Como pode a química ajudar a construir um futuro mais sustentável? Que inovações poderão impulsionar a próxima geração de tecnologias verdes? O que temos de mudar — e que estratégias devemos seguir — para que o progresso de hoje não comprometa o futuro?
Foram estas algumas das perguntas que estiveram no centro da 11.ª Conferência Internacional da IUPAC sobre Química Verde — Green IUPAC 2026 — que se realizou na Reitoria da Universidade NOVA de Lisboa e reuniu cerca de 500 participantes de 41 países.
Promovida pela União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC), através do seu Comité Interdivisional de Química Verde para o Desenvolvimento Sustentável (ICGCSD), e organizada em Portugal em parceria com a Sociedade Portuguesa de Química (SPQ), a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCT) e a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, a conferência trouxe a Lisboa uma comunidade verdadeiramente internacional de peritos em Química Verde e Sustentável.
Mas todas estas questões remetem para uma outra, ainda mais fundamental: que mundo queremos deixar às próximas gerações?
Sustentabilidade significa, antes de mais, responsabilidade perante o futuro. O desenvolvimento de que beneficiamos hoje não pode comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades. Não podemos consumir recursos, degradar ecossistemas ou desenvolver tecnologias de uma forma que reduza as possibilidades de quem vier depois de nós.
O desafio é deixar às próximas gerações um mundo que conserve, tanto quanto possível, as mesmas potencialidades: recursos, condições ambientais e liberdade para fazerem as suas próprias escolhas e construírem o seu próprio futuro.
É neste contexto que a química assume uma responsabilidade particular.
Começar uma conferência de outra forma
Foi também com esta preocupação que quisemos começar a Green IUPAC 2026 de uma forma pouco convencional.
Em vez de iniciarmos uma conferência científica internacional com uma sucessão de intervenções formais, quisemos começar por uma conversa. Sob o tema “Green Chemistry: Science for Peace and Sustainability”, reunimos Paul Anastas, Sir Martyn Poliakoff, Javier García-Martínez, Mary Garson, Buxing Han e Omar M. Yaghi — cientistas com percursos, experiências e perspetivas diferentes — para discutir o presente e, sobretudo, o futuro da Química Verde e Sustentável
Mas havia outra intenção. Não queríamos apenas que cientistas mais experientes dissessem aos mais jovens como imaginavam o futuro. Queríamos também que escutassem as perguntas da geração que irá construí-lo.
Por isso, trouxemos para a discussão questões colocadas por estudantes e jovens investigadores. Perguntaram sobre a dependência de metais críticos nas tecnologias de energia limpa, sobre os impactos escondidos de materiais cada vez mais complexos, sobre o papel da Inteligência Artificial, sobre se estamos a desenvolver uma química mais verde para o sistema que queremos construir ou apenas a adaptar a química ao sistema que já existe.
Esta sessão foi, de certa forma, o pontapé de saída para o ambiente que queríamos criar durante toda a conferência: ciência de excelência, naturalmente, mas também abertura, informalidade, proximidade e diálogo entre diferentes gerações de cientistas.
Porque a ciência avança com novas descobertas, mas avança também quando pessoas com experiências diferentes se encontram, se escutam e questionam umas às outras.
A Química Verde começa antes de o problema existir
A química, por si só, não resolverá os grandes desafios do nosso tempo. Mas será difícil responder a muitos deles sem química.
Precisamos de novos materiais para produzir e armazenar energia, de processos mais sustentáveis para fabricar medicamentos e outros produtos essenciais, de tecnologias para captar e utilizar dióxido de carbono, de alternativas aos recursos fósseis, de novas formas de recuperar matérias-primas críticas e de soluções que permitam garantir água segura a uma população mundial crescente.
É precisamente neste ponto que a Química Verde assume particular relevância. Sistematizada no final do século XX por Paul Anastas e John Warner nos 12 Princípios da Química Verde, esta abordagem introduziu uma ideia simultaneamente simples e transformadora: é melhor prevenir do que remediar.
