Morreram perto de 90 pessoas na mais recente travessia em massa para Ceuta, na semana passada, quando, segundo fontes policiais, mais de 73 mil migrantes atravessaram a fronteira a nado até à praia El Tarajal. O aproveitamento político desta tragédia tem sido atroz, traduzindo-se em acusações trocadas entre governos, no uso sem escrúpulos do desespero dos mais pobres para veicular pontos de vista extremistas, na manipulação de uma emoção primária e fortíssima, como o medo, para incentivar o ódio contra aqueles que tentam “invadir a Europa”. E sobre o que é a Europa já lá iremos.
Mas antes falamos aqui dos “mandadores sem lei”, expressão retirada de uma estrofe da canção Os Vampiros, de José Afonso. São os “mordomos do universo todo”, os que “vêm em bandos com pés veludo chupar o sangue fresco da manada”, os que “comem tudo e não deixam nada”. Os senhores das redes sociais. Quando se dá a palavra aos migrantes que chegaram a Ceuta, percebemos que são jovens, sem trabalho ou com salários a rasar o mínimo da sobrevivência, sem esperança nem futuro, tomados por uma força de vencer na vida, de se sustentarem a eles e às suas famílias. E todos dizem o mesmo: viram no TikTok, no Facebook ou no Instagram que em Espanha poderiam ter papéis, legalizar-se e arranjar um emprego que lhes garanta uma vida digna.
O governo espanhol abriu recentemente um processo de regularização extraordinária de imigrantes, reconhecendo que existe uma grande necessidade de mão de obra na agricultura, no turismo, na construção civil e no setor dos cuidados a idosos. Para se candidatarem a um visto, os imigrantes terão de ter entrado em Espanha antes de 1 de janeiro de 2026 e têm de comprovar estar no país, ininterruptamente, há pelo menos cinco meses.
Nada disto diz o TikTok, o Facebook ou o Instagram. As redes sociais dizem o que lhes apetece, estamos no reino da desinformação e das fake news, e ninguém as controla nem quer controlar. As tímidas leis de regulação aprovadas na União Europeia, por exemplo, têm tido pouco ou nenhum impacto nos gigantes tecnológicos. Tentativas de regulação esbarram em discussões estéreis sobre o que é liberdade de expressão e o que é censura. Escasseiam os moderadores humanos, as redes usam bots para se autorregularem, e apenas na Europa, onde as leis começam a apertar, deixando o resto do mundo à solta no meio da desinformação. Plataformas como o X, de Elon Musk, passam a vida em litígios na UE porque se recusam a cumprir as mínimas regras.
Musk, Zuckerberg e companhia limitada estão acima da lei, quando a há, ou financiam candidatos políticos que lhes garantam que não há lei para eles. Enquanto se acusa Marrocos de ter fechado os olhos à travessia em massa, o governo espanhol de ser permissivo e os imigrantes africanos de andarem a “invadir a Europa”, convenientemente se ignoram as redes sociais sem rei nem roque em nome da liberdade de expressão, ainda que a desregulação dessa expressão provoque tantas vítimas.
Sobre a invasão da Europa, resta dizer que Ceuta está situada no continente africano. E perguntar: o controlo espanhol histórico de Ceuta e Melilla, contestado por Marrocos, país que se tornou independente em 1956, ainda faz sentido em 2026?