Gritos e mais gritos, só uma voz. Umas vezes zangada, outras jocosa, outras misturadas com risos escarninhos seguidos de frases que não se percebiam mas que soavam aos piores insultos, palavras arranhadas e cuspidas. Seguia-se o som de coisas partidas, objetos atirados, barulhos abafados como os que fazem os sacos de batatas atirados ao chão. Só uma voz masculina, aguda, estridente. Como se aquele homem estivesse a gritar, a insultar, a bater numa sombra, num fantasma.
Eu sabia que ele não humilhava, não pisava, não torturava, uma visão. Eu sabia. Cruzava-me com ela na rua, no quiosque; fumava a mesma marca de cigarros que eu. Sorria-lhe muito, tocava no carrinho onde passeava o bebé, mas não conseguia olhá-la nos olhos. Não era para não ver as marcas que tantas vezes tinha no pescoço e na cara, que ela tanto tentava disfarçar; não era para não ver que, mesmo no pino do verão, andava sempre de calças, de mangas compridas, de blusas apertadas até ao pescoço.
Eu tinha vergonha. Vergonha das vezes em que punha a cabeça debaixo da almofada para tentar não ouvir os barulhos; das alturas em que corria para a minha porta, cheio de raiva, e deixava a mão congelada no puxador; das poucas chamadas que fazia à polícia, sempre respondidas laconicamente com um “isso já passa”; vergonha dos olhares dos outros habitantes do prédio, que sabiam tão bem como eu o que se passava e que, no elevador, depois das noites particularmente violentas, nem bons-dias davam uns aos outros – tal era o constrangimento. Tinha vergonha nessa altura, muita vergonha, e 35 anos depois não diminuiu nada; aliás, cresceu.
A minha cobardia é, pelo menos, igual à do escroque que batia naquela mulher. Eu, com o meu silêncio cúmplice, com a minha ausência de reação, aprovei cada bofetada, cada braço torcido, cada murro, cada rasgão de roupa, cada violação.
A mulher que não fazia um ruído. Talvez o seu silêncio fosse uma última forma de resistência, um último meio de conservar a dignidade – ou, simplesmente, não quisesse ajudar a acordar o bebé. Talvez achasse que só a sua própria voz o despertaria.
Cruzei-me com ela há poucos meses. A idade poupou-a: é uma mulher alta, bonita, com um sorriso sereno. Aparentemente de bem com a vida – como se eu fosse capaz de ver isso… Tentei tornar-me invisível, mas ela não me deixou. Disse-me que tinha saudades minhas e da minha mulher; mostrou-se triste quando lhe disse que nos tínhamos separado; perguntou pelos meus filhos. Fez-me um elogio profissional, vago, que mal registei. Só consegui perguntar-lhe pelo filho, e ela logo me informou de que tinha mais dois. Devo ter estremecido, mas não consegui perguntar o óbvio. Não aguentei mais. Inventei uma chamada a entrar, dei uma desculpa esfarrapada e fugi. Mais uma vez.
Foi a cumplicidade de milhões e milhões de homens como eu, que sabiam que estava tudo errado e olharam para o lado, que perpetuou, por séculos e séculos, esta miséria. E fomos poucos, muito poucos, os que ajudámos as mulheresna luta que elas travaram e continuam a travar
Esta é uma história com que vivo todos os dias, porque o que eu não fiz diz muito de mim. Tenho também de viver com as memórias dos relatos que antigas namoradas, amigas, ou até pessoas que apenas conheço vagamente, me fizeram sobre o que passaram. Nalguns casos sei mesmo quem são os carrascos, e vejo-os viver a vida como se fossem tão dignos de ser cumprimentados quanto qualquer outra pessoa – os mesmos que transformam a vida de quem deviam proteger num inferno que nem o mais sádico conseguiria imaginar. Alguém que devia amar-nos, respeitar-nos e cuidar de nós, num espaço que é o nosso castelo, a nossa proteção contra o mundo, humilha-nos, intimida-nos, reduz-nos ao mais miserável e desprotegido dos seres.
Não vou trazer para a minha cobardia tantos e tantos que (não) fizeram o que eu (não) fiz. Só arrasto para dentro dela os que mais me deixam o coração negro de revolta: os do “na altura era assim”, os do “no tempo em que ‘entre marido e mulher não se mete a colher’” e os do “porque não fugiam”.
Afinal, só no ano 2000 a violência doméstica se tornou verdadeiramente um crime autónomo; até lá, era um crime vago, diluído dentro dos maus-tratos. Sim, durante a minha vida, já depois de ser pai, torturar alguém na sua própria casa não era considerado algo especialmente grave. As autoridades só podiam intervir se houvesse queixa da vítima. Ou seja, apesar de já ser considerado um crime verdadeiramente autónomo, era imposto à vítima que passasse o cabo das tormentas num colchão de praia: arriscar perder os filhos, aprofundar dependências económicas e emocionais e, sobretudo, mostrar o mais íntimo, dizer o indizível.
Só em 2007, a comunidade achou que era um problema de todos, quando tornou o crime de violência doméstica um crime público. Só em 2007. Só em 2007.
Este último parágrafo soa a desculpa, não é? Éramos assim, era normal. Talvez. Afinal, tanta coisa mudou com o tempo. Tantos aspetos da nossa vida em comunidade que hoje consideramos insuportáveis, vis, causadores de arrepios na espinha, eram então tolerados, ou até pouco relevantes. Quem ligava à pedofilia há umas dezenas de anos? Quem achava nojentos os tipos que iam aos meninos no Parque Eduardo VII? Pois é.
É sobretudo por isso que escrevo isto. Porque na minha história não cabem homens que humilham e batem, que destroem vidas e se acham donos das mulheres, apesar das leis e da Constituição. Foi a cumplicidade de milhões e milhões de homens como eu, que sabiam que estava tudo errado e olharam para o lado, que perpetuou, por séculos e séculos, esta miséria. E fomos poucos, muito poucos, os que ajudámos as mulheres na luta que elas travaram e continuam a travar.
Quando li os números do Relatório Anual de Segurança Interna de 2025, soube que era uma boa ocasião para contar uma história que tinha presa no peito há demasiado tempo. Os números são horrendos, brutais: quase 30 000 participações por violência doméstica, das quais cerca de 70% das vítimas são mulheres.
Eu sei, o leitor sabe, todos sabemos que a realidade que o relatório mostra é apenas a ponta do icebergue. Continuamos a presenciá-la e a fazer muito pouco para a erradicar. Mas esse muito pouco já se vê. Há 35 anos, as mulheres agredidas e mortas em contexto de violência doméstica eram invisíveis. Hoje já há denúncias, já temos mais instituições de apoio, mais casas de abrigo, mais visibilidade.
O problema continua a ser nós. Os que continuamos a olhar para o lado. As leis, as instituições, os apelos mediáticos, ajudam, mas enquanto houver Pedros a olhar para o lado, nada vai realmente mudar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.