Pelas piores razões, o ponto mais polémico de toda a excelente intervenção do Presidente da República na Universidade de Verão do PSD não poderia ter tido timing mais certeiro. Poucas horas depois das palavras de Marcelo, Putin estava a massacrar Kiev e a colocar, como nunca, em xeque a Europa, através de bombardeamentos às instalações da União Europeia na capital ucraniana. Cerca de dez dias antes deste novo escalar, Donald Trump dera ao mesmo Putin honras de verdadeiro czar no Alasca, mostrando-se em tudo subjugado e até admirador do invasor da Ucrânia.
Nada disto era novo. Só os tolos se surpreendiam, mas para nota de futuro foi muito propagandeada pelo Presidente dos EUA, sem qualquer acordo, mas com o “construtivo” e a tal “reunião produtiva” num comunicado entre as partes. Viu-se.
Vamos então às frases e à lógica de Marcelo que tanto azedume e ataque interno geraram. Sim, sobretudo entre portas, já que globalmente o que foi dito reúne bastante simpatia. “O líder máximo da superpotência do mundo tem funcionado como um ativo soviético, desculpe, russo. É um ativo russo. A nova liderança norte-americana tem favorecido estrategicamente a federação russa.”
Em primeiro lugar, importa referir que não existe absolutamente nada de radical nestas frases e na própria lógica do Presidente da República. A não ser que por “moderados” entendamos que os políticos desse espaço no novo e exigentíssimo contexto atual, no qual todo o modelo democrático liberal sofre tentativas de desmantelamento nos EUA e noutros países, devem ser uma espécie de bonecos caramelos que nada de interessante, concreto, referem, e se demonstram ausentes do combate político mais decisivo no Ocidente dos últimos 40 anos. Infelizmente, estejam camuflados ou não, temos demasiados “moderados” desses também por cá e alguns são candidatos a Presidente da República.
Em segundo lugar, os factos. Putin nunca disse que queria o fim da guerra, muito menos deu qualquer passo em relação ao reconhecimento da soberania da Ucrânia. Trump mentiu em relação a isso desde o início e só quem anda desatento não o tinha percebido antes. A pressão junto da Rússia de Putin por parte da Administração Trump, seja esta militar ou económica, é inexistente e deveria ter feito soar o alarme há muito dos verdadeiros líderes europeus “moderados” que restam. Até porque essa realidade, a ausência de sanções americanas e não só, tem feito com que Putin acredite verdadeiramente que ganhará a guerra exatamente nos moldes que quer e com o território ucraniano que pretende. Finalmente e como se não bastasse, toda a ligação financeira de Trump à banca russa é sobejamente conhecida, tem décadas e influi naquilo que se considerou ser a interferência da Rússia na sua primeira eleição.
Cronologia, causa-efeito, factos e todo um desenrolar de acontecimentos a comprovar aquilo que Marcelo referiu. Longe de qualquer teoria da conspiração.
A realpolitik: deve um Presidente de um país fundador da NATO dizer aquilo?
Sempre soube na altura que a eventual eleição de Trump ia ser de longe e sem paralelo a pior coisa para os interesses europeus e da Ucrânia. Ideologias, moderados, radicais, à parte, essa constatação causava muita irritação entre os últimos e os próprios camuflados num estúdio de televisão perto de si.
Certo também é que vivemos numa era em que, tal como a defesa da Ucrânia demonstrou, toda a realpolitik nos moldes do antigamente, e num sistema global que mudou vertiginosamente em poucos anos, significará a morte completa das democracias liberais.
Marcelo sabe disso.
E como são ingénuos os que julgam que não e que as alianças atlânticas se mantêm estanques na era do trumpismo, que o mundo é pequeno e que as declarações de Marcelo não reúnem por si outros interesses e apoios que interessam. Também nos EUA. Veja-se ainda como no timing estas declarações do Presidente da República convergem com a mais recente decisão de um tribunal federal americano ter declarado ilegais as tarifas impostas globalmente por Trump.
A realidade é que nos desabituámos da verdadeira coragem democrática, da lógica e da astúcia na política entre os moderados, mas os tempos nunca a pediram tanto.
Eanes e Soares eram pessoas que não só a tinham, como sempre souberam ir ao encontro disso, interpretando e mudando o tempo político português em contextos históricos decisivos. Mário Soares foi isso toda a vida.
Como presidentes da República, teriam dito hoje o mesmo que Marcelo.
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