Em vez de desenvolvermos primeiro uma molécula, um material ou um processo e perguntarmos depois como reduzir os seus impactos, devemos incorporar a sustentabilidade desde o início.
Podemos evitar a produção de desperdício? Podemos utilizar matérias-primas renováveis? Podemos reduzir ou substituir substâncias auxiliares utilizadas em grandes quantidades? Podemos diminuir o consumo de energia? Conseguimos tornar os processos mais eficientes recorrendo a catalisadores? Podemos conceber um produto para que seja reutilizado, reciclado ou se degrade de forma segura no final da sua vida?
É esta ideia de sustentabilidade by design que continua a ser uma das contribuições mais poderosas da Química Verde.
Mas, mais de 25 anos depois, a própria Green IUPAC 2026 mostrou que temos de ir mais longe. Já não basta olhar para uma reação isoladamente. Temos de compreender o sistema no seu conjunto.
Da molécula ao sistema — e do sistema à infraestrutura
As conferências plenárias mostraram, a partir de áreas científicas muito diferentes, como esta transformação está já a acontecer.
O próprio título da conferência de Walter Leitner, do Max Planck Institute for Chemical Energy Conversion, na Alemanha, sintetizava esta evolução: “From molecules to systems“. A transição para fontes renováveis de energia e de carbono abre novas possibilidades, incluindo a utilização de dióxido de carbono (CO₂) como matéria-prima e o desenvolvimento de catalisadores capazes de responder a um fornecimento de energia renovável que, por natureza, é variável.
Lourdes Vega, da Khalifa University, nos Emirados Árabes Unidos, levou a ideia ainda mais longe: “From molecules to infrastructure”. A sua abordagem integra desde o início três dimensões — tecnologia, ambiente e economia — procurando que uma solução não seja apenas cientificamente promissora, mas também ambientalmente sustentável e economicamente viável quando chega à escala industrial.
Esta mudança de escala é fundamental. Uma reação pode ter um rendimento excelente e, ainda assim, estar longe de ser sustentável. Pode consumir grandes quantidades de materiais auxiliares, depender de elementos críticos, exigir muita energia ou necessitar de etapas de separação particularmente exigentes.
E é precisamente aqui que o trabalho apresentado por João Paulo Crespo, do LAQV REQUIMTE, NOVA FCT, chama a atenção para uma parte da química frequentemente menos visível: os métodos de separação. O desenvolvimento de membranas capazes de efetuar, com elevada seletividade, a separação de diferentes compostos pode reduzir o consumo de energia e otimizar a utilização de recursos. O recurso a biopolímeros naturais ou de origem biológica abre ainda novas possibilidades para tornar estas tecnologias mais sustentáveis.
A mensagem comum é clara: a sustentabilidade não se decide apenas na molécula. Decide-se também no catalisador, no processo, no método de separação/purificação, na energia utilizada, na origem das matérias-primas, na escala industrial e no destino final dos produtos.
Quando o desperdício passa a ser um recurso
Outra ideia atravessou várias das palestras: aquilo que hoje consideramos desperdício (ou “lixo”) pode tornar-se matéria-prima para a química do futuro.
Matthias Beller, do Leibniz Institute for Catalysis, na Alemanha, mostrou como recursos renováveis, desperdícios e dióxido de carbono podem fornecer novas rotas para produzir substâncias químicas, incluindo através da conversão catalítica desperdícios plásticos e biológicos em moléculas úteis.
Zhimin Li, do Institute of Chemistry da Chinese Academy of Sciences, abordou o mesmo desafio a partir da valorização química dos plásticos. Em vez de olharmos para os plásticos usados apenas como um problema a eliminar, podemos encará-los como uma fonte de carbono e procurar transformar seletivamente poliésteres e poliamidas em produtos químicos de maior valor.
Esta mudança de perspetiva é importante. A economia circular não significa simplesmente reciclar mais. Significa pensar no carbono, nos materiais e na complexidade molecular como recursos cujo valor devemos procurar conservar.
Repensar a forma como fazemos química
A transformação pode começar também na própria forma como realizamos uma reação química.
