Uma bebida não começa quando abrimos uma garrafa ou uma lata, ou quando é servida à pressão, nem termina quando damos o último gole. Começa muito antes, nas matérias-primas que lhe dão origem, e prolonga-se para além do momento de consumo, até ao destino que damos à embalagem. Entre um ponto e outro, há recursos (muitos deles naturais), produção, logística, distribuição e comercialização. Pelo meio, há escolhas e é da soma dessas escolhas que todos fazemos que depende, na prática, a sustentabilidade.
Falar de consumo responsável é, por isso, olhar para todo este percurso. A forma como utilizamos os recursos e tomamos decisões em cada uma das suas etapas determina o impacto de uma cadeia de valor muito ampla e, consequentemente, o futuro que estamos a construir. É uma responsabilidade que exercemos em dois planos inseparáveis: enquanto profissionais, nas organizações que ajudamos a liderar, e enquanto cidadãos, nas escolhas que fazemos todos os dias.
Há uma metáfora que correlaciona muito bem tudo isto. Se pensarmos numa corrida de estafetas, sabemos que o testemunho tem de passar de mão em mão, num momento decisivo, para que se alcance um resultado que a todos vai beneficiar. Essa transição exige coordenação e eficácia para que cada participante cumpra da melhor forma possível o seu troço e crie as melhores condições para quem se segue. Só assim é possível continuar a avançar rumo à meta.
Na cadeia de valor que me leva a esta reflexão, encontramos, no ponto de partida, as matérias-primas e a relação com agricultores, produtores e fornecedores. É aí que se tomam as primeiras decisões que marcam todo o percurso: escolher com responsabilidade, trabalhar com parceiros que partilham padrões éticos e ambientais e utilizar os recursos de forma eficiente.
O testemunho chega depois às operações, onde as matérias-primas são transformadas e os produtos são produzidos, embalados e preparados para seguirem viagem. Nesta fase, cabe-nos utilizar a água, a energia e os materiais com rigor, prevenir o desperdício e procurar soluções mais eficientes e circulares, mantendo a qualidade e a segurança como princípios inegociáveis.
Mas o testemunho não circula apenas entre etapas, passa também entre organizações. É impensável que uma empresa percorra sozinha uma cadeia de valor desta dimensão. A sustentabilidade constrói-se com agricultores, fornecedores, clientes, distribuidores, municípios, entidades públicas, entidades gestoras de resíduos de embalagens e parceiros sociais. Exige pontes, inovação conjunta e relações sólidas. Os desafios são partilhados, tal como devem ser o conhecimento, a experiência e o compromisso necessários para lhes dar resposta.
É nos territórios que esta colaboração se torna concreta. Cada operação está ligada às pessoas, aos recursos, à cultura e às tradições de uma região. Estar presente significa escutar ativamente as comunidades, compreender as suas expectativas e contribuir para o desenvolvimento social. Significa respeitar os ecossistemas e valorizar a identidade local. A sustentabilidade só cumpre verdadeiramente o seu propósito quando se traduz em proximidade e serve o bem comum.
A partir daqui, o testemunho muda novamente de mãos e segue para a distribuição, para os pontos de venda e, finalmente, para quem escolhe, serve e consome. Também nesta etapa existe uma responsabilidade partilhada. No nosso setor, isso significa promover escolhas informadas e equilibradas, reconhecendo que o valor de uma bebida está na qualidade do momento e na consciência com que é apreciada.
Mesmo depois do consumo, o percurso continua. Garrafas de vidro e barris retornam à fábrica para serem lavados, higienizados e cheios de novo, enquanto as embalagens de uso único são encaminhadas para os ecopontos respetivos, permitindo que, através da reciclagem, os seus materiais regressem à economia. O gesto que poderia ser entendido como o fecho do ciclo representa, afinal, uma nova passagem do testemunho.
O futuro será, em grande medida, a resposta que dermos, todos os dias, a uma pergunta tão simples quanto decisiva: estamos a passar bem o testemunho?
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