- Era um grande jornalista, dos melhores do Brasil e de língua portuguesa. Foi, e nunca deixou de ser, um notável repórter, depois igualmente cronista e colunista, editor e diretor de redações. Começando por ser “pintor de paredes”, profissão do pai com quem trabalhava, antes ainda das redações foi professor, e continuou a ser. Em simultâneo, a partir sobretudo de 1989, aquando da edição de 1968 – o ano que não terminou, impôs-se como escritor, com livros que são também reportagens, mas ultrapassam essa dimensão – e em 2014 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) com 35 dos 37 votos possíveis. Mineiro de Além Paraíba, preso pela ditadura militar, figura largamente conhecida, reconhecida e admirada no seu país, Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira, 22, aos 95 anos, na sua casa no Rio de Janeiro, onde desde jovem estava radicado.
No Brasil já surgiram numerosas “matérias” e evocações extremamente elogiosas sobre o trabalho e a obra de Zuenir. Incluindo de jornalistas de vários quadrantes a sublinhar o muito que aprenderam com ele, chamando-lhe – como o tratavam sobretudo os que com ele começaram – Mestre Zu. De facto, ao longo da sua carreira profissional, de cerca de sete décadas, Zuenir trabalhou e deixou a sua marca em importantes jornais e revistas. Aliás, começou como “arquivista” da Tribuna de Imprensa, sendo convidado para a redação após um texto que escreveu sobre Albert Camus, em 1956. A partir daí foi desde editor de internacional a chefe de reportagem (da então famosa revista semanal O Cruzeiro) e diretor de redação (da popular Fatos & Fotos). E em meados da década de 80 teve intervenção decisiva no então prestigioso diário Jornal do Brasil, incluindo a reformulação/renovação do seu Caderno B e da sua revista Domingo. Depois, passou a ser, sem falhas, destacado cronista de O Globo, desde janeiro de 1989 até fevereiro de 2022.
Ainda nos anos 70, porém, trabalhou e foi chefe da redação no Rio da revista de São Paulo Visão e foi como seu repórter que esteve em Portugal a cobrir a revolução do 25 de Abril. É por isto que a “nossa” VISÃO” tem um particular dever de recordar e destacar o jornalista, escritor e “cidadão” que Zuenir foi? Claro que não. Aliás, com uma excelente memória para muitas coisas do passado, confesso não recordar bem se o nome da Visão brasileira teve alguma influência na escolha do “nosso nome”. Lembro-me, sim, da também brasileira Veja ser, com a Time, uma das duas revistas em que mais “atentei” para, como diretor-editorial do grupo, apresentar um projeto da nossa revista que elaborei – sendo Veja um título que nos podia agradar, mas não estava disponível.
- Então, porquê aquele dever? Porque o Zuenir esteve em Lisboa a dar uma espécie de pequeno “curso prático” aos novos futuros jornalistas da nossa redação, que fomos selecionando dos quase 800 (800!) candidatos que a tal inicialmente se propuseram; curso também, em algumas das suas vertentes, para os já jornalistas, há mais ou menos tempo, de O Jornal, que a VISÃO substituiu.

Foi assim. Na minha intensa e diversificada relação com o Brasil, eu conheci muito cedo o Zuenir Ventura. Logo da primeira vez que estive no Rio em trabalho, como jornalista, para fazer a cobertura das eleições para governadores de Estado, e não só, em 1982, ainda no período final da ditadura militar. Julgo ter sido o Sérgio Lacerda, o editor da Nova Fronteira e bom amigo comum, que me pôs em contacto com ele, como me acompanhou à redação de O Globo, onde estive com toda a sua chefia de redação. E foi com Zuenir, a partir daí, que sempre mantive maior ligação de amizade e jornalística, mormente nas minhas frequentes idas ao Rio.
Assim, quando preparávamos o lançamento da VISÃO e me pareceu que seria fundamental termos um “curso prático” como o que referi, com o que todos concordaram, o jornalista que de imediato me ocorreu para o dar foi o Zuenir Ventura. Por ser, como já acentuei, um grande jornalista, e pela sua muita experiência quer em jornais quer em revistas. E, como tal, capaz como raros, ou mesmo como ninguém, para nos falar e ensinar muita coisa a todos, falar e ensinar por dentro as diferenças entre o jornalismo de jornal e de revista (linguagem, apuramento, organização das peças), a contribuir para que, sem inúteis lições retóricas, aprendêssemos como fazer uma revista como aquela que desejávamos, a primeira verdadeira newsmagazine em Portugal. Para o que também não lhe faltavam qualidades pedagógicas e até uma facilidade de relacionamento, uma simpatia ou mesmo empatia muito importantes para o objetivo desejado. E, enfim, para além disto tudo, havia o facto de eu ter (quase?) a certeza de que ele – por várias razões, incluindo a nossa amizade – aceitaria o convite para essa tarefa/ajuda, apesar de não remunerada… Como aceitou.
- E a sua ajuda, foi preciosa. As sessões, não lhes quero chamar “lições”, foram numa sala alugada para o efeito no Hotel Plaza, junto ao Parque Mayer: algumas delas só para os mais novos, outras para todos. Cláudia Lobo, que era dos mais novos, mas já pertencia à redação de O Jornal – depois seria editora e diretora-adjunta da VISÃO -, recorda:
“Aprendemos muito com o Zuenir. E o mais importante, quanto a mim, foi o trabalho de ‘pauta’: a forma de pegar num tema de atualidade, de o trabalhar sob todos os ângulos à partida possíveis, e simultaneamente descobrir novos ângulos. Numa das sessões, construímos uma ‘pauta’ sobre a prisão de Xanana Gusmão pelos indonésios, pouco tempo antes, e na sequência da qual tinha confessado crimes e dito publicamente que apoiava a integração de Timor na Indonésia. Essa sessão durou uma tarde inteira e foi extraordinária. ”Zuenir, acrescenta, “abria-nos os olhos para tudo o que tínhamos de saber, procurar, indagar, interrogar, verificar, questionar, olhando para o assunto com olhos novos. A partir daqui passou a ser norma na VISAO, e foi-o durante muito tempo, fazer uma ‘pauta’ de cada peça que tínhamos de escrever ou propúnhamos fazer, apresentá-la e discuti-la com o editor ou em reunião mais alargada”.
