A roupa não é apenas roupa e costuma-se dizer que o hábito também faz o monge. Portanto, há noites de gala em que uma lapela errada consegue mais exposição televisiva do que três curtas-metragens portuguesas juntas. Os Globos de Ouro 2026 da SIC, realizam-se amanhã, 26 de setembro, pela primeira vez num sábado à noite, e o Coliseu dos Recreios vai voltar a encher-se de cinema, televisão, teatro, música, moda, humor, fotógrafos, estilistas, gente genuinamente elegante e outras pessoas que descobrirão, já diante das câmaras, que “preto” não é propriamente um dress code. Digo isto também com interesse de causa: faço parte da Academia de Notáveis dos Globos de Ouro e participei na seleção dos candidatos de Cinema. Portanto, além de escolher, resta-nos uma responsabilidade cívica elementar: não estragar a fotografia de grupo.
Comecemos pelo princípio. “Casual” não quer dizer calções, chinelos e uma T-shirt sobrevivente de cinco festivais de verão. “Smart casual” — o equivalente ao passeio ou ao chamado “esporte fino” à brasileiro — permite blazer, calças bem cortadas, camisa, sapatos decentes e, para elas, vestido curto ou midi, fato e tecidos com algum corpo. “Traje social” já pede mais cerimónia: fato escuro e gravata nos homens; vestido de cocktail, midi ou comprido nas mulheres. E black tie é outra conversa: smoking, camisa branca, laço preto e sapato formal. Um fato preto não se transforma em smoking por força da vontade. Para as mulheres, black tie significa roupa de noite e sofisticação, não necessariamente uma operação logística com três metros de cauda só para a fotografia. O white tie existe, claro, mas deixemo-lo para chefes de Estado, aristocracias resistentes e casamentos onde o orçamento da florista ultrapassa o de um filme português. O guia que serviu de ponto de partida a esta crónica distingue estes níveis e recorda uma verdade que devia estar bordada à entrada de qualquer passadeira vermelha: black tie não é Carnaval.
O problema é que a malta das artes, em Portugal, às vezes tem uma relação curiosa com a roupa de gala. A televisão aprendeu há muito que a câmara não perdoa e atores e atrizes, sobretudo quando acompanhados por marcas, estilistas ou bons costureiros portugueses, percebem, geralmente, que a passadeira vermelha também faz parte do trabalho. Depois há o resto do setor cultural, onde por vezes ainda reina a teoria romântica de que vestir bem é uma cedência ao capitalismo tardio. O resultado pode oscilar entre o professor universitário a caminho de uma conferência sobre Pasolini, o músico que parece ter acabado de descarregar os amplificadores e o cineasta que decidiu que “autor” é uma cor, normalmente cinzento amarrotado. Nada contra. Mas uma gala não exige que ninguém se transforme em George Clooney ou Cate Blanchett; exige apenas que se perceba onde se está. Regra simples: se o convite diz gala, vista-se como se fosse aparecer numa fotografia que ficará na Internet para sempre. Porque vai.
E este ano haverá muitas fotografias. A 30.ª edição regressa ao Coliseu dos Recreios, com Clara de Sousa novamente como anfitriã, cerca de 80 nomeados escolhidos pela Academia de Notáveis, novas distinções para Melhor Projeto em Entretenimento e Melhor Projeto em Humor e prémios especiais dos 30 anos. Outra novidade foi o convite aos vencedores da edição anterior para se juntarem ao processo de seleção dos novos nomeados. No Cinema, a lista de Melhor Filme junta A Memória do Cheiro das Coisas, de António Ferreira — o candidato português à pré-seleção aos nomeados ao Oscar de Melhor Filme Internacional de Hollywood —, Entroncamento, de Pedro Cabeleira, Hanami, de Denise Fernandes, Lavagante, de Mário Barroso, e O Riso e a Faca, de Pedro Pinho. Entre as atrizes estão Ana Vilaça, Cleo Diára, Denise Fraga, Isabel Abreu e Júlia Palha; entre os atores, Albano Jerónimo, Francisco Froes, Francisco Melo, José Martins e Sérgio Coragem. Noutras áreas surgem César Mourão, Diana Chaves, João Baião, Manuel Luís Goucha e Nuno Markl no Entretenimento; Bruno Nogueira, Joana Marques e Ricardo Araújo Pereira no Humor; Carminho, MARO, Miguel Araújo, Sara Correia e A Garota Não na Música. Material suficiente para uma grande gala e para várias teses sobre a diferença entre estilo pessoal e acidente têxtil.
A outra novidade é quase sociológica: os Globos passam para sábado. Durante anos, habituámo-nos ao domingo, essa noite estranha em que uma pessoa recebe um prémio perto da meia-noite e às nove da manhã seguinte já alguém pergunta por email se “teve oportunidade de ver a mensagem que lhe enviei ontem”. O sábado é mais civilizado e, curiosamente, coloca os nossos Globos fora da tradição dominical dos parentes americanos: os Golden Globes de 2026 realizaram-se no domingo, 11 de janeiro, e os Oscars no domingo, 15 de março. Portugal, por uma vez, resolveu mexer no calendário antes de Hollywood.
Conselho final aos nomeados, convidados, membros da Academia e restantes criaturas que amanhã atravessarão a passadeira vermelha da Rua das Portas de Santo Antão: não tentem ser outra pessoa, mas façam o favor de ser a melhor versão possível daquela que já são. Um bom fato que assenta bem vale mais do que uma marca berrada no peito. Um vestido simples e impecável derrota facilmente uma pequena explosão de cristais. Sapatos engraxados continuam a ser tecnologia perfeitamente atual. E, sobretudo, não confundam originalidade com vingança contra o espelho. Os Globos de Ouro celebram talento. A roupa tem de estar a condizer.
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