Há instantes em que a arte não se limita a ser contemplada: acontece-nos. A mim, aconteceu-me pela primeira vez no Musée Rodin, em Paris, tinha uns 13 anos. Estava diante de La Cathédrale, de Rodin – duas mãos que se elevam como oração suspensa – quando o mundo começou a perder densidade, como se o ar se tornasse subitamente demasiado fino para respirar. Senti o coração a acelerar, a vista a oscilar, o corpo a abandonar por momentos a lógica do físico para entrar num domínio outro, onde o espírito se adensa e as lágrimas escorrem. Só anos mais tarde percebi que esse abalo tinha um nome: síndrome de Stendhal.
Em 2014, dei finalmente nome ao estremecimento. E desde então ele nunca mais cessou – uma espécie de companheiro secreto que regressa sempre que a beleza se excede e me excede. Regressou então, por exemplo, diante do Guernica, de Picasso, da Mulher à Janela, de Dalí, e regressou também diante d’A Gioconda, com aquele olhar impossível que nos segue sem se mover; diante da sensualidade alongada, quase inumana, d’A Grande Odalisca, de Ingres; e regressou, como um clarão histórico, diante de A Liberdade Guiando o Povo, de Delacroix, onde a bandeira irrompe como se ainda estivesse quente, saída do fogo da rua. Nesses momentos, a alma estremece – não porque seja frágil, mas porque é permeável.
A ciência descreve a síndrome de Stendhal como um distúrbio psicossomático capaz de provocar aceleração cardíaca, tonturas, confusão mental, desmaios e até alucinações quando alguém se confronta com obras de grande intensidade estética. O nome deriva do escritor francês Stendhal (Henri-Marie Beyle), que em 1817, na Basílica de Santa Croce, em Florença, descreveu um êxtase tão forte diante dos frescos de Giotto que temeu cair, exaurido pela beleza. A síndrome só viria a ser reconhecida em 1979 pela psiquiatra Graziella Magherini, após o estudo de mais de cem casos semelhantes em visitantes de Florença.
Mas nenhuma definição clínica – nenhuma – explica verdadeiramente o que acontece quando a arte nos trespassa. E os desenhos, a obra de Teresa Gonçalves Lobo souberam encontrar a minha alma.
Teresa Gonçalves Lobo nasceu no Funchal, em 1968. Estudou desenho, pintura, gravura e fotografia no Ar.Co e no Cenjor, construindo ao longo de quase duas décadas uma obra profundamente ancorada no desenho como linguagem primeira. Expõe em Portugal e internacionalmente, é representada pela galeria londrina Waterhouse & Dodd, e tem sido estudada por críticos como Nuno Faria, João Pinharanda e Bernardo Pinto de Almeida.
O seu trabalho – gestual, caligráfico, intuitivo, quase sísmico – é feito de linhas que não descrevem: respiram. Linhas que são pensamento, impulso, vibração, silêncio, corpo, memória. Linhas onde a fluidez e a inquietação se tornam matéria viva, uma gramática interior que transforma o papel num território emocional inteiro.
“Os desenhos transportam e representam um lugar atmosférico; são corpo e ar ao mesmo tempo – entramos neles como num mapa, abstracto e concreto.” – Nuno Faria, O mapa do ar, 2015
Quando me aproximo dos desenhos de TGL, sinto novamente aquele tremor primeiro – o mesmo que me atravessou no Musée Rodin. Uma vibração funda, quase subterrânea, que sobe pelo corpo como um murmúrio. O coração acelera. Algo dentro de mim cede espaço ao indizível. E nesse instante percebo que a síndrome de Stendhal não é doença: é transfiguração.
“Uma livre coreografia de gestos – uma dança da mão, do braço, do corpo sobre o espaço do papel.” – João Pinharanda, A família dos is
A obra de Teresa é isto: uma coreografia invisível que não se vê, sente-se. É um arrepio lento. Uma respiração que se altera. Um silêncio novo que se instala.
Em 2024, durante uma palestra, Teresa Gonçalves Lobo disse-o com uma clareza luminosa: “Neste país, não é fácil ser artista.” E insistiu que não se pode sacrificar a essência para agradar aos outros. É essa fidelidade à verdade interior – esse rigor emocional – que a sua obra traz ao papel e ao mundo.
“No trabalho de Teresa Lobo há dois planos: o traço como estrutura poética e, depois, um plano profundo – um improviso à maneira do jazz, onde o desenho renasce como invenção, puro campo de experimentação.” – Bernardo Pinto de Almeida, A disciplina secreta do desenho
Há desenhos de Teresa que parecem mapas de respiração. Segue-se um traço mais espesso, perde–se o rumo no arabesco seguinte e, de repente, o papel tornou-se paisagem interior – uma topografia feita de memória, vibração e silêncio
Há desenhos de Teresa que parecem mapas de respiração. Segue-se um traço mais espesso, perde-se o rumo no arabesco seguinte e, de repente, o papel tornou-se paisagem interior – uma topografia feita de memória, vibração e silêncio. Neles, a síndrome de Stendhal não é excesso: é a medida justa do espanto. Os seus desenhos são, como escreveu Nuno Faria, “uma máquina de emaranhar paisagens” – paisagens do mundo, do corpo, da alma.
No Museu Nacional Soares dos Reis, quando Teresa Gonçalves Lobo dialogou com Domingos Sequeira, o curador Bernardo Pinto de Almeida descreveu a sua obra como uma “invenção plástica e metamórfica do desenho”, uma coreografia de linhas que, mesmo quando não figurativas, fazem emergir forma – forma que não se vê, mas que insiste em existir. Ali, o desenho era, ao mesmo tempo, risco e abrigo, vertigem e casa. E nesse entre, a síndrome voltou, doce e profunda, como se a beleza me reconhecesse ao longe e me chamasse pelo nome.
Desde 2014, caminho por cidades onde a beleza me surpreende sempre: nos olhos enigmáticos d’A Gioconda; no Louvre, onde a Odalisca se estende num impossível que desafia a lógica do corpo; diante da Liberdade de Delacroix, que levanta a bandeira e arrasta connosco a pulsação da História, a Liberdade.
Cada obra é um limiar. Cada encontro, um sobressalto. É um dom raro – esta vulnerabilidade estética – e aprendi a reconhecê-lo não como fraqueza, mas como prova de que o coração ainda se apressa quando a beleza o chama.
A síndrome de Stendhal explica-se com sintomas, literatura médica e estudos psicológicos, mas não se explica no instante em que a alma se expande mais depressa do que o corpo consegue acompanhar.
Talvez a beleza seja isso mesmo: um sobressalto. Uma vertigem que aquece por dentro. Uma lágrima que cai antes de sabermos porquê. No Musée Rodin, descobri o primeiro abismo. Desde 2014, caminho por ele repetidas vezes.
E com Teresa Gonçalves Lobo, compreendi que a arte – quando verdadeira – não se contempla: transborda.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.