No PSD sempre foi possível encontrar sociais-democratas, democratas-cristãos, sociais-liberais, libertários e até simples pragmáticos.
Foi baseado nesta diversidade que o partido cresceu e se fez um pilar da nossa democracia. Na sua história e na história dos governos que liderou já foi aquilo tudo e ainda outras coisas mais. Teve crises e cismas, os seus congressos foram (até ao advento das diretas) momentos de intensa luta política que refletiam posicionamentos políticos muitas vezes completamente opostos e nem quando havia poder havia paz naquele partido.
Uma antiga militante de primeira linha, praticamente fundadora do partido, dizia-me que na origem do PSD havia uma espécie de anarquia e uma liberdade fascinantes.
No fundo, era essa argamassa feita de liberdade e irreverência que unia as pessoas no partido.
Ter aquela miríade de sensibilidades e de guerras internas nunca pôs em causa a sobrevivência do PSD. O que nunca esteve em causa foi o chão comum democrático, por muito que o seu funcionamento interno se deteriorasse. Um militante podia querer mais ou menos Estado na economia do que outro, podia querer mais ou menos saúde pública do que um seu companheiro, mas não havia espaço para quem quisesse destruir as instituições democráticas, quem fizesse do racismo e da xenofobia bandeira política, quem desejasse rasgar a Constituição.
O que Montenegro na fatídica noite de 18 de janeiro declarou foi que era possível ter no mesmo partido alguém que defende a democracia liberal e quem não a queira. Disse mais, afirmou que para ele os militantes do partido ou eleitores do PSD votarem na extrema-direita ou num social-democrata era igual.
A pergunta é simples: pode um partido sobreviver com, digamos, este nível de pluralidade? Claro que não.
Melhor, pode continuar a existir com o nome de partido e com registo no Tribunal Constitucional, mas deixa de representar qualquer tipo de ideia, projeto ou mesmo interesse.
Nesse sentido, é um partido morto. Até pode continuar a chamar-se PSD e ter na sede fotos dos ex-líderes, mas já não representa nenhum tipo de valor que associamos à história do partido, nem sequer o da defesa da democracia face a quem quer destruí-la.
Mas o facto é que ninguém no PSD se mostrou preocupado com esta nova realidade. Todos encolheram os ombros quando o presidente do partido não apoia um democrata contra quem quer destruir o valor mais importante para o partido e que é a primeira razão da sua existência: a democracia e a sua defesa.
Diga-se em abono da verdade que havia sinais preocupantes. Um governo do PSD propor uma legislação laboral que não põe em primeiro lugar o trabalhador ou chegar-se ao cúmulo de fazer uma lei de imigração e sobretudo da nacionalidade que mereceu aplausos dos populistas já dizia muito.
Mas chegar-se ao limite de nem militantes nem principais figuras se incomodarem por a liderança não tomar uma posição definitiva de defesa dos princípios democráticos…
O mais próximo que se viu de contestação foi um artigo de Matos Correia que, de forma evidente, preferiu ignorar a posição de Montenegro e se limitou a afirmar que, nestas eleições, um militante do PSD só pode votar Seguro.
Escrevi aqui na semana passada que ninguém teve a coragem de dizer o óbvio sobre a posição da liderança do partido, mas ingenuamente pensei que passados uns dias existiriam cartas abertas e abaixo-assinados de militantes, um ou dois pedidos de congresso, mas nada: não há maior prova de que o velho espírito do PSD e dos seus combativos militantes morreu.
O David Dinis afirmava num artigo no Expresso que os eleitores da AD têm muito mais juízo do que os seus intérpretes. Espero que tenha razão. Aliás, sabemos que até há pouco tempo a esmagadora maioria dos habituais votantes do PSD rejeitava qualquer tipo de acordo com o Chega e afirmava jamais vir a votar nessa organização – o que, graças ao processo de normalização dos populistas promovido por Luís Montenegro, já não acontece de forma tão vincada.
Há aqui problemas intransponíveis. Se os eleitores do PSD votarem na sua esmagadora maioria em Seguro, há uma evidente dessintonia entre o partido e quem vota nele. Não será preciso repetir, mas ser indiferente ter Seguro ou Ventura como Presidente da República não é um assunto qualquer. Das duas uma: ou os militantes decidem arranjar outro líder ou o partido deixa de representar os eleitores que votaram ele.
Como a primeira hipótese é de descartar, principalmente por Montenegro ter uma legitimidade como primeiro-ministro inatacável, só resta a segunda.
Há um evidente vazio na política portuguesa: não há neste momento um único partido que represente as pessoas de centro-direita. O PSD, pelas mãos de Montenegro, abandonou definitivamente esse espaço. Está agora a lutar com o Chega para liderar o populismo tão em voga aqui e no resto do mundo. A Iniciativa Liberal ou o Cotrinismo são projetos libertários sem nada a ver com um centro-direita moderado, humanista e personalista.
Não sei se é pouca vontade, cobardia, calculismo ou se pura e simplesmente não há gente nessa área política para liderar um projeto com essas características. Sei, no entanto, que há muitas pessoas no centro-direita que não se sentem representadas por nenhuma força política. Também sei que quanto mais tempo demorar esse projeto, mais pessoas se desencantarão com a política.
O PSD deixou o espaço que ocupou desocupado, o seu espaço será preenchido por outra força política. É só uma questão de tempo. Pouco tempo.
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