“Ela podia passar o dia todo na piscina da mansão dela a beber champanhe francês e a comer ostras. Em vez disso, passa dias e noites em reuniões políticas, a calcorrear bairros, a encontrar soluções para situações-limite. Situações que nos deixam maldispostos só de saber que existem e que ela em vez de ignorar tenta resolver. O ativismo não tem votos de pobreza. Isso são os Franciscanos e as Carmelitas Descalças.” Acabei o telefonema já com a voz uns dois tons acima do recomendável, exasperada a defender uma pessoa que nem conheço assim tão bem desse crime odioso que é ter a pretensão de lutar contra a desigualdade tendo nascido num berço de privilégio. Quem me ouvia do outro lado talvez nem tenha ficado convencido com os meus argumentos, mas lá acabou a chamada fingindo ao menos concordar, depois de levar com aquela minha prédica torrencial sobre como quem luta por um mundo melhor não advogar a pobreza, mas precisamente a possibilidade de todos vivermos melhor.
O simples enunciado sobre “a possibilidade de todos vivermos melhor” soa a conversa de fadas e unicórnios por quem se deixou capturar por um sistema que trata conquistas que efetivamente foram alcançadas – como uma melhoria brutal da vida da classe trabalhadora nos países ocidentais no pós-II Guerra Mundial – como uma utopia ridícula e inalcançável. Mas esta crónica não é sobre isso. Ou melhor, não é só sobre isso. Essa é a falta de imaginação política que nos paralisa. E esta crónica é sobre outra estratégia usada para nos impor limites, não só ao pensamento político, mas à própria ação: o moralismo.
O moralismo é uma velha ferramenta de opressão, que é especialmente eficaz porque é rapidamente interiorizada pelos seus alvos. O moralismo é desenhado para ser uma espécie de mordaça que colamos sobre nós próprios e da qual nos esquecemos tão rapidamente que ela deixa de ser um acessório imposto, para se tornar a própria pele. Quando o moralismo é eficazmente manejado por quem quer impor pensamentos e condutas, ele torna-se parte das identidades, aparece como um reflexo, é uma forma de controlo simultaneamente externo e internalizado.
O moralismo separa os puros dos impuros. Os morais são os que obedecem a todas as regras da perfeição. O problema é que a perfeição é inalcançável. O moralismo é em si mesmo impossível. E isso tem dois efeitos. Um é que, sem conseguirmos estar à altura das leis morais, passamos a penitenciarmo-nos permanentemente, pedindo desculpas pela nossa imperfeição, procurando os próprios erros para os assumir como falhas imperdoáveis. O outro é o policiamento contínuo como forma de expiação. Como não somos perfeitos e tropeçamos continuamente nas nossas falhas morais e contradições, começamos a procurar as dos outros, para com isso conseguirmos não só provar que não somos os únicos pecadores, mas que somos muito bons ao menos a apontar defeitos.
A ideia de que quem quer a justiça social tem de viver uma vida de pobreza é um dos pilares do moralismo político dominante
Fica excluído de ter uma posição política de ativismo pela igualdade aquele que nasceu no privilégio. Fica excluído de assumir uma posição qualquer aquele que algum dia teve uma opinião diferente, porque é proibido evoluir ou mudar de ideias. Fica excluído de lutar contra a injustiça de um capitalismo predatório e sem freios aquele que algum dia esteve envolvido em qualquer transação comercial ou que aprecie qualquer prazer da vida que se possa obter com dinheiro. As mulheres que lutem pelo feminismo têm de parar de fazer a depilação. Os comunistas têm de ir para uma gruta sem iPhones, cultivar a sua própria comida, com a enxada da cooperativa. Ou isso ou ir viver para a Coreia do Norte ou para Cuba (a Venezuela tem de deixar de ser opção, porque é oficialmente controlada pelos EUA e a China está demasiado evoluída tecnologicamente para estar no rol de destinos recomendados).
A ideia de que quem quer a justiça social tem de viver uma vida de pobreza é um dos pilares do moralismo político dominante. Não é o único. E a esquerda tem sido pródiga em dividir-se em pequenos grupos e grupelhos, cada um deles guardião da sua própria moral sectarista, lutando e dividindo-se em graus de pureza tão puros que a certa altura cada coletivo pode ter no máximo duas pessoas e mesmo assim não é certo que cumpram os critérios. Mas esses sectarismos têm um efeito pálido e quase risível quando comparados com esta ideia da pobreza como atestado de pureza ideológica. Uma ideia tão forte que encontrou raízes tanto à direita – que tanto se aproveita dela – como em alguma esquerda, entretida com as ideias de identidade e lugar de fala.
O moralismo dita que só o pobre pode falar de pobreza, o gay de homofobia, o trans de transfobia, a mulher de machismo, o negro de racismo. E com isso lá se vão o coletivo e a força que só se consegue quando os muitos que reivindicam justiça, igualdade e liberdade são mais do que os poucos que constroem o seu poder e a sua riqueza em cima da opressão.
O que é curioso é que nunca o pobre fica impedido de falar em nome dos que o oprimem. O pobre pode defender a baixa de impostos aos mais ricos, a insegurança a que se dá o nome de “flexibilidade laboral”, a austeridade que corta toda a rede social e uma hierarquia rígida de “manda quem pode, obedece quem deve”. O pobre que defende os direitos da classe que o explora é aspiracional. Não é incongruente. Não é hipócrita. Não tem uma falha moral.
O pobre nem sequer sabe que é pobre. Não consegue ir às compras perto do dia 20 sem consultar o saldo da conta, fica à espera do reembolso do IRS ou do subsídio de férias para comprar uns óculos, leva marmita todos os dias para o trabalho, paga férias em prestações e usa um cartão de crédito para pagar outro, enquanto faz uma dieta de latas de atum e esparguete. Mas não se identifica como pobre. Anda a pagar o carro, que às vezes é um Tesla ou um BMW, anda a pagar a casa, que às vezes é uma moradia V3 numa periferia sem transportes nem outro lazer que não seja a ida ao centro comercial para comprar um creme na Primor ou um top na Zara. E, por isso, acha que pobres são os outros e ninguém é capaz de lhe apontar essa disforia de classe social como uma falha moral.
Já agora: ninguém pede aos defensores do neoliberalismo que renunciem aos dias de férias e licenças pagas, aos fins de semana ou à possibilidade de terem os filhos numa escola ou universidade pública ou que paguem a fatura completa dos tratamentos que fazem no SNS quando têm o azar de ter uma doença muito grave a exigir tratamentos milionários. Já agora: ninguém os manda ir viver para a Argentina onde a fome está a tornar normal comer carne de burro.
Esta é a armadilha do moralismo político: reduzir a política a identidades e biografias. A política é pensamento, imaginação e ação concreta sobre o real. Não é preciso mudar o mundo todo ao mesmo tempo para se começar a mudar alguma coisa. Não é preciso pureza biográfica ou santidade. Não é preciso viver numa bolha de vácuo ideológico, seguindo preceitos como um asceta. É preciso ter uma ideia acerca do mundo e agir sobre ele. Com imperfeições, com hesitações, com erros, com evoluções. Mas sem medo.