Vivemos um dos maiores paradoxos da era digital: nunca foi tão fácil utilizar tecnologia e nunca foi tão importante aprender a desconfiar dela. Qualquer um de nós consegue hoje criar um vídeo com Inteligência Artificial em poucos minutos, instalar uma aplicação autonomamente ou comunicar através de dezenas de plataformas diferentes. No entanto, muitos de nós teriam dificuldade em explicar porque não devemos acreditar em tudo o que vemos online, porque uma aplicação pede acesso à nossa localização ou como distinguir uma fotografia verdadeira de uma imagem criada por Inteligência Artificial.
O problema, contudo, não está apenas em alguns. Está na forma como a própria sociedade olha para a tecnologia. Durante demasiado tempo confundimos competência digital com literacia digital, como se fossem sinónimos. Não são. A competência permite utilizar a tecnologia. A literacia permite compreendê-la, questioná-la e reconhecer os seus limites. Saber usar uma ferramenta nunca significou saber avaliar o impacto da sua utilização. E essa diferença tornou-se demasiado importante para continuar a ser ignorada. Aliás é fundamental que o não seja.
Ao longo dos últimos anos investimos fortemente na transformação digital. Colocámos computadores nas escolas, digitalizámos serviços públicos, transferimos processos de trabalho para plataformas online e celebrámos cada nova aplicação que prometia tornar a nossa vida mais simples. Mais recentemente, a Inteligência Artificial entrou definitivamente no quotidiano de milhões de pessoas e passou a responder a perguntas, escrever textos, criar imagens e apoiar decisões. Tudo isto representa evolução e progresso. Representa também o culminar do que, ainda há poucos anos, seria apenas ficção científica. O problema surge quando confundimos facilidade de utilização com compreensão.
Saber instalar uma aplicação não significa perceber por que motivo esta solicita acesso aos contactos, à câmara ou à localização. Saber utilizar Inteligência Artificial não significa reconhecer quando a resposta está errada ou foi construída sobre informação incorreta. Saber criar um vídeo não significa conseguir identificar um deepfake. A tecnologia tornou-se demasiado intuitiva. O pensamento crítico, no entando, continua a exigir aprendizagem.
Esta facilidade de utilização criou uma ilusão perigosa. Quanto mais simples se torna uma tecnologia, menos sentimos necessidade de a questionar. A promessa de conforto na relação com o digital levou-nos a aceitar permissões sem ler, partilhar conteúdos sem verificar a origem, confiar em respostas produzidas por algoritmos sem confirmar fontes e oferecer os nossos dados pessoais em troca de conveniência. O problema já não é a dificuldade em utilizar ferramentas digitais. É precisamente o contrário. Tornaram-se tão fáceis de usar que deixámos de pensar nelas.
Basta observar o nosso comportamento diário. Conseguimos fazer pagamentos através do smartphone em poucos segundos, editar fotografias automaticamente, conversar com Inteligência Artificial ou operacionalizar tarefas laborais sem sair de casa. Mas raramente fazemos perguntas simples. Perguntas como: quem fica com os meus dados? Porque é que esta aplicação precisa desta informação? Posso realmente confiar nesta imagem? Hoje, estas perguntas são muito mais importantes do que aprender mais uma funcionalidade que promete facilitar ainda mais o nosso dia-a-dia.
Seria tentador transformar esta reflexão numa crítica às gerações mais novas. Seria tão fácil que na verdade seria também um erro. Os adultos utilizam Inteligência Artificial sem validar respostas. Executivos experientes continuam a cair em fraudes cuidadosamente preparadas. Professores partilham notícias falsas acreditando que são verdadeiras. Pais expõem diariamente fotografias e informação dos filhos nas redes sociais sem refletirem sobre o impacto futuro dessas decisões. O fenómeno não é geracional. É cultural. Nunca tivemos tantos utilizadores experientes e, ao mesmo tempo, tão poucos cidadãos verdadeiramente preparados para viver num ambiente digital cada vez mais complexo.
É precisamente por isso que a resposta não pode ficar apenas nas escolas. Naturalmente que a escola deve ensinar tecnologia, mas precisa também de ensinar pensamento crítico digital. As empresas não podem limitar a formação à identificação de mensagens de phishing; precisam de criar uma cultura onde questionar seja comportamento valorizado. E as famílias talvez devam preocupar-se tanto com a qualidade do pensamento desenvolvido diante de um ecrã como com o número de horas passadas em frente deste. A literacia digital constrói-se através de hábitos, conversas e exemplos, muito mais do que através de aplicações ou plataformas.
Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja tecnológico. Seja educativo. Estamos a formar pessoas capazes de utilizar praticamente qualquer ferramenta digital, mas nem sempre preparadas para compreender os riscos, os interesses e as manipulações que podem existir por detrás desta. Confundimos facilidade de utilização com conhecimento e rapidez com consciência. No entanto, são precisamente essas pequenas pausas para pensar que fazem hoje toda a diferença.
A verdadeira transformação digital não acontece quando todos sabemos utilizar tecnologia. Acontecerá quando todos soubermos questioná-la.
A geração mais conectada da História arrisca tornar-se também uma das mais vulneráveis à manipulação. Não por falta de tecnologia, mas por falta de literacia digital. E o maior risco da Inteligência Artificial talvez nem seja aquilo que ela é capaz de fazer, mas o aquilo que nos leva a deixar de fazer: perguntar, verificar e duvidar.
Segurança não é técnica. É humana.
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