A Europa apresenta-se como o continente que aprendeu com a História, como o espaço político que após duas guerras mundiais e várias outras coloniais abandonou definitivamente, no seculo XX, a lógica da dominação da exploração e da hierarquia dos povos. No entanto, como é claro para alguns, esta narrativa autoindulgente promovida pela UE e inúmeros políticos cai quando confrontada com a realidade da situação. O colonialismo europeu não é um fenómeno do passado, que se estuda nos livros de História. Ele persiste, adapta-se, muda de linguagem, mas mantém-se intacto nos seus princípios base: a negação da autodeterminação plena, a instrumentalização de territórios e populações (em inúmeros casos vulneráveis), e a recusa sistemática de assumir responsabilidades históricas.
O problema europeu com o colonialismo não é apenas o passado que não foi reparado. É o presente que continua a ser administrado com as ferramentas coloniais disfarçadas de pragmatismo, segurança, interesses nacionais e até humanitários. Os casos mais gritantes são o do Reino Unido e o da França que são exemplos claros da continuidade colonial. Cada um com as suas estruturas próprias, com o seu vocabulário, do seu próprio modo, mas ambos incapazes de romper com a lógica imperial que continua a dominar o espírito europeu.
Numa altura em que muitos na Europa olham para os EUA de Trump como o expoente máximo do imperialismo, que o é, é contudo, necessário relembrar o papel do passado próximo e atual europeu.
O Reino Unido – o Império que recusa o pôr do sol
No seu auge, entre 1920 e 1922, o Império Britânico controlava cerca de 35.5 milhões de quilómetros quadrados, ou seja cerca de 25% do mundo. Mais de cem anos depois, o estado britânico continua preso à ideia de império. A narrativa do império britânico era de uma força civilizadora, que criava instituições, comércio e estabilidade. Esta visão profundamente enraizada ainda na política inglesa, e no discurso político e mediático, ignora, no entanto, a violência sistemática, a exploração económica, os massacres, as múltiplas fomes provocadas e a destruição das estruturas sociais de outros povos.
Um dos casos mais gritantes é o de Churchill, adorado pelos políticos e opinião pública inglesa pela sua luta para salvar o Reino Unido e a Europa dos nazis. No entanto, esquecem-se que em 1943, as políticas de Churchill na Índia provocaram a “fome de 1943” em Bengala, que se estima ter causado a morte de cerca de 2 a 3 milhões de pessoas. De notar, que um estudo feito sobre seis fomes graves na India, concluiu que a “fome de 1943” foi a única que ocorreu num período em que não havia seca. Graves também são as descobertas da jornalista Madhushree Mukherjee, que concluiu, nos Cherwell Papers, que nos anos de 1943 e 1944, não obstante o Império ter 29 milhões de toneladas de trigo em reserva, Churchill e o seu governo negaram o pedido de 500 mil toneladas de trigo do Governador-Geral da India, destinadas a ajudar a combater a fome. No entanto, no final do ano de 1943, o governo inglês de Churchill tinha importado 26 milhões de toneladas de bens alimentares e produtos naturais para o povo inglês, criando uma reserva de mais de 18 milhões de toneladas, de acordo com Mukherjee, a maior reserva da história inglesa. À época, Churchill culpava o povo indiano por, nas suas palavras, “procriarem como coelhos” e também questionava a existência da fome pelo facto de Mahatma Ghandi ainda se encontrar vivo. É verdade que não podemos julgar os governos atuais ingleses por ações passadas, no entanto podemos criticar estes governos e estes políticos por exultarem Churchill, sem terem a coragem de nomear os seus erros.
