Portugal recebe a estreia de Mínimos e os Monstros, os EUA celebram 250 anos da Declaração da Independência e Donald Trump, sempre generoso na arte de transformar qualquer efeméride histórica num anúncio imobiliário com bandeira MAGA ao fundo, envia uma mensagem ao embaixador americano em Portugal a dizer que adora o país, elogia os nossos “magníficos campos de golfe” e admite vir visitar-nos “talvez em breve”. Ou seja: Jefferson escreveu que todos os homens nascem iguais; Trump atualizou a frase para todos os homens nascem iguais, sim senhor, mas alguns têm handicap, buggy e vista para o Atlântico.
Comecemos pelos Mínimos, porque convém começar pelos personagens mais sérios desta semana. Em Mínimos e os Monstros, as criaturas amarelas da Illumination vão parar ao Hollywood dos anos 20, tornam-se estrelas acidentais do cinema mudo, descobrem que falar é um problema quando o cinema começa a falar e resolvem fazer um filme de monstros usando monstros a sério. É uma premissa lindíssima, até porque resume com uma precisão quase documental o século americano: chega-se a Hollywood, tropeça-se, inventa-se uma indústria, fica-se rico, perde-se o controlo da criatura e depois chama-se a isso entretenimento global.
Hollywood, a outra Declaração de Independência
A América faz 250 anos a 4 de julho e continua a ser, gostemos ou não, o maior estúdio de cinema do planeta. Não apenas no sentido literal, com câmaras, franchises, sequelas, bonecos, parques temáticos e pipocas vendidas como se fossem obrigações do Tesouro. Mas no sentido mais profundo: os EUA filmaram-se tão bem a si próprios que acabámos todos quase a viver dentro de um trailer de Hollywood. A Casa Branca tem planos de contra-picado, o Presidente entra sempre como personagem principal, o povo é figurante patriótico, os inimigos chegam em música grave e a liberdade aparece frequentemente montada a cavalo, com explosões e efeitos especiais atrás.
Durante dois séculos e meio, a América vendeu-nos a ideia de que era simultaneamente país, promessa, império, western, musical, tribunal, supermercado, guerra, sonho, pesadelo e parque de estacionamento muito grande junto a uma zona comercial. E nós comprámos. Comprámos hambúrgueres, jazz, jeans, Internet, Marvel, Scorsese, Springsteen, Coca-Cola, NASA, O Padrinho, E.T. — O Extraterrestre, Tubarão, Apocalypse Now, Forrest Gump, Barbie e até a convicção íntima de que uma furiosa perseguição de carros a toda a velocidade pode resolver problemas morais complexos. Foi esse o verdadeiro soft power: antes de nos convencerem pela diplomacia, convenceram-nos pela montagem.
Por isso é tão perfeito que, no ano dos 250 anos da independência americana, estreie um filme em que os Mínimos chegam a Hollywood, entram no cinema mudo, são engolidos pelos filmes falados e libertam monstros que já não sabem controlar. Há aqui uma alegoria involuntária, o melhor tipo de alegoria, porque ninguém a convidou para a festa e ela aparece de óculos redondinhos escuros a comer bananas. A América também começou com um grupo de rebeldes contra o rei de Inglaterra, inventou uma narrativa, criou uma mitologia, transformou-se em superpotência e, pelo caminho, soltou alguns monstros: internos, externos, financeiros, militares, digitais, televisivos e agora, com notável coerência estética, presidenciais.
Trump descobre Portugal pelo taco
E é aqui que entra Donald Trump, esse Mínimo de luxo da sua própria franchise, só que em vez de macacão azul usa fato comprido, gravata em queda livre e uma relação muito pessoal com a realidade. Na mensagem enviada ao embaixador John J. Arrigo, Trump elogia Portugal e explica, com aquela subtileza de bulldozer que Deus lhe deu, que talvez o seu amigo tenha escolhido o nosso país por causa dos campos de golfe. É uma bela forma de diplomacia: Camões, Pessoa, Amália, Saramago, Manoel de Oliveira, a aliança atlântica, os Açores, a diáspora portuguesa nos EUA, tudo muito bonito, tudo muito respeitável, mas o que interessa mesmo é saber se o green está aparado e se há boa vista do tee.
