Para não deixar para as calendas aquilo a que me propus voltar na última crónica, sobre a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) – numa edição em que esta foi o tema central e de capa -, recordo aqui os seus dois primeiros e notáveis presidentes, com algumas notas pessoais.
José de Azeredo Perdigão – Grande advogado, começou a sê-lo de Calouste Gulbenkian (CG) no início da década de 1940, e a trabalhar no seu testamento em 1948. Este daria origem a uma longa, complexa e importantíssima batalha jurídica, com familiares de CG e, direta ou indiretamente, com países que queriam para eles o que acabou por ficar em Portugal. Azeredo Perdigão (AP) foi fundamental neste desfecho, na construção/institucionalização e extraordinária ação da Fundação. Estatutariamente seu “presidente “vitalício”, presidiu-lhe durante 37 anos, de 1957 até à morte em 1993, em vésperas de completar 97 anos.
Além de ser a figura central, com um poder praticamente absoluto, incontestado, o doutor Perdigão teve ele próprio as ideias de várias realizações muito importantes da Fundação, em algumas a partir de certa altura apoiado (ou algumas ela própria as teve) pela sua segunda mulher, Madalena Biscaia Perdigão.
No princípio havia uma total unanimidade sobre aquele poder do “presidente”, e por vezes uma espécie de respeito reverencial por ele. Recordo-me da primeira vez que fui à Gulbenkian, em 1966 ou 67, como jornalista do Diário de Lisboa. Falava com Victor Sá Machado (que tratava, na Fundação, do apoio às atividades culturais das associações de estudantes), e notei que de vez em quando mudava um pouco de posição. Achei estranho, até perceber que Sá Machado, sempre formal e de seu natural cerimonioso, mudava de posição quando AP se movimentava, para não ficar de costas para ele…
Nunca tendo estado em causa o reconhecimento do papel essencial, único, do doutro Perdigão, nem o apreço e admiração por ele, nos últimos anos, já com uma idade bastante avançada, foram surgindo problemas. E creio ter havido mesmo tentativas de o levar a deixar a presidência, por sua iniciativa. O que não aconteceu: alegadamente, segundo quem o desejava, por “pressões” de seus muito próximos…
Certo é que, na primavera de 1991, tinha o doutor Perdigão 94 anos, ainda acompanhava com atenção e interesse a vida cultural do país. Assim, tendo saído em março o nº 1 do JL, jornal de letras, artes e ideias, ele disse-me como o tinha apreciado, incentivou-me e convidou-me para um almoço na sua casa de Cascais, só nós dois e mulheres. Não o posso esquecer, até porque se lhe seguiu uma longa conversa, a tarde inteira, em que me contou muitos episódios da sua vida e da Fundação. Quanto a esta, destaco Salazar ter sido mais recetivo do que Marcelo Caetano à ideia de a apoiar, dispensando certas exigências da ditadura e concedendo-lhe alguns benefícios fiscais. Marcelo não queria, e as relações de Perdigão com ele sempre foram más, do que me falou mais de espaço.
Com o gosto especial que tenho por autobiografias e memórias, claro que disse a AP o “óbvio” – que seria formidável, e do maior interesse, ele escrever as suas. E repetidamente lhe voltei a falar disso, até porque criei, entre outras, uma coleção de “Autobiografias” com a chancela O Jornal. O que ele me respondia é que a faria quando tivesse tempo, isto é, quando deixasse a presidência da Fundação. O que como se viu nunca aconteceu, porque – disse-me uma vez -, “antes rebentar do que enferrujar ou apodrecer”… Mas mais lamentável ainda é não haver uma boa, completa, biografia do homem excecional que AP foi, de “seareiro”, e amigo de Fernando Pessoa a edificador da Gulbenkian.
António Ferrer Correia – A AP sucedeu António Ferrer Correia. Como se impunha, por várias razões: a) em termos estatutários, por ser o administrador mais antigo; b) por ser a grande personalidade que era, prestigioso prof. de Direito e reitor (depois reitor honorário) da Universidade de Coimbra, e jurista de exceção: um parecer seu, de Direito Internacional Privado, foi importante para o resultado final daquela batalha jurídica; c) por ser um homem de diálogo e de consensos, de muito bom trato e apurado sentido diplomático, com um conhecimento profundo da realidade da Fundação – em que teve, como administrador, teve decisiva influência em vários domínios.