O problema Inglês não termina com Churchill nem com o fim do Raj. Um caso atual e de gravidade considerável, embora com pouca cobertura mediática é o das Ilhas Chagos. As Ilhas Chagos são um arquipélago de 60 ilhas e de 7 atols a quase 10.000km de distância do Reino Unido, que pertenciam às ilhas Maurícias até 1965, quando foram separadas e compradas pelo Reino Unido por 3 milhões de libras às Maurícias que eram, ainda, à data uma colónia Britânica. Entre 1965 e 1973, o Reino Unido e os EUA expulsaram toda a população indígena, abandonando-a nas Maurícias e nas Seychelles, onde foram deixados a viver na pobreza e miséria. Mais recentemente, o Reino Unido, através do Governo das Maurícias, recompensou financeiramente alguns chagossianos e concedeu-lhes cidadania britânica. No entanto, hoje, cerca de 10.000 chagossianos ainda estão impedidos de voltar à sua terra, tendo o Reino Unido e os EUA, construído uma base militar no atol Diego Garcia, crucial para operações no Médio Oriente, no Corno de África, e no Sudeste Asiático.
Uma nota ainda para referir que na base de Diego Garcia, 64 refugiados Tamils foram encarcerados durante anos, num campo a céu aberto, guardados por seguranças privados em condições prisionais, tendo o Governo Britânico sido julgado em duas instâncias como culpado por emprisionar sem justificação e ilegalmente estes refugiados.
Em finais de 2024 e inícios de 2025, foi firmado um acordo entre o Reino Unido e as Maurícias, devolvendo a soberania das Ilhas Chagos às Maurícias, ficando o Reino Unido com um arrendamento de Diego Garcia por 99 anos, por uma renda anual de 101 milhões de libras. No entanto, este acordo que tem apoio americano, tem sido alvo de críticas e protestos do povo chagossiano, que afirmam que foram excluídos pelos Governos das Maurícias e Reino Unido das negociações e que este acordo lhes retira soberania, direitos e a sua terra. O povo chagossiano é de origem diferente do maurício, tem a sua própria língua, música e cultura, como também raízes históricas próprias. Não é só o povo chagossiano que critica este acordo, também um painel independente das Nações Unidas o critica por não garantir os direitos dos chagossianos, e por restringir o seu direito a regressar à sua terra natal.
A Commonwealth
A Commonwealth, a versão moderna do Império Britânico, é um conjunto de Nações na sua maioria com ligações diretas ao Reino Unido. Tendo a maioria dos países sido colónias britânicas, e sendo algumas ainda uma espécie de colónias, como a Austrália e o Canadá e Santa Lúcia, estados soberanos que ainda mantêm o Rei como Chefe de Estado. Os 56 países que a compõem constituem, supostamente, um espaço voluntário de cooperação entre Estados, unidos por supostos laços culturais e históricos. A Commonwealth funciona, pois, como a extensão simbólica do império marcada por uma hierarquia implícita onde o Reino Unido está claramente fixado ao centro, exemplificado pelo facto de o Rei Carlos III ser Chefe de Estado de 15 países. Grave ainda é a forma como o Reino Unido usa esta rede para manter influência política e económica, enquanto evita qualquer debate sério sobre reparações coloniais. As antigas colónias são convidadas a celebrar a herança comum, mas não podem exigir reparações nem justiça histórica.
A Commonwealth é um mecanismo de soft power, ao serviço dos governos Britânicos para os ajudar a manter a sua relevância global sem os confrontar com a sua verdadeira perda de poder, nem serem forçados a reparações e indemnizações pelos seus múltiplos crimes coloniais, nem a devolverem o património saqueado ao longo dos séculos.
O neocolonialismo britânico representado pela Commonwealth é uma resposta à perda de poder do pós-guerra, em que os Estados Unidos e a União Soviética emergiram como as duas forças hegemónicas.
O caso francês, o universalismo
A França apresenta-se como a pátria do universalismo, dos direitos humanos e da igualdade. Contudo, este universalismo é usado historicamente como uma ferramenta da negação colonialista. Ao afirmar que todos são iguais perante a República, a França recusa reconhecer as especificidades, violências e desigualdades do seu passado e presente colonial. Enquanto Macron passeia em Davos a condenar o neoimperialismo e neocolonialismo Americano em relação à Gronelândia e América do Sul, a França continua a exercer o seu controlo colonial pelo mundo.
