Não houve até hoje nada que se tenha metido entre mim e um disco do Elvis Presley, do James Brown, do Jerry Lee Lewis ou do Phil Spector. Não que haja falta de informação sobre atos abjetos cometidos por qualquer um deles e certamente não por achar que, naquela época, era tudo normal e aceitável. Acontece apenas que há uma descoincidência entre os juízos de valor que faço em relação aos atos em questão e a relação que estabeleço com a música destas pessoas.
É verdade que, de vez em quando, a consciência pesa, mas isso não é para aqui chamado. Se é assim, como se explica que, depois de ter ouvido as sonsas declarações de Nick Cave sobre a ocupação israelita da Palestina, se tenha esfumado imediatamente a paixão que fora magicamente criada numa noite de 2005 em Paredes de Coura?
Suponho que as pessoas estabeleçam relações diferentes com a arte e que nela valorizem coisas distintas. Há quem veja na arte um desporto de competição e se entusiasme com números de discos (enfim, na medida em que alguém ainda vende discos), bilhetes vendidos, notas tocadas por minuto, quantidade de acordes na mesma canção ou quantidade de oitavas que uma voz alcança. Mas nunca fui pessoa de gostar de desporto.
Há também quem veja a arte num sentido utilitário: como veículo para passar uma mensagem, contribuir politicamente, lutar pela hegemonia de um certo ideário no espaço público. Se é verdade que não há arte neutra, também não é como instrumento de propaganda que ela me interessa.
A ligação que estabeleço com a música é puramente emocional. É isso que faz com que consiga apreciar uma canção dos 16 Horsepower (banda de folk gótico religioso) sem ter um único ossinho religioso no corpo. É isso que me permite apreciar a canção Don’t let me be misunderstood, mesmo quando cantada pela voz masculina do Eric Burdon e não apenas quando cantada de forma sarcástica pela Nina Simone, apesar de achar que a personagem central dessa canção é um filho da mãe.
É verdade que estes gatilhos emocionais são acionados muitas vezes sem que nos demos conta, mesmo que depois os consigamos racionalizar e compreender. Quando ouço a Debbie Harry dos Blondie a cantar X Offender, há um lado estético que conquista imediatamente, mas a ligação emocional é mais forte por saber quem ela é e o que está a dizer. Quando ela dá voz a uma prostituta que diz ao agente que a prendeu que, quando sair da prisão, vai perpetrar amor com ele, há um aspeto de desafio daquela miúda franzina e linda que aciona esse gatilho.
As lutas entre polícias do gosto, que tentam controlar os gostos dos outros, e polícias dos polícias do gosto, que tentam controlar quem deve controlar os gostos dos outros, interessam-me pouco. As várias ironias que fazem voos rasantes hipersónicos por aquelas cabeças seriam suficientes para fazer um festival, mas, infelizmente, poucos as apreciariam.
Quer isto dizer que arte é arte e a política não é para aqui chamada? Na verdade, quer dizer exatamente o contrário. Os perfis públicos dos músicos mais populares fazem com que, quer o queiram quer não (e em muitos casos, não há nada que quisessem menos), o que fazem e dizem entre no espaço público e se torne parte das eternas disputas que tentam definir o bom e o mau, o certo e o errado, o bonito e o feio, enfim, os valores e os gostos dominantes.
O que vale para cantores, vale para outras figuras públicas. Quando o Bob Dylan gozava com a cara dos jornalistas que lhe perguntavam o que achava de ser um modelo para a juventude, não estava a ser muito diferente de um jogador de futebol que considera injusto ser criticado pela forma como o seu comportamento pode influenciar os mais jovens.
É, por isso, perfeitamente justificado que até os artistas mais aparentemente inócuos sejam criticados à luz dos impactos que têm no espaço público. A música popular que passa entre risos distraídos nos Santos Populares normaliza ideias machistas e homofóbicas. Uma canção que diz “Se ela pedir pra mim parar, eu não vou parar não / Vou socar sem parar…” contribui para a normalização da ideia de que um “não” pode ser ignorado e um cantor que tenta justificar concertos em Israel com uma espécie de cruzada pela liberdade de expressão contribui para a elevação da sonsice a desporto olímpico.
Voltamos pois ao Nick Cave. Confrontado com críticas por ir tocar a Israel, respondeu com tiradas contra a censura pedindo genuína compaixão por todos os israelitas inocentes que seriam privados de ver um concerto seu. Percebo, sem julgar, quem consiga continuar a ouvir e a apreciar canções como The Mercy Seat depois disto. Mas, no que me diz respeito, o cantor australiano cometeu o pior pecado: tomou-me por parvo.
Durante muito tempo não consegui perceber por que raio me incomodava tanto aquela posição pública e porque é que ela me impedia de apreciar música que, antes, me arrepiava. É que na arte, particularmente na arte, gosto pouco que me tomem por parvo. Isto não invalida o grotesco da utilização da sonsice para dar cobertura ao seu ego e, ao mesmo tempo, relativizar a matança. Isso são outros quinhentos que valem certamente a pena discutir.
Não sinto obrigação nenhuma de estender este tipo de raciocínio a todos os artistas e figuras públicas que admiro. Também não sinto qualquer impulso para enveredar por uma espécie de proselitismo para tentar convencer toda a gente da justeza da minha posição. Outras coisas acontecerão que quebrarão esse lado emocional com outras obras, e está tudo bem com isso. A arte serve para criar uma relação emocional através da estética, e depois abrir-nos horizontes e dar-nos formas de compreendermos coisas que sempre estiveram à nossa frente. Se a relação está inquinada à partida, paciência. Segue-se em frente ou esperamos até nos voltarmos a apaixonar.
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