Ensaio: A IA não é uma revolução digital, mas uma revolução energética

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Ensaio: A IA não é uma revolução digital, mas uma revolução energética

Fazemos uma pergunta ao ChatGPT e a resposta surge em segundos. Parece imaterial. Mas entre a pergunta e a resposta, milhares de processadores trabalharam em simultâneo dentro de edifícios sem janelas, ligados a subestações, sistemas de refrigeração e contratos de energia que não podem falhar. Chamamos-lhe nuvem, como se fosse leve e sem corpo. Mas a nuvem tem morada. Tem cabo. E tem contador elétrico.

Em maio de 2025, a Nvidia mostrou onde imagina o futuro físico da Inteligência Artificial. Não é na Europa. É no deserto saudita.

A empresa cujos processadores alimentam a esmagadora maioria dos sistemas de IA do mundo anunciou uma parceria com a Humain, ligada ao fundo soberano saudita, para desenvolver fábricas de Inteligência Artificial com capacidade projetada até 500 megawatts ao longo de cinco anos. A primeira fase inclui um supercomputador com 18 mil processadores gráficos de última geração. A Nvidia não tomou apenas uma decisão tecnológica. Tomou uma decisão energética.

É esta a mudança que o debate público ainda não assimilou. A Inteligência Artificial entrou na nossa vida como revolução digital. Mas, à escala a que está a crescer, já se comporta como uma revolução energética. O que vai decidir quem lidera esta corrida não é apenas o melhor algoritmo. É, cada vez mais, a capacidade de garantir eletricidade abundante, estável e competitiva.

Uma nova indústria pesada

Os números mostram porquê. A Agência Internacional de Energia estima que os centros de dados do mundo consumiram cerca de 415 terawatts-hora de eletricidade em 2024. Em 2030, poderão ultrapassar os 945 terawatts-hora, o equivalente a cerca de 18 vezes o consumo elétrico anual de Portugal e a cerca de um terço de toda a eletricidade produzida hoje na União Europeia.

O principal motor desta escalada já não é a computação empresarial tradicional nem o simples armazenamento na nuvem. São os centros de dados dedicados à Inteligência Artificial, cujo consumo deverá mais do que quadruplicar até 2030. Nas economias avançadas, esta infraestrutura poderá representar mais de 20% do crescimento da procura de eletricidade.

Nos Estados Unidos da América, no cenário de referência da mesma agência, os centros de dados poderão consumir mais eletricidade do que a produção combinada de alumínio, aço, cimento e químicos.

Durante anos, Dublin foi apresentada como o caso perfeito dos centros de dados europeus. Até que o sistema elétrico deixou de suportar mais carga sem comprometer o abastecimento a casas e hospitais

Isto muda a natureza do problema. A Inteligência Artificial continua a ser digital na aparência. Mas, na sua base material, já se comporta como indústria pesada.

E quando uma tecnologia regressa ao mundo físico, regressa também a uma velha verdade da História económica: quem controla a energia controla mais do que a energia. Controla a escala.

É por isso que a geografia do poder computacional não se discute em conferências. Redesenha-se em sistemas elétricos.

Ponto de convergência no Médio Oriente

O Médio Oriente entra aqui não como cenário exótico, mas como ponto de convergência entre duas forças decisivas: a instabilidade das cadeias energéticas globais e a concentração de condições materiais favoráveis à nova infraestrutura da IA. É, ao mesmo tempo, risco e oportunidade.

Risco, porque o estreito de Ormuz continua a ser o ponto de estrangulamento mais importante do mundo para o trânsito de petróleo e por ele passa também cerca de um quinto do comércio mundial de gás natural liquefeito. Oportunidade, porque os países do Golfo perceberam antes da Europa que a nova economia da computação exige energia barata, terreno disponível, rapidez de execução e capital abundante.

A ligação entre estas duas dimensões é decisiva. A energia não chega apenas por navios e moléculas. Chega por mercados. Se o risco no Golfo faz subir o petróleo, o gás e os custos de transporte, essa pressão repercute-se inevitavelmente na fatura energética europeia. E, quando esses custos sobem, sobem também os custos da eletricidade consumida por fábricas, indústrias e centros de dados. A cadeia de valor da Inteligência Artificial não começa no ecrã. Começa muito antes, na segurança do abastecimento energético e no preço marginal da energia.

