A linha costeira de Playa Grande, a escassos minutos do Aeroporto Internacional de Maiquetia, exibe uma ferida aberta que rasga a alma de quem ali fez vida. Quem olha em direção ao porto de recreio do Clube Playa Grande ou para a areia deserta da praia privada de Marina Grande, pode ser momentaneamente atraiçoado por uma ilusão ótica: ali, o mar calmo e os barcos parecem fingir que nada sucedeu, como se o tempo se tivesse congelado numa moldura de postal turístico. Mas basta desviar os olhos escassos metros para cima, em direção às montanhas e às encostas que abraçam a costa de La Guaira, para que a ilusão desabe com o mesmo ruído ensurdecedor do duplo sismo que, a 24 de junho, abalou uma vasta área em redor da capital venezuelana.

O cenário é de devastação absoluta. Os prédios de apartamentos com vista para o mar, outrora símbolos de uma classe média próspera e do suor de milhares de emigrantes, praticamente enterraram-se na montanha. Foi aqui, no epicentro desta tragédia, que a tripulação de um voo da TAP escapou por milagre. Hospedados no Hotel Marriott, viram as paredes e as estruturas da unidade hoteleira partirem-se aos bocados. Alguns tripulantes saíram feridos, no meio do pânico de uma noite em que a terra parecia querer engolir tudo, mas sobreviveram para contar a fuga de um edifício severamente danificado, numa zona agora completamente sitiada pelos escombros.