Françafrique
A história francesa do último século é inseparável de África. Não nos podemos esquecer quando falamos da história recente colonial francesa, da Guerra da Argélia, dos cerca de 1.500.000 argelinos mortos e outros milhares torturados entre 1954 e 1962, nem dos vários testes nucleares efetuados no país entre 1960 e 1965. Recomendo a leitura de Les Damnés de la Terre (traduzido em Os Condenados da Terra) de Frantz Fanon para aprofundar sobre o tema da Guerra da Argélia.
A chamada Françafrique não é um conceito académico, é uma realidade política. Durante décadas, a França manteve e ainda mantém uma rede de controlo económico, militar e político sobre as suas antigas colónias africanas, apoiando regimes autoritários, interferindo em processos eleitorais e garantindo acesso privilegiado aos recursos naturais estratégicos, tudo isto em nome da estabilidade, da luta contra o terrorismo ou até de uma suposta cooperação. É de notar que três países que tiveram forte “apoio” militar e económico francês Mali, Burkina Faso e Níger tiveram todos golpes de estado nos últimos anos que levaram à expulsão de milhares de militares franceses, os quais ocorreram em parte devido ao alto sentimento anti França na região do Sahel.
Também no plano económico se verifica a influência francesa. O franco CFA ainda hoje é utilizado por várias antigas colónias francesas, um símbolo claro da continuidade colonial. O franco CFA está dividido em duas moedas: o XOF (franco CFA da África Ocidental) usado pelo Benim, Burkina Faso, Cote d’Ivoire, Guiné-Bissau, Mali, Níger, Senegal e Togo; e o XAF (franco CFA da África Central) usado pelos Camarões, Chade, Gabão, Guiné-Equatorial, República Central Africana, e a República do Congo. Ambos os francos CFA têm um valor de câmbio fixo com o Euro – 1 euro equivale a CFA 655.96. Adicionalmente, até 2021, os países membros que usam o XOF tinham que depositar no mínimo metade das suas reservas estrangeiras na Direção Geral do Tesouro Francês, exigência esta que se mantém para os estados-membros que usam o XAF. Por último, no plano económico é de notar que as notas usadas pelos estados africanos que pertencem ao CFA são impressas em França e que o CFA é a única moeda colonial herdada ainda em uso no mundo. O sistema monetário controlado por Paris é uma forma de controlo colonial, que limita a soberania económica de vários estados soberanos e perpetua uma relação de dependência.
Os territórios ultramarinos Franceses
Tal como o Reino Unido, a França mantém ainda hoje 13 territórios sobre o seu controlo direto, a Guiana Francesa, a Nova Caledónia, a Polinésia Francesa, Mayotte, entre outros.
Na Nova Caledónia, o povo indígena Kanak (cerca de 112.000 numa população de 300.000) luta há vários anos pela independência. Em 2024, sete líderes independentistas foram presos e levados para França (17.000km de distância) por organizarem protestos contra uma lei que daria direito de voto a 40.000 cidadãos franceses no território, diluindo assim o apoio independentista na região. A França implementou um estado de emergência no território para conter os protestos entre o dia 15 de maio de 2024 e o dia 28 de maio de 2024, no entanto manteve a proibição de protesto, recolher obrigatório, restrições a ajuntamentos, e venda de álcool até abril de 2025, restringindo o direito de protesto e de greve durante quase um ano. Adicionalmente, um dos líderes dos protestos, Christian Tein, que tinha sido preso, foi mantido durante um ano em prisão solitária em França, tendo sido libertado em 2025, mas proibido de regressar à sua terra natal pelas autoridades francesas.
Na Oceânia, a França também testou as suas bombas nucleares, testes realizados entre 1966 e 1996, nos atols Mourea e Fangataufa. O número total de testes está entre os 175 e 181 no espaço de 30 anos, detonando 193 ogivas nucleares. Estes testes afetaram a vida de cerca de 110.000 pessoas no Taiti, e deixaram um rasto de doenças, contaminação ambiental e sofrimento que nunca foram devidamente reparados. O estado Francês continua a recusar a maior parte dos pedidos de compensação pelas populações afetadas, entre 2010 e 2017, tendo 97% dos pedidos sido recusados. Em 2024, 70% dos pedidos de recompensa foram recusados, mesmo depois de uma comissão parlamentar francesa ter criticado a falta de transparência e os cortes na compensação das vitimas.