Mas o Golfo não está apenas a beneficiar do facto de o mundo continuar dependente da sua energia. Está a tentar converter essa centralidade energética numa centralidade computacional.

Subir na cadeia de valor da energia

Durante décadas, a região foi vista sobretudo como fornecedora do combustível que alimentava a economia industrial do resto do mundo. Agora começa a posicionar-se como território apto a alojar parte da infraestrutura física da Inteligência Artificial. E percebe-se porquê. Continua a produzir cerca de um terço do petróleo mundial. Tem alguns dos custos solares mais baixos do planeta. Tem terreno abundante. Tem menos constrangimentos urbanísticos. E tem fundos soberanos com dimensão suficiente para investir milhares de milhões em infraestruturas pesadas sem depender da ansiedade dos mercados de curto prazo.

Quando a tecnologia mais importante do nosso tempo passa a depender de computação intensiva em energia, esta diferença deixa de ser apenas um problema industrial. Passa a ser um problema de poder

Na Arábia Saudita, por exemplo, há projetos solares com custos de produção abaixo de um cêntimo de euro por quilowatt-hora. No Dubai, projetos comparáveis foram adjudicados a cerca de 1,5 cêntimos. A média global ronda os 3,8 cêntimos. Estes valores referem-se a projetos específicos e a custos de produção, não ao preço final pago por qualquer consumidor. Mas revelam o essencial: o Golfo consegue combinar petróleo e gás, eletricidade solar muito barata, terreno disponível e capital abundante numa equação que a Europa, hoje, não consegue reproduzir.

E está a fazê-lo depressa. Em Oxagon, na zona de NEOM, foi anunciado um campus de IA com capacidade prevista até 1,5 gigawatts e um investimento inicial de cerca de 4,3 mil milhões de euros. Em Abu Dhabi, foi lançada uma plataforma de investimento dedicada exclusivamente à Inteligência Artificial, com parcerias já firmadas com a Microsoft, a Nvidia e a BlackRock. São projetos anunciados, não capacidade já construída. Mas o sinal estratégico é inequívoco. O Médio Oriente não está a abandonar o petróleo. Está a subir na cadeia de valor da energia. No século XX, exportava o recurso que fazia mover a economia industrial. No século XXI, quer oferecer a base energética que sustenta a economia computacional.

Fragilidade europeia

É precisamente aqui que a fragilidade europeia se torna mais visível.

A Europa quer soberania tecnológica. Mas entra nesta corrida com energia mais cara, redes mais lentas e menor margem para errar. Quer liderar a infraestrutura decisiva do século XXI sem ter ainda garantido a condição material que a torna possível.

A própria Comissão Europeia reconhece que os preços do gás e da eletricidade para a indústria continuavam, em 2023, entre duas a quatro vezes acima dos principais parceiros comerciais. Em 2024, o preço médio da eletricidade industrial na Europa rondou os 19 a 20 cêntimos por quilowatt-hora. Nos Estados Unidos, o valor comparável ficou perto dos 7,5 cêntimos.

Em hubs europeus como Frankfurt, Londres, Amesterdão ou Dublin, estudos setoriais estimam que a ligação de um novo grande centro de dados à rede possa demorar, em média, entre sete e dez anos, chegando nalguns casos a mais de uma década. E mesmo quando essa ligação é conseguida, a eletricidade industrial na União Europeia custa, em média, várias vezes mais do que no Golfo. E muito mais ainda do que custa produzir eletricidade solar em projetos de grande escala na região.

Quando a tecnologia mais importante do nosso tempo passa a depender de computação intensiva em energia, esta diferença deixa de ser apenas um problema industrial. Passa a ser um problema de poder.

A crise do gás russo não criou esta fragilidade. Revelou-a. Em 2021, cerca de 45% das importações de gás da União Europeia provinham da Rússia. Em 2024, essa quota tinha caído para cerca de 19%. A reconfiguração era necessária. Mas teve um preço pesado: a fatura de importações de energia da União Europeia atingiu 604 mil milhões de euros em 2022 e ainda se situava em 427 mil milhões em 2024. A Europa quer liderar a Inteligência Artificial, mas continua a depender de energia que chega por rotas que não controla e a preços que não dita.

