Em Sintra, um grupo de mulheres reuniu-se para dizer que a sua fé e a sua ideia de família mereciam um espaço político próprio. Em Washington, uma parte dessa mesma gramática política já não precisa de pedir espaço a ninguém. Ocupa um gabinete na Casa Branca, orçamento federal e uma comissão presidencial a trabalhar nisso.
É essa a diferença de escala que separa um fenómeno político ainda embrionário de um projeto de Estado. E é por isso que vale a pena olhar para o que já aconteceu do outro lado do Atlântico antes de decidirmos que o que nasceu no Palácio Valenças é apenas um episódio de folclore político nacional.
O ponto não é dizer que Sintra é Washington. Não é. É perceber como determinadas ideias passam da margem para o centro e para o sistema. Primeiro, como identidade, depois como movimento, finalmente como política pública.
A Administração Trump criou um “Escritório de Fé” dentro da Casa Branca, ocupado por evangélicos como Paula White, com ligação direta ao poder executivo. Criou também uma comissão presidencial para a liberdade religiosa e a sua missão declarada não é vaga nem diplomática. Passa por rever e, sendo possível, reverter a separação entre Igreja e Estado. Isso mesmo. Está escrito assim, com esta ambição.
E redesenhou os critérios da ajuda externa americana. Os fundos que antes podiam chegar a programas de saúde reprodutiva ou de diversidade nas organizações passaram a ser explicitamente redirecionados para entidades religiosas, sempre sob uma diretriz com um nome que é, ele próprio, um eufemismo. Na prática, isto significa privilegiar uma determinada visão moral e excluir políticas associadas ao liberalismo ou à inclusão.
Repare-se no que isto é: a mesma gramática de guerra cultural, só que instalada no aparelho do Estado mais poderoso do mundo, com orçamento, comissões e nomeações federais em vez de conferências de imprensa em palácios emprestados.
É aqui que o paralelo com aquilo a que a direita chamou “wokismo” se torna incómodo, precisamente porque é tão escancarado. As duas ideologias reproduzem a mesma tentação de transformar uma visão particular do mundo num critério de acesso ao Estado. Onde antes se exigia conformidade com a linguagem da diversidade, exige-se agora conformidade com uma certa e mais extremada leitura do cristianismo. A burocracia mudou o vocabulário, o lado da trincheira e os protagonistas, mas o mecanismo é facilmente reconhecível.
A diferença para o caso português não é, portanto, de natureza. É de estádio de desenvolvimento. O que em Sintra ainda é uma fundadora evangélica a pedir microfone e uma dúzia de deputadas a emprestarem-lhe visibilidade, em Washington já é política pública. O que aqui ainda depende de convencer a opinião pública, ali já pode ser transformado em decreto, comissão ou corte orçamental.
Um movimento social é reversível pelo voto, pelo cansaço mediático ou pela mudança de circunstâncias. Uma estrutura institucional, uma vez criada, tem outra capacidade de sobrevivência. Não desaparece simplesmente com uma má sondagem.
Existe ainda um pormenor que devia inquietar mais do que inquieta: a mesma Administração que coloca a fé no centro da sua agenda política entrou em rutura aberta com o Papa Leão XIV, que pediu o fim do uso de linguagem religiosa para justificar a guerra e o armamento. Ou seja, nem sequer é necessariamente a defesa do cristianismo enquanto tradição moral que está em causa. É o uso da fé como uniforme de combate político, descartável sempre que um Papa lembra que o cristianismo também pode pregar precisamente o oposto da beligerância.
É este o ponto que o movimento das mulheres conservadoras deveria ajudar-nos a perceber.
Não é preciso importar um movimento inteiro para importar a sua gramática. Basta começar por repetir os seus códigos, transformar diferenças culturais em batalhas morais e, finalmente, procurar no Estado os instrumentos para tornar essas batalhas permanentes.
É assim que funciona a contaminação política: a ideia não precisa de atravessar uma fronteira inteira para mudar um país. Pode começar por influenciar o discurso, depois o debate público, depois os partidos, até acabar nas instituições.
Portugal ainda está na fase do movimento cívico e da polémica de talk-show. Os EUA já estão na fase do poder.
E se há uma coisa que o trumpismo ensinou ao extremismo europeu nos últimos anos é que aquilo que começa como imitação cultural raramente fica por aí. Tende a pedir, mais cedo ou mais tarde, o poder que vê vingar do outro lado do oceano.
Sintra é o ensaio de um novo wokismo de direita. Washington já é o poder.
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