Há quem não escreva crónicas elegíacas. Ou nem sempre. Não é por falta de mortos, evidentemente. Mortos há sempre. E, quando o morto é suficientemente conhecido, também não faltam cronistas. Isto é um problema para aquela espécie de escritor para quem a unanimidade produz logo um efeito adverso. Se toda a gente escreve sobre um determinado assunto, esse assunto quase de certeza deixa de lhe interessar. Se vinte e sete articulistas insistem, na mesma semana, que o morto era extraordinário, o cronista começa a achar que talvez seja melhor escrever sobre outra coisa qualquer.
O prazer infantil que se tira em não fazer aquilo que os outros fazem é, naqueles que para esse prazer se inclinam, uma vaidade extremamente resistente. Para o cronista que está apostado em preservar na sua voz um módico de singularidade, não querer parecer-se com mais ninguém é uma vantagem — e uma boa maneira de começar. Para o que não quer, o problema não se levanta. O que quer pode escolher ficar em silêncio. Mas tem, também, uma saída honrosa: escrever sobre esse assunto por um ângulo que mais ninguém encontrou. É uma pequena glória, a dobradinha da coluna de opinião: escrever sobre o que toda a gente está a escrever sem escrever sobre o que toda a gente está a escrever.
Esse ângulo é muitas vezes pessoal. Para isso ajuda que haja alguma afinidade com o morto. E a elegia tem uma dificuldade que lhe é própria. A morte. Num funeral, ninguém sabe exactamente o que dizer. “Os meus pêsames” é sempre a pior frase possível e, ao mesmo tempo, a única frase possível. Outras variações, do tipo “Sinto muito”, também não ajudam. Há pessoas que conseguem dizer coisas maravilhosas: “Era uma grande mulher. Ajudou-nos muito. Nunca perdeu o sorriso.” Essas pessoas existem, mas desconfio fazerem parte de uma minoria prodigiosa da espécie humana. O resto de nós aguarda pelo momento de dar um abraço, dá o abraço, e mesmo assim não tem bem a certeza se fez ou não a coisa certa.
Antigamente havia ritos. Entre outros benefícios, esses ritos tinham a utilidade de dizer aos vivos o que fazer quando os vivos não sabiam o que fazer. Hoje improvisa-se. E improvisa-se mal. Mas o cronista tem regalias que quem vai ao enterro não tem. Está sentado à secretária. Poupa-se à escolha entre o aperto de mão e o abraço. Tem tempo. Pode apagar uma frase. Pode escrever outra — e, mesmo assim, hesita.
Então já não é apenas o pudor. Para além de não querer ser confundido com a multidão, o cronista também não quer ser apanhado a dizer uma trivialidade sobre um homem que acabou de morrer. Tem receio de escrever menos do que o morto merece — e também pode ter receio de dizer mais do que o morto merece. E perturba-o, mais uma vez, a hipótese de escrever sobre a mesma coisa que todos escreveram antes dele e continuarão a escrever depois. Mas é pena. O morto, em princípio, não tem culpa nenhuma disto. Talvez fosse justo que o cronista lhe dedicasse mais um texto.
É nestas ocasiões que normalmente lhe ocorre o seguinte pensamento: “Já toda a gente disse tanta coisa, para quê mais um texto?” A objecção não é descabida. Se não havia particular afinidade, pode ser preferível não aparecer de repente, ao lado do caixão, como quem se descobre íntimo de alguém exactamente no dia em que esse alguém morre. O cronista pode não querer ser tomado por salafrário. Há muitos salafrários e estão sempre na linha da frente. Não podemos censurá-lo por não estar ansioso em partilhar com o mundo o que o morto significava para ele, nem em transformar a morte alheia num capítulo da sua autobiografia.
Compreende-se toda esta parcimónia. Com tanta gente tão pronta a acrescentar parágrafos diante da morte, até pode dar-se o caso de o silêncio de quem escreve ser uma forma — ainda que obtusa — de homenagem. Não é por acaso que os cemitérios são lugares sem barulho. Porque havia o cronista de se juntar aos que perturbam esse sossego?
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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