Hajime Ito, da Universidade de Hokkaido, no Japão, mostrou como a mecanoquímica pode alterar paradigmas estabelecidos, utilizando energia mecânica para promover reações tradicionalmente realizadas em solução. Estas condições podem reduzir desperdícios e emissões de dióxido de carbono, acelerar reações e até permitir transformações difíceis ou impossíveis pelos métodos convencionais.
Na área dos medicamentos, Morten Meldal, da Universidade de Copenhaga, apresentou outro exemplo particularmente expressivo. A produção convencional de péptidos pode gerar grandes quantidades de resíduos tóxicos. A possibilidade de realizar síntese peptídica em fase sólida utilizando água e novos suportes compatíveis com o meio aquoso mostra como tecnologias químicas muito estabelecidas podem ser repensadas à luz dos princípios da Química Verde.
São exemplos que nos lembram que inovação sustentável não significa apenas descobrir novas moléculas. Pode significar, mudar profundamente a forma como produzimos as moléculas de que já precisamos.
Da escassez à abundância — mas como escolher?
O título escolhido por Omar M. Yaghi, Prémio Nobel da Química de 2025, para a sua conferência plenária foi provocador: “From Scarcity to Abundance”.
A química reticular tornou possível conceber famílias praticamente ilimitadas de materiais porosos com estruturas e funções ajustáveis. Com Inteligência Artificial, automação e robótica, começamos agora a conseguir explorar, prever e sintetizar uma parte cada vez maior desse enorme espaço de possibilidades.
Mas esta abundância científica cria um novo problema: se podemos imaginar um número quase ilimitado de materiais, já não basta perguntar se um material útil pode existir. Temos de decidir qual devemos escolher, como o produzir de forma fiável, como o escalar responsavelmente e onde faz sentido utilizá-lo.
Mais possibilidades científicas não produzem automaticamente mais sustentabilidade.
A capacidade de fazer quase tudo torna ainda mais importante saber o que devemos fazer.
Quando a ciência chega a quem dela precisa
Talvez um dos exemplos mais concretos apresentados em Lisboa tenha vindo de Thalappil Pradeep, do Indian Institute of Technology Madras, na Índia.
A investigação do seu grupo em nanomateriais permitiu desenvolver tecnologias para remover contaminantes tóxicos da água, incluindo arsénio, ferro e urânio. Uma dessas tecnologias fornece atualmente, segundo os dados apresentados na conferência, cerca de 80 milhões de litros de água descontaminada por dia a mais de 1,3 milhões de pessoas, a um custo extremamente reduzido.
Este exemplo liga dimensões que muitas vezes discutimos separadamente: ciência fundamental, materiais avançados, engenharia, implementação e acesso.
Uma tecnologia não é verdadeiramente transformadora apenas porque funciona no laboratório. É transformadora quando consegue chegar às pessoas que dela necessitam.
E isto conduz a uma das questões discutidas na sessão de abertura: devemos incluir a resiliência, a acessibilidade e a viabilidade económica na forma como avaliamos se uma inovação química é verdadeiramente sustentável?
Inteligência Artificial: acelerar a inovação, integrar a sustentabilidade
A Inteligência Artificial atravessou muitas das discussões da Green IUPAC 2026 — e não por acaso.
As possibilidades são extraordinárias. Podemos explorar espaços químicos gigantescos, prever propriedades, descobrir materiais e catalisadores e otimizar processos a uma velocidade até há pouco inimaginável.

Mas existe uma pergunta essencial: o que estamos a pedir à Inteligência Artificial para otimizar?
Se procurarmos apenas o maior rendimento, o menor custo ou o material com melhor desempenho, a tecnologia ajudará a atingir esses objetivos. Mas podemos pedir mais: incluir desde o início toxicidade, consumo energético, disponibilidade das matérias-primas, circularidade, geração de resíduos e impacto ao longo do ciclo de vida.