Atenção à Irlanda

O problema não é apenas o preço. É também o tempo. Em Amesterdão, novos centros de dados foram travados até ao final da década. Em alguns dos principais polos europeus de centros de dados, a ligação à rede pode demorar muitos anos. A Europa não enfrenta apenas energia cara. Enfrenta também redes congestionadas, menos espaço físico disponível e uma crescente resistência política à infraestrutura pesada de que esta nova economia precisa. Quer liderar a computação do futuro com uma base energética mais frágil do que a dos seus concorrentes.

Mas é a Irlanda que oferece o aviso mais claro. Durante anos, Dublin foi apresentada como o caso perfeito dos centros de dados europeus: investimento estrangeiro, emprego qualificado, receita fiscal. Até que, em 2021, o operador da rede elétrica emitiu um alerta sem precedentes: o sistema já não suportava mais carga sem comprometer o abastecimento a casas e hospitais.

Seguiu-se, na prática, um travão quase total a novos centros de dados na Grande Dublin, que só começou a ser substituído no final de 2025 por uma política de ligação mais estável, mas muito mais exigente. Hoje, os centros de dados consomem 22% de toda a eletricidade irlandesa. Na área de rede associada a Dublin, estimativas setoriais apontam para uma quota local próxima de 80%.

A lição irlandesa é simples: quando a expansão digital avança mais depressa do que a infraestrutura elétrica, a conta acaba por chegar ao sistema inteiro.

Sines será o teste energético ao País

Portugal está hoje perante um teste do mesmo género.

Em Sines, a Start Campus apresenta uma capacidade planeada até 1,2 gigawatts, embora apenas 33 megawatts estejam operacionais e mais 200 em desenvolvimento. O projeto é ambicioso e o entusiasmo é compreensível. Mas a rede elétrica portuguesa abasteceu 51,4 terawatts-hora em 2024, segundo a REN, e no primeiro semestre de 2025 o consumo atingiu um máximo histórico de 26,2 terawatts-hora. A procura já está a subir.

As renováveis cobriram 71% do consumo em 2024, um máximo histórico. É uma conquista real. Mas a produção não renovável, praticamente toda a partir de gás natural, cobriu 10%, e as importações cobriram os restantes 20%. E quando a procura cresce e as condições para as renováveis são menos favoráveis, é o gás que volta a ganhar peso no sistema: no primeiro semestre de 2025, a REN reportou que o consumo de gás natural para produção de eletricidade mais do que duplicou face ao período homólogo.

Portugal compra hoje quase todo o seu gás em forma de LNG a fornecedores do Atlântico, como a Nigéria e os Estados Unidos. Mas o preço que paga é influenciado por um mercado global em que cerca de 20% do gás natural liquefeito passa pelo estreito de Ormuz. Mesmo sem depender diretamente dessa rota, o País sente os choques de preço que ali se geram.

É aqui que o tema deixa de ser técnico e passa a ser político. Quem paga o reforço da rede quando Sines escalar? O que acontece à fatura dos portugueses se a procura digital crescer mais depressa do que a capacidade firme do sistema? São perguntas que precisam de resposta antes de os edifícios ficarem cheios. Depois, como a Irlanda demonstrou, as condições já não se negoceiam. Gerem-se sob pressão.

Quem paga o reforço da rede quando Sines escalar? O que acontece à fatura dos portugueses se a procura digital crescer mais depressa do que a capacidade firme do sistema?

Sines não é apenas um projeto tecnológico. É um teste energético ao País.

Há, por trás de tudo isto, um padrão histórico que merece ser nomeado. Nos anos 70, a Europa descobriu a sua fragilidade quando o choque petrolífero expôs um modelo industrial construído sobre energia que não controlava. Meio século depois, o risco regressa com outra forma, mas com a mesma lógica: a Europa quer liderar a Inteligência Artificial sem ter garantido o recurso físico de que essa liderança depende.

A dependência tecnológica de amanhã pode estar a nascer da fragilidade energética de hoje.

A Inteligência Artificial entrou no mundo como software. Vai escolher os seus vencedores como a velha indústria sempre escolheu: pelo acesso à energia, por preço e por escala. O poder computacional não abranda. Instala-se onde a energia é mais barata, mais abundante e mais segura.

O resto não é soberania tecnológica. É dependência energética com um novo nome.

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