Ora ‘bora lá todos, mas todos mesmo s.f.f., tirar a cabecinha da areia – até porque nem as avestruzes o fazem, não passa de uma ilusão de ótica. A onda de calor que tem estado a assolar a Europa Ocidental não era expectável há 50 anos. Aliás, ela seria “praticamente impossível” sem o aquecimento global, concluiu um estudo do World Weather Attribution (WWA), um grupo de cientistas que avalia e quantifica quase em tempo real o papel das alterações climáticas na ocorrência e na intensidade de eventos meteorológicos extremos.
Há muito que outros estudos têm vindo a apontar o aquecimento global como o responsável pelas ondas de calor, secas, tempestades ou chuvas intensas. A conclusão do WWA não é, por isso, surpreendente. Mas esta foi a primeira vez que lemos que, em 1976, quando foram estabelecidos alguns dos anteriores recordes europeus, uma onda de calor desta intensidade teria sido “praticamente impossível de acontecer em junho, e também muito improvável em qualquer altura do ano”.
E há mais no relatório deste estudo: “Em 2003, durante a primeira grande vaga de calor deste século, temperaturas diurnas como as deste junho seriam cerca de dez vezes menos prováveis do que hoje, e temperaturas noturnas como estas seriam mais de cem vezes menos prováveis. Uma onda de calor semelhante em junho teria sido cerca de 3,5 graus mais fria durante o dia em 1976 e cerca de dois graus mais fria em 2003. As noites teriam sido cerca de 2,4 graus mais frias em 1976 e cerca de 1,3 graus mais frias em 2003.”
Para os investigadores, não há dúvida de que junho é o mês que está a “aquecer mais rapidamente” e que esta onda de calor “não teria sido possível em junho sem as alterações climáticas”.
Não fique também o caro leitor com dúvidas em relação às avestruzes. Elas não enterram a cabeça na areia para se esconderem dos predadores. Perante uma ameaça, o que fazem é deitar-se no chão e esticar o pescoço para se camuflarem. E, quando se alimentam no chão ou verificam os ovos no ninho, pode parecer que têm a cabeça enterrada, mas não, não têm.
Fingir que não damos pelo que está a acontecer ao planeta não nos salva das consequências. No caso de ceticismo militante, talvez a solução seja lembrar um velhinho recorte de jornal que reapareceu agora nas redes sociais, em que se prova que os cientistas sabiam há mais de cem anos que o consumo de carvão podia ter um efeito negativo no clima.
“As fornalhas do mundo estão a queimar cerca de dois mil milhões de toneladas de carvão por ano”, lê-se no artigo do jornal neozelandês Rodney and Otamatea Times, Waitemata and Kaipara Gazette. “Quando queimado, ao unir-se ao oxigénio, acrescenta cerca de sete mil milhões de toneladas de dióxido de carbono à atmosfera anualmente. Isto tende a tornar o ar um isolante mais eficaz para a Terra e a elevar a sua temperatura. O efeito pode ser considerável em alguns séculos.”
O texto do artigo tem origem na reportagem da revista Popular Mechanics, de março de 1912, Clima Extraordinário de 1911: O Efeito da Combustão do Carvão no Clima – O que os Cientistas Preveem para o Futuro. Os parisienses que têm dormido ao ar livre num dos parques mantidos abertos pela Mairie não terão dúvidas sobre a urgência de travar o aquecimento global.