O voto nas autárquicas tem menos de ideológico do que qualquer outro ato eleitoral. É ali onde se ‘joga’ muita da aprovação ou da rejeição de executivos em funções e se julga determinadas ideias em detrimento de outras. Define-se o melhor ou o menos mau dos programas para colmatar determinados problemas nas cidades, vilas, e até para não criar outros. De certa forma, isto é o que torna estas eleições tão interessantes. O poder local acaba mesmo por ser o berço da política e muitas vezes o cancro de tantos casos que têm fragilizado a democracia em Portugal.
É essa última parte e a força do Chega que tornam as eleições do próximo dia 12 de outubro tão decisivas para o PS e o PSD.
Sim, o paradoxo está no facto de as eleições menos ideológicas à partida se terem tornado as mais decisivas para os dois principais partidos do regime democrático dos últimos 50 anos.
Não é o sistema que está em causa. Isso já lá vai e cabem dois num só, como se tem percebido. É mesmo se isto será o princípio do fim do regime democrático e liberal ou se, pelo contrário, este dá sinais de se aguentar.
Veja-se: a implementação nacional de um Chega que conquista dez, 12 câmaras é completamente diferente da de um partido que acaba a presidir o dobro disso ou que alcance as tais 30 câmaras que André Ventura definiu como objetivo. Nesta fase, tudo parece possível. As incógnitas são grandes e muitos dos 308 concelhos têm um executivo camarário a exercer o último mandato.
Das 148 câmaras lideradas pelo Partido Socialista, há 28 nessa situação de terceiro mandato. Perder a Associação Nacional de Municípios é um horizonte que se tornou plausível para o PS. Muito pela guinada do eleitorado à direita, no País em particular, na Europa no geral, mas se acabar por não ganhar nenhuma das maiores câmaras nacionais como Lisboa, Porto, Sintra, Cascais, Braga, Gaia, entre outras, será mais uma hecatombe. Um sinal definitivo de que o histórico partido se tornou uma versão em modelo miniatura, o que trará repercussões imediatas para o País. Que não haja dúvidas quanto a isso.
Tudo parece possível, tal como todo o contrário deste cenário que acabei de retratar, mantendo o PS uma implementação parecida com a que tem e até recuperando outras câmaras, como Évora e Faro. O PSD também percebe a relevância destas eleições autárquicas para o partido e a tentativa de seduzir há meses a Iniciativa Liberal para coligações pré-eleitorais nestas autárquicas que incluiriam lugares no Executivo nacional é sinónimo disso. Não ganhar mais câmaras do que o PS é perder uma oportunidade única, mas, sobretudo e dependendo da dimensão do resultado do Chega, poderá ser definidor sobre qual o partido que passará a defender o regime democrático com mais propriedade.
Sim, regresso ao início e ao centro deste artigo onde a palavra “sistema” não se confunde com “regime”. Primeiro, porque há cerca de três anos que sei que André Ventura e o seu partido são financiados tanto internacional como internamente, desde 2019, por alguns dos empresários mais relevantes de muitos setores no País. Isto não combina com ser antissistema. Depois, não é só a origem de Ventura no PSD, o apoio que reúne entre alguns nos média, ao contrário do que faz e se fez crer, ou a influência que já tem junto das polícias, do próprio Ministério Público e em setores-chave do País. O Chega está instalado no tal sistema há muito e só não o percebeu quem julga que só existe um e que esse é estanque.
Até sugeriria que, tal como em eleições recentes, estivéssemos mais atentos a determinados inquéritos, denúncias em alturas-chave junto do Ministério Público, à relevância factual das mesmas e à forma como a partir daí são tratadas ou não pela comunicação social.
Segundo, porque não tenho ilusões sobre a mudança de regime pretendida pelo Chega. Seguindo o guião trumpiano dos EUA e de outros congéneres europeus, como Orbán na Hungria, a AFD na Alemanha, a Frente Nacional em França ou o VOX em Espanha, a eventual dimensão elevada da implementação da extrema-direita nacional será um primeiro passo decisivo para isso.
Apesar de presidir 19 dos 308 concelhos, desde a década de 80 que o PCP perdeu as esperanças sobre outro regime e o totalitarismo da esquerda comunista a governar Portugal. Com um alcance bem superior a este e levando em consideração os “ventos” globais que englobam financiamento, apoios e ferramentas para a maior manipulação das massas desde o final da II Guerra Mundial, com o Chega será o oposto disso.
O objetivo é congregar tudo como tem feito e destruir de forma completa o sistema a partir de dentro, dando lugar a um regime de cariz fascista de extrema-direita.
As autárquicas serão o princípio dessa realidade ou até podem ser a parede que começa a construir-se contra essa possibilidade.
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