Querida Chéu,
Há um ano escrevias-me de Estocolmo onde estavas de passagem para lecionar um curso de escrita criativa na Universidade antes de participares no festival literário de Gotemburgo. Hoje, estou aqui, na mesma cidade, e não sei se perdi o maravilhoso hábito de deambular ou se ando demasiado distraída, mas já tropecei três ou quatro vezes a caminhar pelo Gamla, o bairro antigo desta cidade. Um dos tropeços foi quase fatal e cheguei a ver o chão de muito perto após algum malabarismo. Foi um milagre não me ter estatelado completamente no meio da rua perante o olhar atónito dos transeuntes, todos e todas com um ar bem mais velho (e mais em forma) do que eu. Dá que pensar, perder a força nas pernas. Perceber que um simples cirandar nos poucos momentos livres do dia nos pode levar direitinhas para o hospital. Falo-te dos meus tropeções suecos porque não me sai da cabeça o espetáculo Dog days are over do coreógrafo belga Jan Martens que, também por distração, fui ver novamente no passado domingo. Digo distração e novamente porque já o tinha visto há dez anos, quando se estreou.
Comprei um bilhete, entrei a correr numa sala composta, o espetáculo começou e eu, sem de imediato me recordar que já o tinha visto, reconheci logo a coreografia. Oito bailarinos esculturais, eles em tronco nu, elas em biquínis desportivos ou fatos de ginástica justos exibindo os seus corpos bem torneados e com os contornos perfeitos. Todos calçaram um par de meias como primeira ação do espetáculo, uns ténis de marca e iniciaram a “corrida”: uns saltinhos pequeninos, todos ao mesmo ritmo. Nem um minuto passou e todos na plateia sabemos que o espetáculo vai ser uma tour de force. Vão saltar, baixinho mas persistentemente, e em sincronia até ao final. Em frente, para trás, marcando desenhos geométricos no espaço, marcando o ritmo no chão. Entretenho-me à procura de diferenças entre os bailarinos, mas ao fim de pouco tempo a cabeça leva-me para outras preocupações.
Penso: Há qualquer coisa de Leni Riefensthal nesta performance. Algo de elogio do corpo. Um certo exibicionismo do virtuosismo e endurance dos bailarinos. A dança já não devia ser um lugar para se exibirem corpos destes… Porque se chama este espetáculo Dog days are over? Não vivemos Dog days hoje, uns atrás dos outros?
O espetáculo é exímio, geométrico, exato, conceptual, tecnicamente irrepreensível e performado por bailarinos exemplares. Não há uma falha. Uma respiração fora do lugar.
O espetáculo terminou e o aplauso, como tem vindo a ser regular em muitas récitas a que tenho assistido, foi entusiástico e de pé, com um bravo aqui, outro ali. Após os devidos encores, um dos bailarinos regressou com um papel nas mãos. Pediu silêncio. Informou a plateia da intensa discussão que a companhia de dança tivera sobre se deveria ou não fazer este mesmo discurso no final do espetáculo e que, após muitas dúvidas e debate, tinha chegado à conclusão de que “é preferível viver num mundo onde se fala do que num mundo onde todos estão calados”.
Eu pensei: Já valeu a pena vir. Afinal vão responder a muitas das minhas interrogações durante o espetáculo.
Mas introdução ao porquê do discurso coletivo final foi mais longa do que o discurso que afirmava algo como: somos contra todo o tipo de violência, de ocupação, de colonização, de opressão no mundo.
Metade da sala explodiu em aplausos, a outra metade ficou em silêncio e recusou-se a aplaudir. Porquê? Em que medida esta posição é arrojada ou mesmo diferente dos discursos de uma finalista a Miss Universo, desejando a paz e o fim da fome no mundo? Fiquei perplexa. Comentei com uma amiga que encontrei sentada na fila da frente que de imediato me chamou a atenção: “não estás a perceber, Patrícia, está tudo cheio de medo!” dizia enquanto me confessava, a caminho da saída, de ter sido chamada a atenção pelos seus superiores no emprego pelo simples facto de ter feito um post pessoal nas suas redes sobre a situação atual na Palestina.
