Bento de Espinosa, o filósofo necessário porque incomoda
Para Espinosa, a liberdade não é o gesto de quem faz o que quer, mas a maturidade de quem sabe por que quer o que faz
A Tirania do Polegar: quando o silêncio se disfarça de resposta
Num tempo em que nunca se escreveu tanto, nunca se respondeu tão pouco. A conversa encurta, a atenção rareia e o gesto substitui a palavra. Entre o que é dito e o que é ignorado, ergue‑se um novo símbolo de poder discreto: o polegar levantado. Parece anuência, mas é omissão. Parece presença, mas é ausência. E nesse pequeno ícone cabe hoje uma parte inquietante da nossa pobreza relacional
Editores e escritores: Quando escrever já não chega — e sair passa a ser um dever de dignidade
Os escritores da Grasset não resolveram o problema da concentração cultural. Mas fizeram uma coisa rara: mostraram que, a certa altura, escrever já não chega. E que sair, longe de ser um capricho, pode tornar‑se um dever
Antes de julgar, compreender
O julgamento tem um custo altíssimo que raramente calculamos. No casal, cada julgamento é uma pequena traição à confiança. Na família, é um muro que se ergue entre gerações. No trabalho, é um veneno que contamina o clima organizacional. Entre amigos, é uma lâmina que corta os laços
Saramago de fora das leituras obrigatórias: notas agnotológicas sobre um país que desaprende devagar
Num país onde as aprendizagens se reveem com a ligeireza de quem rearruma gavetas, a retirada de Saramago da lista de leituras obrigatórias soa menos a modernização do currículo e mais a um discreto aplauso à ignorância, que encontra nas escolas — e nas redes sociais — terreno fértil para florescer em silêncio
O mito Banksy acabou?
Quanto mais tentam revelá-lo, mais percebemos que Banksy nunca foi uma pessoa: foi− e continua a ser − uma ideia.Uma ideia incómoda, deslocada, rebelde, mas sempre urgente
O silêncio dos versos vivos
No Dia Mundial da Poesia, celebramos os gigantes de mármore, mas ignoramos as vozes que tremem à porta das editoras. Portugal é terra de poetas? Só se forem de pedra
Futurália 2026 terminou. Este é o balanço mais negativo — e coloca em causa a participação das escolas
O balanço, porém, não é de celebração: é negativo e coloca em causa a participação das escolas e a coerência da tutela, depois de um stand partidário ter exibido cartazes com as frases “Isto não é mesmo o Bangladesh (mas parece)” e “Sorria, estamos a ser substituídos”, importando para dentro de um espaço educativo a narrativa da chamada “Grande Substituição
Habermas: Quando a voz que nos ensinou a escutar se cala
Habermas não nos deu respostas fáceis. Deu-nos perguntas mais rigorosas
Quando o mundo escolhe quem merece luto: a nossa cumplicidade na morte das crianças
Não existe equilíbrio ético possível enquanto aceitarmos que existam vítimas toleráveis e vítimas intoleráveis; enquanto permitirmos que a dor seja hierarquizada e a indignação, seletiva
O Estrangeiro que intriga: François Ozon reinterpreta Camus a preto e branco. Por José Paulo Santos
Num tempo em que a diferença é punida, em que a indiferença é confundida com frieza e em que o pensamento crítico é frequentemente calado, O Estrangeiro de Ozon surge como um espelho incómodo — mas indispensável, talvez cada vez mais
A geometria variável do combustível e o preço do pânico
O resultado é uma cena dantesca nas bombas, com filas que duplicam o tempo de abastecimento e cartazes manuscritos a anunciar «sem gasóleo» ou «sem gasolina» em locais onde, há vinte e quatro horas, a oferta era normal
O lado certo da História? Quando a guerra de um só homem arrasta o mundo inteiro
Perante a mesma ofensiva, Portugal optou por uma posição discreta. Não acompanhou a claridade moral de Sánchez, nem condenou explicitamente a violação do direito internacional. É legítimo perguntar: por que ficou Portugal calado? Medo de retaliação? Fidelidade automática aos EUA? Prudência estratégica mal calibrada?
A liberdade que ainda não somos: Agostinho da Silva à luz de um país em turbulência
O pensamento de Agostinho combina misticismo e rigor, imaginação e ética, renúncia e ousadia. Mas acima de tudo combina humanidade
A coragem que sustém o mundo: todos somos Lanceurs d’Alerte
Não há liberdade minha se a dos outros não se cumpre; não há ética privada se a pública se degrada; não há verdade se a calamos por conveniência
Zeca Afonso - O eco eterno de uma voz aos 17 anos
Enquanto a doença — essa maldita Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) implacável — lhe ia roubando os movimentos e lhe cerrando o corpo, a sua voz interior nunca se calou. Ele ensinou-nos que é possível estar preso num corpo que falha e continuar livre na alma que canta
Teresa Gonçalves Lobo e a síndrome de Stendhal
A síndrome de Stendhal explica-se com sintomas, literatura médica e estudos psicológicos, mas não se explica no instante em que a alma se expande mais depressa do que o corpo consegue acompanhar
Nas tempestades de Portugal: A sabedoria que o ódio esquece
Portugal é melhor quando está unido. Não porque todos pensem igual, mas porque todos se reconhecem como parte de um todo maior que si mesmos
A primeira e última aula do dia sobre a meteorologia que ensina
Não basta prever o tempo: é preciso explicá‑lo. Não basta mostrar nuvens: é preciso narrar processos. Não basta indicar máximas e mínimas: é preciso ilustrar o mundo
A arte de desarmar palavras: por uma escola de paz
É imperativo que a Comunicação Não Violenta e a Mediação de Conflitos deixem de ser “atividades extra” para assumirem o papel de espinha dorsal das instituições educativas portuguesas
O espelho que nos rouba o rosto. Crónica sobre a ilusão da IA nas salas de aula
a IA satisfaz a resposta antes que a pergunta amadureça na alma do estudante. Transforma o laborioso caminho do pensamento — esse território onde nascem a ética e a criatividade — numa auto-estrada lisa, rápida e vazia de significado. O aluno não percorre a estrada; é transportado nela, de olhos vendados