“Nada nem ninguém nos obriga a ir a jogo.” A frase é de Thomas Piketty, em O Capital no Século XXI, a propósito de David Ricardo e do princípio da raridade. E talvez seja uma frase que devêssemos voltar a ler.
Desde o século XVIII que economistas, filósofos e políticos discutem a desigualdade, a propriedade e a forma como se distribui a riqueza. Ricardo preocupava-se com a repartição do rendimento entre salários, lucros e rendas. Marx colocaria a propriedade e a relação entre capital e trabalho no centro da discussão. Piketty, dois séculos depois, regressou aos dados para nos mostrar que a desigualdade não é uma inevitabilidade histórica: aumenta, diminui e transforma-se também em função das escolhas políticas.
A História, portanto, já nos ensinou muito. O problema é que parecemos ter deixado de aprender.
A desigualdade continua a determinar quem tem casa, quem consegue ter filhos, quem pode estudar, quem envelhece com dignidade, quem herda e quem começa a vida sem património. Mas estes temas, estruturais e difíceis, foram muitas vezes empurrados para fora do centro da política.
Preferimos a espuma dos dias. O caso. O comentário. A polémica. A declaração. A reação à declaração. Enquanto isso, as grandes perguntas continuam à espera.
Quanto de desigualdade pode uma democracia suportar sem começar a comprometer a própria ideia de igualdade?
Não há uma resposta simples. E talvez esse seja precisamente o problema: deixámos de gostar das perguntas que não cabem num soundbite.
A desigualdade não é apenas uma questão económica. É também uma questão de perceção, de justiça e de poder. Aquilo que uma sociedade considera aceitável não é imutável. As regras do jogo foram construídas e, por isso, podem ser discutidas e alteradas.
Talvez a questão seja outra: e se o problema for termos deixado de acreditar que podemos mudar as regras?
E é aqui que o nosso tempo nos oferece uma oportunidade extraordinária.
A Inteligência Artificial pode transformar profundamente a forma como produzimos, trabalhamos e distribuímos riqueza. Pode concentrar ainda mais poder e património ou pode democratizar conhecimento, aumentar capacidades e reduzir desigualdades de acesso a ferramentas que durante muito tempo estiveram reservadas a poucos.
A tecnologia, por si só, não escolherá. Mais uma vez, serão as nossas instituições, as nossas políticas públicas e as nossas escolhas coletivas a decidir quem beneficia dela.
Talvez seja esta a grande discussão que estamos a adiar. Não apenas o que a IA será capaz de fazer, mas para quem o fará. Porque, afinal, continuamos no mesmo jogo que Ricardo e Piketty tentaram compreender há séculos. Só que agora temos a possibilidade de mudar algumas das suas regras. A questão é saber se ainda acreditamos que podemos fazê-lo.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.