Fui para casa confusa. Procurei mais informação sobre o espetáculo e encontrei uma entrevista onde o coreógrafo dizia que tinha feito esta peça após ter lido a seguinte afirmação do fotógrafo americano de celebridades Philippe Halsman: “Quando pedimos a alguém para saltar, a sua atenção é dirigida para o ato de saltar e a sua máscara cai, mostrando-nos a pessoa real que é.”
Tendo em conta esta citação, Jan Martens queria mostrar “a pessoa por detrás do bailarino através de uma coreografia ininterrupta de pequenos saltos”. “Entre repetição, exaustão e resistência física, os corpos procuram manter a precisão e a sincronização, mas acabam inevitavelmente por revelar fragilidade, esforço e individualidade.”
Eu pasmo… terei sido insensível à vulnerabilidade daqueles corpos que vi como máquinas perfeitas do movimento?
A certa altura Jan Martens chega mesmo a dizer:
“Será que (o público) quer experienciar uma intensidade que não encontra na sua vida quotidiana? Será que quer ter acesso a uma beleza que não é visível na sua vida?” De acordo com estas afirmações, deduzo que Jan Martens quer que o espectador se aperceba deste seu desejo de perfeição e questione os seus objetivos ao ir ver uma peça de dança contemporânea.
Fiquei baralhada.
Ora, como vi eu exatamente o contrário disto? Serei eu distraída? Desinformada? Não estava preparada para ver esta obra através do ângulo certo? Ou dez anos mais tarde esta abordagem já não tem o mesmo impacto?
Volto a pensar no discurso neutro a la miss universo no final do espetáculo e pergunto-me se nós, enquanto artistas com acesso aos maiores palcos do mundo, com visibilidade e voz para falarmos sobre o que quisermos e a partir do ângulo que melhor nos apraz, sem amarras, sem filtros, não teremos a responsabilidade de recusar a museificação das nossas obras quando estas já não espelham a angústia que se vive nas ruas ou a vida dos nossos espectadores.
Chego a casa e a grande notícia do dia é o despejo em Madrid de uma idosa de 87 anos com mobilidade reduzida. Vivia há 71 anos no bairro do Retiro, e depois de um aumento da sua renda de 500€ para 1650€, viu-se obrigada a sair do apartamento onde tinha vivido quase toda a sua vida. A última assembleia das Nações Unidas ficou marcada pelo discurso inflamado de Emmanuel Macron, que mencionou o “espetáculo que montámos em Gaza”, que “não corresponde a nenhum cessar-fogo” e que “nos devia envergonhar a todos”, e por um sem número de representantes de múltiplos países a sair da sala recusando-se a ouvir as palavras proferidas por Netanyahu no palco deste encontro, enquanto este repetia “saiam seus cobardes, saiam todos!”.
Será que Jan Martens, enquanto coreógrafo, não fez um juízo redutor do que o espectador mediano deseja de um espetáculo de dança ou de teatro hoje? Ou será que o público, em tempos já foi assim, como Martens o descreve mas o mundo tropeçou tanto ou mais do eu hoje ao longo desta década, nas suas próprias incongruências?
Tantas questões se me levantaram, querida Chéu, nenhuma delas nascida diretamente da fruição do espetáculo mas na distância entre a nossa intenção e o gesto (como diria Chico Buarque e me citou recentemente um amigo). Para onde caminhamos com o que queremos criar? Para quem queremos criar? Queremos partir vidros de janelas com os nossos poemas, como diria Daniil Kharms, ou queremos beber chá com quem detém o poder? Não nos deveria meter vergonha, pensarmos tão pouco dos sonhos dos nossos espectadores e tanto de nós que temos o poder imenso de poder falar concretamente do que nos move, do que nos comove, do que nos horroriza? Que se passa connosco?
Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela