O que é que uma mulher sérvia e uma cubano-americana têm em comum? Uma pôs o corpo numa mesa e disse ao público: façam o que quiserem. A outra caiu do 34º andar e o marido foi absolvido. As duas fizeram da violência sobre o corpo feminino a matéria do seu trabalho. Uma sobreviveu para contar. A outra não.
Não vou chamar-lhe violador. Não porque não o seja. Mas porque a palavra assusta e quando a palavra assusta o leitor fecha a página e volta para o Instagram e é exatamente isso que o sistema quer, que feches a página, que mudes de assunto, que digas “isso não é comigo” e sigas em frente como se seguir em frente não fosse a definição exata do problema.
Vou chamar-lhe conquistador. Porque é assim que ele se vê. Porque é assim que o sistema o ensinou a ver-se. E porque conquistador, em Portugal, ainda é um elogio.
Em 1974, Marina Abramovic pôs-se de pé numa galeria em Nápoles e disse ao público: façam o que quiserem com o meu corpo. Setenta e dois objetos numa mesa. Uma rosa. Um bisturi. Uma pistola carregada. Seis horas. Nas primeiras horas, flores. Depois cortaram-lhe a roupa. Depois a pele. Depois um homem apontou-lhe a pistola à cabeça. E quando acabou, quando ela voltou a ser gente, o público fugiu. Não por vergonha do que tinham feito. Por vergonha de terem descoberto que eram capazes.
A história começa aqui. Na permissão. Ninguém a dá com decreto. Dá-se com silêncio. Com piadas. Com “boys will be boys”. Ou seja, “eles são assim, ó filha, não ligues”. Com: “Ela também não facilitou?” Com o olhar que avalia a saia antes da queixa.
E agora há um movimento inteiro de mulheres a fazer o mesmo. Reuniram-se num palácio público em Sintra para defender os valores que mantêm as mulheres caladas, grávidas e obedientes. Na performance da Abramovic, o público podia escolher a rosa ou a pistola. Estas escolheram a pistola. E apontaram-na às outras.
Mas eu sei que estão a pensar: isto é pesado, Mia, onde estão os Rodriguinhos? Calma, filha. Uma outra cheia de graça escreve crónicas no De Norte a Sul sobre espiritualidade, deusas e coisas bonitas. Eu escrevo na VISÃO sobre francesinhas, Ronaldos e coisas que ardem. Somos a mesma pessoa. Ela acha que eu sou vulgar. Eu acho que ela precisa de um copo. A série Filhos da PIDE, que é dela, mapeia os arquétipos da masculinidade portuguesa. Este é o quarto. E é o que ela não teve coragem de publicar no jornal dela. Então mandou-me a mim. Ela disse que não precisa de franquesinhas para segurar o leitor. Eu respondi que a francesinha é cultura e que ela que se calasse. Ficámos assim. Mas o texto veio para a VISÃO. Pindérica. Porque a cultura de violação em Portugal não vive só nos tribunais. Vive na mesa do jantar. No tio que no Natal diz “aquela apresentadora, comia-a” à frente da sobrinha de 14 anos. E toda a gente ri. E a sobrinha aprende que o corpo de uma mulher é um prato que se comenta. No pai que pergunta ao filho “já te desenrascaste?” como se o corpo de outra pessoa fosse um problema logístico. No grupo de WhatsApp onde se partilham nudes sem consentimento e se chama “brincadeira”. É tão normal que nem parece violência. E é exatamente isso que o torna violência.
Reuniram-se num palácio público em Sintra para defender os valores que mantêm as mulheres caladas, grávidas e obedientes. Na performance da Abramovic, o público podia escolher a rosa ou a pistola. Estas escolheram a pistola. E apontaram-na às outras
O sistema ensina aos rapazes que o desejo é urgência biológica, que a conquista é natural, que a insistência é romantismo, que o “não” é um “talvez” e o “talvez” é um “sim” dito baixinho. Andrew Tate, preso por tráfico humano e violação, continua a ser profeta de milhões de adolescentes. Porque a cadeia, para a masculinidade tóxica, é certificado de autenticidade. O problema é o mundo que fez com que um rapaz de 15 anos olhe para um traficante e veja um modelo.
E depois há o que acontece num ecrã de cinco polegadas. Tirar o preservativo sem consentimento, que é violação mas que muita gente acha “falta de educação”. Partilhar o corpo de alguém como troféu de grupo, que é violência sexual mas que muita gente acha “burrice dela que se deixou filmar”. A violência migrou para o digital e o digital é o balneário do século XXI, onde os rapazes aprendem o que é ser homem longe dos olhos dos adultos. E o que aprendem, filha, é de meter medo.
Em Portugal, uma em cada três mulheres foi vítima de violência sexual. Uma em três. Pensem nisso da próxima vez que estiverem num café com três amigas. E provavelmente nunca contou. Porque contar é ouvir “tens a certeza?”, “não foi só uma vez?”, como se fosse preciso cartão de fidelidade.
Em França, Gisèle Pelicot foi drogada pelo marido durante quase uma década e violada por mais de 50 homens recrutados na internet. Todos condenados. Quando o caso chegou a tribunal, ela recusou o anonimato. Recusou a vergonha. E disse: “A vergonha tem de mudar de lado.” O Rhythm 0 da Abramovic durou seis horas. O de Gisèle durou anos. A diferença é que na galeria o público fugiu. No tribunal, o público aplaudiu-a de pé.
Ana Mendieta. Artista cubano-americana. Passou a vida a denunciar a violência sobre corpos de mulheres. Em 1985, caiu do 34º andar do apartamento que partilhava com o marido. O escultor Carl Andre foi acusado de homicídio. E absolvido. Os vizinhos ouviram-na gritar “não, não, não” antes de cair. O tribunal ouviu os mesmos gritos e decidiu que não eram suficientes.
Não, não, não. Três vezes. E não foi suficiente.
Quantas mulheres precisam de cair do 34º andar para que o sistema deixe de absolver quem as empurra?
Este arquétipo não é um homem. É todos os homens que ficaram a olhar. E se estás a ler isto e nunca violaste ninguém e achas que não é contigo, pergunta-te: quantas vezes ficaste a olhar? Quantas vezes riste da piada? Quantas vezes o teu silêncio foi a permissão de que alguém precisava?
O Rhythm 0 não acabou em 1974. A mesa ainda está posta. E o público ainda está a decidir se pega na rosa ou na pistola.
A única diferença é que agora a artista tem voz. E o “não” não precisa de ser dito três vezes. Uma basta. Uma sempre bastou. E quem não percebeu isso, não é complexo. É perigoso.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.