Talvez uma das maiores oportunidades da IA para a Química Verde seja precisamente esta: não apenas acelerar a descoberta de novas moléculas, materiais e processos, mas ajudar-nos a encontrar soluções que integrem a sustentabilidade desde o início.
E isto coloca também um enorme desafio à educação. Num mundo em que algoritmos poderão propor sínteses, otimizar catalisadores e prever propriedades, teremos de formar cientistas capazes de avaliar criticamente as respostas, perceber o que ficou fora dos modelos e, sobretudo, saber fazer as perguntas certas.
É precisamente por isso que as perguntas dos jovens com que começámos a conferência são tão importantes.
Ciência para um mundo que não termina na nossa geração
A sessão de abertura teve como tema “Green Chemistry: Science for Peace and Sustainability”. Num encontro que reuniu cientistas de 41 países, esta dimensão internacional ganhou um significado especial.
Alterações climáticas, energia, água, alimentação, poluição e escassez de recursos não respeitam fronteiras. Mas os seus impactos, prioridades e possíveis soluções não são iguais em todas as regiões do mundo.
A sustentabilidade não pode tornar-se um privilégio dos países mais ricos.
Uma tecnologia dificilmente poderá ser considerada verdadeiramente sustentável se depender de matérias-primas inacessíveis a grande parte do mundo, se não puder ser implementada onde é mais necessária ou se simplesmente transferir os seus impactos ambientais para outras geografias.
A ciência não resolve, por si só, conflitos nem cria paz. Mas pode contribuir para sociedades mais sustentáveis e resilientes. E a cooperação científica continua a criar espaços onde pessoas de diferentes países, culturas e gerações conseguem trabalhar em conjunto sobre problemas comuns. Talvez tenha sido também isso que procurámos fazer em Lisboa. As conferências científicas terminam. Desmontam-se os posters, fecham-se os auditórios e os participantes regressam aos seus países. Mas o seu verdadeiro impacto começa depois.
Na Green IUPAC 2026 vimos uma química que procura utilizar CO₂ e resíduos como matérias-primas, desenvolver catalisadores capazes de trabalhar com energia renovável, reduzir o uso de solventes, tornar as separações menos intensivas em energia, conceber novos materiais e levar água segura a mais de um milhão de pessoas.
São caminhos científicos muito diferentes, mas partilham uma mesma ambição: fazer com que a química contribua para resolver problemas sem criar outros no seu lugar.
E talvez uma das imagens que mais guardaremos destes dias seja precisamente aquela com que começámos: cientistas de diferentes gerações, com percursos e experiências muito distintos, sentados lado a lado, conversando e escutando as perguntas dos mais jovens.
A nossa responsabilidade, enquanto professores e cientistas, não é entregar à próxima geração todas as respostas. É dar-lhe conhecimento, ferramentas e liberdade intelectual para fazer perguntas melhores do que aquelas que nós fizemos.
Mais de 25 anos depois dos 12 Princípios da Química Verde, a ideia fundamental permanece extraordinariamente atual: a sustentabilidade deve ser incorporada desde o início na forma como concebemos moléculas, materiais, produtos e processos.
Mas a Química Verde não é um fim em si mesma.
Queremos processos mais eficientes, menos resíduos, materiais mais seguros, novas fontes de carbono, melhores tecnologias de separação e novas formas de produzir e armazenar energia porque queremos continuar a melhorar a qualidade de vida sem comprometer o futuro.
Não temos o direito de resolver os problemas da nossa geração criando problemas para a geração seguinte.
O verdadeiro desafio da sustentabilidade é permitir que o progresso de hoje não reduza as possibilidades de amanhã — deixar às próximas gerações um planeta com recursos, condições ambientais e oportunidades que lhes permitam fazer as suas próprias escolhas e construir o seu próprio futuro.
A ciência e a química têm uma responsabilidade fundamental nessa tarefa.
Como podemos usar a química para melhorar o mundo de hoje sem diminuir as possibilidades do mundo de amanhã?
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Ana Aguiar-Ricardo – Professora Catedrática, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa
Carlos Afonso – Professor Catedrático, Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa
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