Mayotte, arquipélago localizado entre Moçambique e Madagáscar, recebeu, após a passagem do ciclone Chido, em 2024, que matou 40 pessoas e destruiu cerca de 90% dos serviços, a visita de Macron, que foi, na altura, fortemente atacado pela falta de apoio, pela falta de água, e pela falta de segurança. Em resposta às criticas, Macron respondeu dizendo que “Se não fosse a França, vocês estariam ainda mais na m…., 10.000 vezes mais”.
Estes territórios são espaços onde a soberania é limitada, onde a população local não tem poder político real e onde o Estado destrata os seus cidadãos. O colonialismo francês não terminou, foi só constitucionalizado. A outra face do problema é que os políticos franceses não se interessam por estas populações, elas são vistas como dispensáveis.
Europa – memória seletiva
Não se julgue, contudo, que o problema se circunscreve apenas a estes dois países. É um problema transversal a todos os países europeus historicamente de passado colonial.
A Bélgica, responsável por mais de 10 milhões de mortos no Congo, que sempre que uma aldeia não atingia as quotas necessárias de borracha, cortava as mãos da população, continua sem oferecer um pedido de desculpas oficial nem reparações financeiras. Numa visita à República Democrática do Congo, em 2022, o rei belga expressou somente remorsos, afirmando que as ações belgas eram injustificáveis e racistas, como se tal fosse suficiente pelos 75 anos de violações, de destruição, mortes, e crimes. A Itália, que em três dias na sua ocupação militar da Etiópia em 1937, matou cerca de 20% da população de Addis Ababa. A Dinamarca, que entre 1960 e 1991, secretamente forçou mais de 350 mulheres, jovens e crianças com menos de 12 anos kalaallit (inuítes groenlandeses) a usarem dispositivos intrauterinos, ou a serem vacinadas com hormonas de controlo de natalidade. No caso da Gronelândia, o estado dinamarquês continuou até 2025 a usar testes psicológicos sem bases científicas para remover bebés a mães kalaallit, sendo que nalguns casos, e embora o governo dinamarquês tenha já proibido tais testes, algumas crianças ainda não foram entregues às mães.
E Portugal? Não nos podemos esquecer da Guerra Colonial, da morte e destruição que causámos em Angola, Moçambique e na Guiné, nem dos séculos de controlo, pilhagem e de escravatura que promovemos no ultramar. No entanto, o Governo português mantém a linha de todos os anteriores governos, rejeita o começo de qualquer processo ou programa de reparações históricas.
Descolonizar é perder poder, é isso que a Europa teme
Verdadeiramente, descolonizar não é um exercício simbólico de reconciliação. É um processo profundamente político que implica redistribuição de poder e o fim de privilégios históricos. É por isso que a Europa resiste. Enquanto o Reino Unido se refugiar na Commonwealth, enquanto a França continuar a dominar a economia de estados soberanos, enquanto a Bélgica e Portugal continuarem a recusar pedir desculpas e a reparar as suas vítimas coloniais, o colonialismo continuará vivo.
O colonialismo europeu não é só um erro do passado, é uma escolha do presente. E enquanto esta escolha não for corrigida e revertida, a Europa continuará a falhar no teste da sua narrativa – o da coerência entre os valores que proclama e as práticas que perpétua.
A Europa enfrenta em 2026 uma escolha clara. Ou continua a esconder-se atrás de narrativas confortáveis e seletivas, ou enfrenta, com honestidade e coragem, o seu legado colonial e as suas expressões contemporâneas. Descolonizar não é retirar estátuas nem pedidos de desculpa vazios. É devolver poder, é reparar injustiças, é aceitar a perda de privilégios históricos. Enquanto não agirmos para verdadeiramente acabarmos com o colonialismo continuaremos a ser cúmplices de um sistema que dizemos já ter superado.
O colonialismo não morreu. Apenas se tornou politicamente aceitável. E essa é a sua forma mais perigosa.
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