Sentado à secretária, livro aberto, caneta na mão, a repetir frases até conseguir reproduzi-las sem olhar para a página. Há uma imagem de aluno que desde sempre nos foi familiar. Decora a definição. Decora a fórmula. Decora a data. Decora o nome. Na véspera do teste, sabe tudo. No dia seguinte, talvez já saiba um pouco menos. Uma semana depois, provavelmente quase nada. Mas teve boa nota. E nós, satisfeitos, chamamos a isso aprendizagem.
Talvez esteja na altura de admitir que andamos há demasiado tempo a confundir memória com conhecimento.
Não, memorizar não é inútil. Pelo contrário. A memória é uma das ferramentas fundamentais da aprendizagem. Uma criança que aprende a ler precisa de memorizar sons, palavras e padrões. Quem aprende uma língua precisa de guardar vocabulário. Quem aprende matemática precisa de dominar operações e conceitos. Não podemos pensar sobre aquilo que desconhecemos.
O problema não está em memorizar. O problema está em acreditar que memorizar chega.
Um aluno pode decorar a definição de democracia e não compreender verdadeiramente o que significa viver numa democracia. Pode saber de cor a data de uma batalha e não conseguir explicar porque aconteceu. Pode decorar uma regra gramatical e continuar a escrever incorretamente. Pode memorizar uma fórmula e ficar completamente perdido quando o problema apresentado no teste não é exatamente igual ao exemplo que resolveu na aula.
É aqui que começa o desconforto. O que é que estamos realmente a avaliar? A capacidade de aprender ou a capacidade de reproduzir?
Durante anos, construímos uma escola muito confortável para quem pergunta e responde de acordo com um guião. O professor transmite. O aluno memoriza. O teste pergunta. O aluno reproduz. A nota chega. O processo termina.
E depois admiramo-nos quando descobrimos que muitos jovens têm dificuldade em argumentar, interpretar, resolver problemas novos ou defender uma opinião.
Talvez não seja uma surpresa. Se durante anos lhes pedimos sobretudo respostas certas, não podemos ficar indignados quando descobrimos que têm medo de dar respostas diferentes.
A escola não pode transformar-se num enorme concurso de memória. Porque a vida não funciona assim. Ninguém chega a uma entrevista de emprego e é convidado a recitar cinco páginas de um manual. Ninguém enfrenta um problema profissional complexo com a pergunta: “Qual é a definição que decoraste?” Ninguém constrói uma relação, toma uma decisão ou resolve um conflito recorrendo simplesmente à reprodução mecânica de informação.
A vida exige outra coisa: compreender, relacionar, questionar, decidir, adaptar. E isso também se aprende. Aliás, talvez seja isso que mais precisamos de ensinar.
A chegada da Inteligência Artificial tornou esta questão ainda mais evidente. Hoje, uma máquina consegue encontrar informação, resumir um texto, explicar um conceito e produzir uma resposta em poucos segundos. Se a escola continuar a avaliar, sobretudo, aquilo que pode ser facilmente recuperado por uma máquina, estaremos a preparar os alunos para uma competição que dificilmente poderão vencer.
O nosso valor não está em sermos melhores máquinas de armazenamento. Está em sabermos o que fazer com aquilo que sabemos.
Mas atenção: isso não significa cair no extremo oposto e defender uma escola onde ninguém tenha de estudar, memorizar ou conhecer conteúdos. Essa seria outra perigosa ilusão. Não existe pensamento crítico sem conhecimento. É impossível questionar profundamente aquilo que não se conhece. É difícil argumentar sobre História sem conhecer História. É difícil interpretar literatura sem ter lido. É difícil compreender ciência sem possuir bases científicas. É difícil aprender uma língua sem memorizar palavras.
A questão não é escolher entre memória e pensamento. É deixar de tratar a memória como destino final. Memorizar deveria ser o ponto de partida, não a linha de chegada.
Talvez devêssemos começar a olhar de outra maneira para os testes, para os trabalhos e, sobretudo, para as perguntas que fazemos aos alunos.
Em vez de perguntar apenas “O que aprendeste?”, deveríamos perguntar também: “O que consegues fazer com aquilo que aprendeste?”; em vez de exigir apenas definições, pedir explicações; em vez de procurar apenas respostas, valorizar perguntas; em vez de premiar exclusivamente quem reproduz melhor, reconhecer quem consegue estabelecer relações, apresentar argumentos, encontrar soluções e pensar de forma autónoma.
Porque um aluno que sabe tudo de cor pode impressionar durante uma hora. Um aluno que aprendeu a pensar leva aquilo que aprendeu para a vida inteira.
E talvez seja essa a diferença que temos de recuperar.
A escola não deveria formar cabeças cheias de respostas. Deveria formar pessoas capazes de fazer boas perguntas. Caso contrário, continuaremos a confundir uma boa memória com uma boa aprendizagem. E não são, de todo, a mesma coisa.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.