Sei que houve mudanças de critérios e que essa alteração fez com que os números sejam, a partir de agora, mais fiáveis. Mas uma instituição decisiva para o Estado não pode permitir que governantes e cidadãos andem tanto tempo privados de informações fundamentais para decidirem o seu presente e o seu futuro. E não é apenas o número de residentes em Portugal que desconhecíamos. Durante o ano de 2026 haverá mais novidades. É praticamente certo que os valores do PIB e do emprego serão bastante diferentes daqueles que até agora foram dados como corretos.
Começo, por isso, por uma má notícia: o Instituto Nacional de Estatística (INE) não está a funcionar bem.
As boas notícias, porém, superam largamente a má. Sermos 11,4 milhões a viver em Portugal e termos registado um crescimento populacional significativo são excelentes notícias.
No que diz respeito a estes números, não há um único aspeto que possa ser considerado negativo. É evidente que sermos mais implica redimensionar os serviços públicos, a saúde, a habitação e a educação. É igualmente evidente que termos pessoas de diferentes religiões, costumes, cores e até cheiros exige um esforço coletivo de adaptação e integração. Mas esses são desafios que devem ser encarados como bons problemas. Não termos gente, sermos quase todos velhos e não haver pessoas suficientes para trabalhar é que seria mesmo uma questão existencial.
Imaginemos o que seria este país sem os 1,6 milhões de imigrantes ou, sequer, sem aqueles 600 mil que, afinal, não constavam das estatísticas do INE. Se o País vive em situação de quase pleno emprego, o que aconteceria às nossas empresas se estas pessoas não tivessem vindo ajudar-nos? Quem cuidaria dos nossos idosos? Quem trabalharia na agricultura ou no turismo, para dar apenas dois exemplos de setores vitais para a economia?
E quem estaria a pagar as nossas reformas e pensões? Recordo que, para a Segurança Social, a diferença entre aquilo que os imigrantes pagam e aquilo que recebem é estratosférica. Para quem ainda não sabe, o INE descobriu esses 600 mil imigrantes porque foi consultar os registos da Segurança Social. Ou seja, todas essas pessoas pagam contribuições e impostos.
Imagine-se também o que seriam os indicadores do envelhecimento demográfico. Se já somos um país envelhecido, muito mais envelhecido seríamos sem esta vaga de jovens que veio para Portugal. Tanto assim é que, apesar de toda esta imigração, o índice de envelhecimento agravou-se: passou de 178 idosos por cada 100 jovens, em 2021, para 189, em 2025.
Mais: num país com um interior desertificado, foram precisamente os imigrantes que ajudaram alguns dos concelhos mais necessitados de gente a trabalhar e a fixar população.
Mais ainda: foram os imigrantes que, num país sem investimento significativo há muitos anos – fruto, entre outros fatores, das políticas europeias relativas às contas públicas –, garantiram, com o seu trabalho, o crescimento económico dos últimos anos. Sem a contribuição destes homens e mulheres, estaríamos hoje perante uma grave crise económica.
Os imigrantes vieram ajudar-nos, ajudando-se a si próprios. Mas aquilo que eles nos têm dado é muito mais do que aquilo que nós lhes temos dado. Já não bastava não lhes proporcionarmos boas condições de vida – como, de resto, também não as proporcionamos à maioria dos que já cá viviam, fossem portugueses de origem ou não –, ainda são insultados publicamente e usados como arma de arremesso nas guerras políticas. Aliás, o número de imigrantes que agora conhecemos está já a ser instrumentalizado para alimentar o discurso anti-imigração.
Sabe-se que qualquer pretexto serve para que o Chega procure fazer crescer os sentimentos mais primários. O populismo alimenta-se da ignorância e do medo.
Também não surpreende que os comentadores de extrema-direita que ocupam tanto espaço nas televisões por cabo se tenham excitado com os novos números da imigração. Se exibem impunemente vídeos manipulados ou completamente desligados da realidade atual para ilustrar alegados problemas com imigrantes, gritar que estamos perante uma invasão é tudo menos inesperado.
Chegou-se mesmo ao ponto de afirmar que, ao ritmo a que os imigrantes estavam a entrar, correríamos o risco de, dentro de poucos anos, termos 50% da população nascida fora do País. Talvez. A alternativa, porém, é sermos apenas sete milhões daqui a 24 anos, que é, segundo a Fundação Francisco Manuel dos Santos, a população que Portugal teria sem imigração. Quem pagaria então as pensões? Quem manteria a economia a funcionar?
Ou, como disse Maria João Valente Rosa, no Expresso da semana passada: “Sem imigrantes corremos o risco de nos extinguirmos.”
Quem faz este discurso conhece estes factos. Sabe perfeitamente que está a manipular a realidade em função de uma agenda política. É um discurso irresponsável e perigoso. Mas, pelos vistos, dá audiências.
Muito mais difícil de compreender é que alguém com a responsabilidade de um ministro reproduza este tipo de discurso. Disse Leitão Amaro que, se tivéssemos mantido as políticas de imigração dos governos anteriores aos do PSD, entrariam 300 mil imigrantes por ano em Portugal.
Das duas, uma: ou Leitão Amaro faz exatamente o mesmo que os evangelistas televisivos da extrema-direita ou é um ignorante chapado.
Os imigrantes vêm para Portugal porque há emprego. Recordo, pela milionésima vez, que vivemos numa situação de quase pleno emprego. Não vêm pelas paisagens nem pelo clima; vêm porque há trabalho e porque encontram aqui uma perspetiva de vida melhor do que aquela que tinham nos seus países de origem.
Tenho mais uma novidade para o senhor ministro. Se quisermos que a economia portuguesa continue a crescer, teremos de receber mais imigrantes. E isto continuará a ser verdade mesmo que o nosso modelo económico se torne muito mais produtivo e deixe de depender de setores de baixo valor acrescentado. É o nosso défice demográfico que o impõe.
Há, aliás, um método infalível para travar a imigração: provocar uma crise económica. Qualquer especialista em migrações poderá explicar a Leitão Amaro que, havendo emprego, não há fronteira capaz de impedir que as pessoas procurem uma vida melhor.
O INE pode ter falhado. Mas termos um Governo que ignora a realidade – ou que deliberadamente mente sobre ela – é muitíssimo mais preocupante.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.