Não nos ofendamos. Pelo contrário, devíamos até agradecer a sinceridade. Durante anos tentámos vender Portugal como destino turístico, cultural, histórico, gastronómico, poético, marítimo, melancólico, solar, tecnológico e emocional. Trump simplificou: Portugal é um sítio onde se pode jogar golfe. E, no fundo, para certo imaginário americano, isto é quase um Prémio Nobel. Há países invadidos por causa do petróleo, países sancionados por causa da geopolítica, países ignorados por causa da irrelevância estratégica. Nós fomos promovidos a destino potencial de swing presidencial. Não é independência, mas é um feriado com relvado à beira-mar plantado.
A possibilidade de Trump vir a Portugal para jogar golfe tem qualquer coisa de filme da Illumination escrito por Eça de Queiroz depois de uma noite mal dormida, a sonhar com Maria Eduarda e a acordar com o Conselheiro Acácio a comentar no cabo. Imaginem a chegada: Air Force One em Beja ou Lisboa, comitiva, sirenes, directos televisivos, ministros a sorrir como bonecos de cera esquecidos ao sol, comentadores a explicar a importância histórica do putt bilateral, seguranças a inspecionar bunkers — e, por precaução, estações de Metro — como se fossem células terroristas, e um país inteiro a perguntar se deve receber o Presidente dos EUA como chefe de Estado ou como hóspede VIP de um resort no Algarve. A diplomacia portuguesa, sempre prudente, diria que ambas as hipóteses são compatíveis, desde que haja antes um coffee break.
Os monstros saem sempre da sala
Mínimos e os Monstros brinca com a ideia de que o cinema cria criaturas que depois ganham vida própria. É uma velha graça, mas continua boa e atual porque continua verdadeira. Hollywood inventou monstros clássicos, super-heróis, vilões, presidentes cinematográficos, finais felizes e a convicção de que a salvação chega sempre no terceiro acto. A política americana aprendeu muito com isso. Hoje, qualquer discurso parece trailer, qualquer campanha é franchise, qualquer escândalo tem teaser, spin-off e cena pós-créditos. Trump percebeu isto melhor do que muitos cineastas: não se limita a governar, protagoniza; não comunica, lança episódios; não responde, faz cliffhanger.
E nós, espectadores portugueses, ficamos na 2ª plateia com uma mistura de fascínio, medo e vontade de comprar pipocas e copos de Coca-Cola. Porque a América pode estar em crise, dividida, excessiva, ruidosa, cansada de si mesma, mas continua a ser a América. Aos 250 anos, já devia ter um bocadinho mais de juízo, mas talvez a grandeza americana esteja precisamente nessa adolescência permanente: uma república com idade de avô, impulsos de teenager e orçamento de blockbuster. Capaz de inventar a Internet e de a usar para discutir chapéus. Capaz de mandar homens à Lua e de transformar eleições em reality show. Capaz de dar ao mundo Lincoln, Martin Luther King e Trump no mesmo pacote histórico, o que prova que Deus, quando criou — ou melhor, editou — a América, também gostava de fazer montagens paralelas.
Portugal, por seu lado, observa atento ao desenrolar dos acontecimentos. Já temos prática. Observámos impérios, crises, guerras, troikas, maiorias absolutas, minorias ruidosas, festivais de verão e restaurantes que nos cobram o couvert de pão e azeitonas sem avisar. Se Trump vier, cá estaremos, com uma enorme passadeira vermelha estendida, o eterno pastel de nata, vento atlântico e um campo de golfe devidamente preparado para acolher a nova fase da relação luso-americana: da base das Lajes ao buraco 18, da NATO ao buggy, da Declaração da Independência à marcação de tee time.
No fim, talvez tudo isto faça sentido: juntar os Mínimos, os 250 anos da América e a hipótese de Trump vir a Portugal jogar golfe. Os Mínimos querem servir mestres malignos, mas acabam a fazer cinema. A América quis libertar-se de um rei e acabou a inventar presidentes que se comportam como personagens de ficção. Trump quer celebrar 250 anos de independência e lembra-se de Portugal por causa do golfe. E nós queremos ser levados a sério, mas continuamos disponíveis para aparecer na cena como destino simpático, soalheiro e estrategicamente útil para homens poderosos com tacos caros.
A moral, se é que ainda há orçamento para moral, é simples: os monstros existem, os Mínimos riem, a América sopra 250 velas e Portugal espera, sereno, junto ao green. Afinal, num mundo onde a política parece cinema de animação e o cinema de animação explica melhor a política do que muitos painéis televisivos de comentadores, talvez a melhor forma de compreender o presente seja esta: pôr uns óculos redondos, falar uma língua impossível, gritar “banana!” e esperar que, pelo menos desta vez, o monstro não saia da sala antes dos créditos. Mas por favor, digam ao Trump que isto não é nenhuma República das Bananas.
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