A História é a narrativa, mais ou menos exata, do que teve lugar, valorizada pelo peso que damos às suas partes e componentes. Os símbolos dão às visões do passado um sentido presente, implicando o que teve lugar no que ainda irá ser forjado. Ceuta, tão presente nos últimos dias na construção dos nossos medos e fobias, é um desses símbolos que atravessam os séculos e que, sem que nos apercebamos, irrompem na atualidade, definindo partes da forma como vemos e vivemos o mundo.
Ceuta fora conquistada em 1415 por D. João I, que nessa conquista armou cavaleiros os seus filhos mais velhos, os infantes D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, satisfazendo o desejo de os ver receber tal honra em combate contra os mouros. Eram tempos de guerra santa, de luta contra o eterno inimigo da Cristandade, o Islão. Ceuta abria caminho a uma continuação da dinâmica da chamada Reconquista Cristã, numa continuidade territorial que se viria a ver irrealizável.
Era nessa lógica de reconquista que os monarcas portugueses se intitulavam como reis dos Algarves, “d’aquém e d’além mar”, sendo o “além mar”, o que hoje é Marrocos, materializado na posse de algumas cidades e fortalezas, entre elas, Ceuta que, para espanto, mantém como bandeira e brasão de armas o escudo português. Aquando da recuperação da independência com a revolução de 1640, Ceuta acaba por ficar do lado espanhol, numa época em que, pragmaticamente, Portugal já não via nas possessões do norte de África um interesse tão grande, tendo algumas dessas cidades sido abandonadas.
O canto do cisne desse ideário de cruzada é a importante, e infeliz, Batalha de Alcácer-Quibir. Nessa refrega, sobre a qual muitos investigadores já se pronunciaram, mostrando as fragilidades da preparação, começando pela data, o dia 4 de agosto, o jovem monarca D. Sebastião desapareceu, tendo o seu corpo sido achado dias depois e sepultado em Ceuta. Entregue pelo sultão Mulei Ahmed, os restos mortais do rei português foram depositados na Catedral da Santíssima Trindade dessa que era a mais antiga praça-forte portuguesa em África, no dia 10 de dezembro de 1578. Quatro anos depois, já sob a dinastia Filipina, em 1582, o corpo seria trasladado para Portugal, estando desde essa data no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.
Todo o processo em torno da descoberta do corpo, exponenciado pelo sentimento de perda, transformou o jovem monarca num dos símbolos mais fortes de Portugal, central na ideia messiânica que nunca mais abandonaria a cultura nacional. Abandonar-se-iam as fortalezas no norte de África, dando termo a um ideário de guerra que já estava fora de época, mas a morte desse jovem rei seria cada vez mais forte no sentimento de irrealização, de possibilidade gorada, desejo de ter sido diferente.
Para sempre Ceuta ficou com um lugar no imaginário nacional, destino turístico ou de negócios, tal como para a cidade, o antigo senhor se manteve presente nos símbolos heráldicos.

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