Cláudia Lobo destaca ainda mais duas “marcas indeléveis” que Zuenir deixou na VISÃO, “que nenhum de nós esqueceu e íamos transmitindo a quem chegava à redação”. A primeira foi “a atenção ao pormenor, o repórter ter de saber a cor da gravata, porque torna a história mais verosímil ou pode permitir contá-la a de outra maneira. Essa passou a ser a nossa escola e entrou para a gíria como ‘a gravata do Zuenir’”. A segunda foi “nunca partir do pressuposto que o leitor sabe, devendo-se explicar tudo”. E assim, conclui, “foi fundamental para o que pomposamente gostávamos de chamar o ’estilo VISÃO’”
Após o início da publicação da revista (nº 1 a 25 de março de 1993), claro que lha enviávamos e por vezes nos dava a sua opinião; assim como sempre falávamos da revista quando eu ia ao Rio, onde era meu apoio e companheiro constante. O mesmo acontecendo comigo em relação a ele quando vinha a Portugal, o que acontecia muitíssimo menos. Saliento, no entanto, que além do mais participou, em 2010, nas Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, nessa ocasião havendo o lançamento da edição portuguesa do seu livro Inveja – Mal Secreto, e em 2012 participou no Festival Leya, em Lisboa. E até a revista da TAP, a então excelente UP, dirigida pela Paula Ribeiro, o trouxe a Portugal com o admirável cronista e seu amigo muito próximo Luís Fernando Veríssimo, para publicar uma matéria/reportagem com os dois.
- E por falar dos dois, um dos últimos livros de ambos é Sobre o Tempo, saído em 2009, uma longa e interessante conversa entre eles (apesar de Luís Fernando falar pouquíssimo: o pai, Erico Veríssimo, a certa altura chamava-lhe “o mudo”…), mediada e escrita pelo jornalista Arthur Depieve. Mas o livro de Zuenir mais famoso e de maior êxito é o já citado 1968 – o ano que não termino, saído em 1988, que já teve cerca de 50 edições, vendeu mais de 400 mil cópias e serviu de base, em 1992, a uma mini-série da TV Globo. Um extraordinário exemplo de extraordinária reportagem e narrativa, por diversos motivos que aqui e agora não posso desenvolver, como tenho de me limitar a uma breve referência dos seus outros principais livros.

Livros que são: A cidade partida, de 1994, outra grande reportagem, sobre a “chacina de Vigário Geral”, uma favela da zona norte do Rio na qual, em finais de agosto de 1993, cerca de 35 policiais militares encapuzados “executaram” 21 pessoas (livro com nova edição, assinalando os seus 30 anos, em 2024, com prefácio de Mauro Ventura, filho de Zuenir e também jornalista); Inveja – Mal secreto, de 1998, primeiro volume de uma coleção da Editora Objetiva sobre os sete pecados capitais, sendo autores dos outros volumes escritores renomados, como João Ubaldo Ribeiro, Tomás Eloy Martinez, o próprio Luís Fernando Veríssimo; Minhas histórias dos outros, de 2005, em que conta episódios da sua vida e carreira como jornalista, figuras que entrevistou ou conheceu ao longo do tempo, etc.; 1968: O Que Fizemos de Nós, de 2008, no qual regressa à chamada à geração brasileira do final da década de 60, mais na perspetiva do seu relacionamento com o corpo, as drogas, e por aí fora; Sagrada família, de 2012, uma ficção com muito de memorialística, “os anseios e as atribulações de uma família vivendo na região serrana do Rio de Janeiro, dos anos 1940 até um passado não muito distante”.
Não referi antes, propositadamente, um livro que, além de uma vez mais mostrar a qualidade e “garra” do jornalista, tem uma história a ele associada que mostra a rara dimensão humana do cidadão Zuenir Ventura: Chico Mendes – crime e castigo, de 2003. Chico Mendes foi um famoso líder ambientalista do Acre, assassinado em dezembro de 1988. Zuenir esteve então cerca de um mês na região, escrevendo uma série de notáveis reportagens, que lhe valeram os dois principais prémios do jornalismo brasileiro. Do crime havia apenas uma testemunha, um adolescente de 13 anos, Genésio Ferreira da Silva, em evidente perigo de ser ele também assassinado. E então Zuenir trouxe-o com ele para o Rio, para sua casa, onde o acolheu, como a alguém da família, até aos 21 anos. Em 2003 o repórter voltou ao Acre para “concluir” aquela reportagem e editar o referido livro.
Em abril já deste ano estreou Mestre Zu, percurso de vida e carreira de Zuenir num documentário do realizador Zelito Viana. E é extremamente significativo o que nestes dias tem sido dito e escrito no Brasil sobre o também meu querido amigo. Exemplifico com vários emocionados testemunhos de uma das mais conhecidas e respeitadas jornalistas do país, da Globo, Miriam Leitão. Miriam lembra toda a obra e ação de Zuenir, tudo que lhe ensinou a ela e a sucessivas gerações: “Grande jornalista, grande intelectual, maravilhoso amigo dos seus amigos. Eu vou passar a vida inteira te agradecendo por tudo o que você fez por mim e tudo o que você fez pelo país. Eternamente Mestre Zu”.