Sim, o título diz tudo. Já sabem de que se trata. Quando ensino Eça aos meus alunos, digo-lhes sempre: trabalhem muito e um dia com sorte serão de leitura obrigatória! E lá vão eles para casa, munidos de honesto civismo. Isto porque não sabemos o que fazer ao talento. Às vezes, colocamo-lo numa estátua no meio de um jardim, para que os cães, ao defecar, contemplem a glória da criação:
-“Então, onde cagaste hoje?”
-“Hoje apetecia-me algo como Cesário Verde”
-“Credo, que mau gosto!”, diz o primeiro,
e portanto é isto mas não só: podemos mesmo ascender a nome de rua ou, deus queira, avenida. Assim, quando o Uber que (não) está a aprender português quiser passar ali, terá sempre de levar connosco.
Repito: não sabemos o que fazer ao talento. Do mesmo modo, um dia seremos citados na Assembleia por qualquer deputado que nos blasfema: “Invoco o espírito de Pessoa para subsidiar menos os artistas!”
A arte é, no fundo, de trazer no bolso, anedota para silêncios de elevador.
Os meus alunos, aliás, já estão a compor sonetos na esperança de um beco ou de uma esquinazinha em Freixo de Espada à Cinta.
E esta instrumentalização – que é triste e dá pressão alta – vai-se expandindo, sendo Camões a prova disto tudo (o poeta, não o aeroporto).
É que quando queremos pesquisar sobre o poema épico, temos de ultrapassar anúncios de saúde privada.
Até existe a app +Lusíadas, porque + é melhor, – é pior, e / a literatura x 3,14 dá um dinheirinho que todos gastamos com medo da hérnia discal.
É este o estado das coisas. E como nada grita melhor “por mares nunca dantes navegados” que estourar a reforma em médicos sem acordo, toca lá a poupar, Viriato da era moderna, que eles aí vêm. Poupar, trabalhar, dormir, poupar, trabalhar, dormir. Se fizeres isto muitas vezes e com muita convicção, prometo homenagear o teu nome num chafariz em Alcácer do Sal.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.