E, de facto, o prof. Ferrer conseguiu o que era extremamente difícil: fazer uma “transição pacífica” da Gulbenkian do doutor Perdigão para a Gulbenkian sem o doutor Perdigão. Uma Gulbenkian que continuando a ser a mesma, aproveitando tudo, tantíssimo, que o anterior presidente fizera por ela, corrigisse ou ultrapassasse, discretamente, erros, falhas, deficiências existentes. Com uma simultânea maior abertura na sua orientação e, onde necessário, modernização.
Ferrer Correia conseguiu o que era muito difícil: fazer uma “transição pacífica” da Gulbenkian de Perdigão para a Gulbenkian sem Perdigão. Uma Fundação que continuando a ser a mesma, corrigisse ou ultrapassasse erros, falhas, deficiências, com uma maior abertura na sua orientação e com modernização
Uma das coisas que, com este objetivo, o novo presidente fez, foi criar um “Conselho Geral” consultivo. Integraram-no, a seu convite, muitas personalidades destacadas da vida portuguesa, entre as quais me recordo das e dos, além do mais, renomados “universitários” Mª Helena Rocha Pereira e Isabel Magalhães Colaçp, Veiga Simão e Freitas do Amaral, Machado Macedo e Linhares Furtado; bem assim Júlio Pomar e Simoneta Luz Afonso, ou Artur Santos Silva e Daniel Proença de Carvalho. O Conselho reunia duas ou três vezes por ano, sob a presidência do prof. Ferrer, participavam os outros administradores, diretores de serviço e quadros superiores que poderiam ser ouvidos e/ou intervir.
Nessa época circulou a ideia que a Gulbenkian estava em crise. Não estava, mas havia essa perceção. Talvez por as atenções incidirem muito sobre o Centro Cultural de Belém e a Culturgest, a arrancarem; mas sobretudo porque a Fundação não tinha uma política de comunicação/divulgação eficaz; de facto, não tinha nenhuma… Ora, naquele Conselho Geral, havia um, só um, membro sem os atributos referidos, simples jornalista com experiência. Que defendia com veemência a necessidade de haver na Fundação um serviço de comunicação, que informasse devidamente sobre as suas múltiplas iniciativas e atividades.
Não se tratava de a Gulbenkian se pôr em bicos de pés ou querer ocupar o palco, mas sim de rentabilizar, tornar conhecido e acessível o que promovia. Não fazia sentido ter um orçamento de 50 mil contos para uma grande exposição, sem qualquer verba para o público saber que ela “existia”: a comunicação era condição indispensável da eficácia.
Escrevi-o na parte que me coube fazer do “relatório” solicitado pela administração ao Conselho. Nele me referi à para mim incompreensível falta de interação entre os vários Serviços, sem iniciativas conjuntas – eu dizia que às vezes parecia estarmos numa espécie de “República Federativa” (podia dar vários exemplos). Outro dos pontos concretos que defendi foi tornar “possível” a compra das edições da Gulbenkian, dezenas e dezenas de grandes obras que estavam mortas num armazém (lembro-me da forte reação aprobatória da profª Magalhães Colaço, revelando haver um tratado de Direito que ela aconselhava e os alunos nem na sede da Fundação conseguiam adquirir).
Isto e muito mais se “resolveu”: estes são apenas pequenos exemplos do meu testemunho pessoal. O prof. Ferrer era muito perspicaz, sabia ouvir e atuar com inteligência e eficiência. E com visão, sentido de futuro. Foi assim que convidou para administrador, é minha convicção que já pensando em ele vir a ser um seu excelente sucessor, Emílio Rui Vilar, ao tempo presidente da Caixa Geral dos Depósitos. E foi: o quarto, e o que depois de AP mais tempo, dez anos, ocupou o cargo – sendo que o terceiro, Sá Machado, que teve um curto mandato, por morte prematura, também entrou e ascendeu na Fundação pela mão de Ferrer Correia. Mas falar destes presidentes, e dos que lhe sucederam, terá de ficar (se ficar…) para próxima oportunidade. visao@visao.pt