Imersos em mais uma temporada de “casos e casinhos”, em que mudam os atores, mas se mantém o tipo de guião repetitivo e pouco imaginativo, é fácil esquecermo-nos do que deve ser a verdadeira função de um governo e da política em geral: traçar caminhos para o País e não apenas tentar resolver os problemas que surgem… ou que, tantas vezes, os próprios detentores do poder criam.
O resultado está à vista: passamos mais tempo a discutir aquilo que é efémero, e quase não damos importância ao que terá impacto duradouro. Os algoritmos das redes sociais e as agendas mediáticas em busca de sobrevivência no campeonato da atenção são instrumentais no processo de empobrecimento do confronto de ideias. E quando se ocupa a maior parte das horas e das páginas apenas a debater as táticas políticas de curto prazo ou os truques de comunicação de cada ator político, não sobra tempo nem espaço para aquilo que realmente deveria interessar-nos. O debate público está completamente absorvido pela tática de curto prazo e abandonou a reflexão sobre a estratégia que pode ou não mudar o nosso futuro.
Para agravar, criou-se a tendência de olhar para qualquer problema ou assunto sempre pela perspetiva do resultado económico imediato. Quando, na verdade, todos sabemos que as melhores políticas e as grandes decisões são aquelas que, mesmo custando muito dinheiro no início, acabam por criar riqueza no longo prazo e, tantas vezes, a transformar a nação para melhor.
Embora tenha ficado um pouco “fora de moda”, por causa das agendas populistas, o tema da transição energética é, em qualquer circunstância, absolutamente central para o desenvolvimento nacional. E, muito bem, há mais de uma década que os sucessivos governos se têm mantido alinhados no mesmo objetivo de descarbonização, o mais rápido que for possível. Temos a vantagem geográfica de contar com um território com grande potencial hídrico, solar e eólico. E, dessa forma, mesmo que isso não seja sempre valorizado, dispomos de uma das eletricidades mais baratas da Europa e, mais importante ainda, atingimos um nível de autonomia energética, que nos permite não ficar dependentes dos humores da geopolítica, em relação ao petróleo e ao gás natural.
No entanto, é preciso começar a pensar de forma mais profunda no modelo de progresso energético que queremos ter e naquilo de que estamos ou não dispostos a abdicar em termos de solo, de ambiente, de biodiversidade, de respeito pela Natureza.
Implantar quilómetros de painéis solares em zonas agrícolas ou abrir minas a céu aberto no meio de comunidades que deviam ser protegidas exige uma discussão que vá para lá da burocracia habitual que costuma estar associada aos processos de consulta pública. Por mais atrativos que esses investimentos possam ser, eles precisam de ser analisados de forma participada com as populações. E precisam de ter planos de sustentabilidade associados, de forma a que, no caso de serem concretizados, a região que os recebe tenha ganhos futuros.
Mais do que oportunidades de negócio, mesmo que pareçam irresistivelmente lucrativos, estes empreendimentos precisam de ser pensados dentro de uma estratégia espacial e temporal integrada. E de longo prazo. Respondendo, claramente, às perguntas que ficarão para as próximas gerações: que instrumentos serão utilizados para manter as comunidades na região? Que incentivos haverá para assegurar a proteção da Natureza? O que acontecerá – no caso concreto da extração de lítio no Barroso – depois de a atividade mineira terminar (alegadamente no prazo de década e meia)?
Apesar de termos um espaço geográfico relativamente pequeno, todos nós conhecemos a quantidade de ruínas que ficaram, um pouco por todo o lado, de antigas explorações mineiras ou até de projetos industriais, muito lucrativos nos seus dias, mas que entretanto foram ultrapassados.
É por isso que se torna cada vez mais urgente o debate sério e participado sobre os grandes projetos que, em nome da justa e necessária transição energética, podem estragar irremediavelmente o território. É um debate que não dá votos, é certo, mas que será absolutamente decisivo para o nosso futuro. E as férias de verão podem ser o momento ideal para cada um pensar nisso. Sem pressas, mas atento ao que se passa à sua volta.