumentar o risco de episódios de compulsão alimentar, prejudicando a relação com a comida.
Além disso, quando mal estruturado, pode comprometer a ingestão adequada de nutrientes e contribuir para a perda de massa muscular — um efeito raramente mencionado nas redes sociais, mas com impacto real na saúde.
Em Portugal, a popularidade do jejum intermitente continua a crescer, muito alimentada por influenciadores e pela procura de soluções rápidas. No entanto, a evidência científica atual aponta para uma realidade menos apelativa, mas mais honesta: não existem atalhos. O sucesso continua a depender do básico — alimentação equilibrada, consistência e hábitos de vida saudáveis. O jejum intermitente pode ser uma ferramenta útil em contextos específicos, mas não deve ser confundido com uma solução universal.
Assinar isto como nutricionista é, acima de tudo, um convite ao pensamento crítico: nem tudo o que é tendência é, necessariamente, o melhor caminho.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.