A revisão em baixa do número de portugueses que terão acesso a médico de família, agora reduzido para apenas 60 mil novos utentes abrangidos, é mais do que um recuo político. É um sinal preocupante de resignação perante um dos maiores problemas estruturais do Serviço Nacional de Saúde. Num país onde mais de um milhão de pessoas continuam sem médico de família, anunciar metas tão modestas representa admitir que o Estado deixou de ambicionar uma solução universal para um direito que deveria ser básico.
O médico de família não é um luxo administrativo ou uma estatística de campanha. É a porta de entrada no SNS, o profissional que acompanha o histórico clínico, previne doenças, evita urgências desnecessárias e garante continuidade de cuidados. Quando esse elo desaparece, o sistema torna-se mais caro, mais lento e mais injusto, e quem mais sofre são os idosos, doentes crónicos e famílias com menos recursos.
Durante anos, os sucessivos governos prometeram resolver esta carência, anunciando concursos, incentivos, reformas organizacionais e novos modelos de unidades de saúde. No entanto, a realidade manteve-se praticamente inalterada. Em algumas regiões do País, sobretudo no interior e nas áreas metropolitanas mais pressionadas, conseguir uma consulta de cuidados primários tornou-se uma verdadeira lotaria e, por consequência, muitos portugueses recorrem às urgências hospitalares para problemas simples, não por escolha, mas porque não têm alternativa.
Mas o atual Governo, e em particular a ministra da Saúde, não podem fugir às suas responsabilidades. Desde que assumiu funções, a ministra tem revelado uma preocupante incapacidade para apresentar respostas eficazes para a crise no SNS. Entre anúncios sucessivos, promessas vagas e medidas sem impacto visível, o sentimento que cresce entre os portugueses é o de desorientação e falta de liderança política.
A decisão de rever em baixa o número de cidadãos que passarão a ter médico de família é particularmente grave porque demonstra conformismo perante o problema. Em vez de aumentar a ambição e atacar as causas da falta de médicos, o Ministério da Saúde prefere baixar objetivos para tentar apresentar resultados menos negativos. É uma estratégia política de gestão de expectativas, não uma solução para os cidadãos.
A ministra da Saúde tem insistido num discurso excessivamente otimista, muitas vezes desligado da realidade vivida nos centros de saúde e hospitais. Enquanto o Governo fala em reformas e reorganizações, os utentes continuam sem resposta, os profissionais acumulam desgaste e o SNS perde médicos para o privado e para o estrangeiro. Faltam medidas concretas para fixar profissionais, melhorar carreiras e reduzir a burocracia que consome tempo clínico precioso.
A sensação é a de que o Ministério reage sempre tarde aos problemas, limitando-se a apagar fogos em vez de implementar uma estratégia séria e duradoura. O resultado está à vista, urgências encerradas, tempos de espera cada vez maiores e mais de um milhão de portugueses sem médico de família. Não se trata apenas de uma dificuldade técnica ou conjuntural, trata-se de uma falha política evidente.
As causas da falta de médicos são conhecidas há muito tempo. Há aposentações em massa, desigualdade na distribuição territorial, carreiras pouco atrativas e um desgaste profissional crescente. O problema não surgiu repentinamente, faltou capacidade de antecipação e coragem política para tomar decisões difíceis antes da situação atingir este ponto crítico.
O mais preocupante é que Portugal continua a formar médicos altamente qualificados, investindo milhões de euros na sua formação, mas depois não consegue criar condições para os manter no SNS. Muitos abandonam o serviço público porque encontram no setor privado melhores salários, horários mais equilibrados e menos pressão. Outros optam pela emigração. E perante esta realidade, o Governo parece assistir passivamente à degradação do SNS.
Também é impossível ignorar a dimensão política desta crise. Durante décadas, o acesso universal à saúde foi apresentado como uma das maiores conquistas da democracia portuguesa. Hoje, esse princípio está a ser lentamente corroído, pois quando mais de um milhão de pessoas não têm médico de família, deixa de existir igualdade efetiva no acesso aos cuidados de saúde.
Os portugueses merecem mais do que anúncios e revisões em baixa de metas. Merecem um Ministério da Saúde capaz de liderar, planear e resolver problemas e merecem uma ministra que assuma responsabilidades pelos resultados negativos, em vez de se refugiar em justificações e promessas adiadas.
Porque um milhão de portugueses sem médico de família não é apenas uma estatística. É o retrato de um SNS em perda de capacidade e de um Governo que, até agora, tem falhado em proteger uma das funções mais essenciais do Estado que é garantir cuidados de saúde dignos e acessíveis para todos.
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