O georgiano Mikhail Kalatozov chegou a Havana para erguer um hino ao socialismo e acabou por filmar uma alucinação a preto e branco, intitulada Soy Cuba ou Ja Kuba, que o próprio comunismo não soube reconhecer. Sessenta e dois anos depois, o mamute siberiano desembarca finalmente no circuito comercial português, em pleno mês de agosto (esta quinta-feira), no Cinema Ideal, num mini-ciclo de filmes restaurados que inclui A Saga de Anatahan, de Josef von Sternberg, e A Piscina, de Jacques Deray.
Em 1964, Cuba e a União Soviética encomendaram um monumento à revolução. Receberam um filme tão excessivo, sensual e formalmente delirante que preferiram escondê-lo. Soy Cuba desapareceu quase sem deixar rasto e regressou três décadas mais tarde para deixar Martin Scorsese e Francis Ford Coppola boquiabertos e ensinar Hollywood, que julgava saber tudo, a movimentar uma câmara.
A 13 de agosto, o Cinema Ideal estreia comercialmente em Portugal esta coprodução da Mosfilm e do ICAIC, realizada pelo georgiano Mikhail Kalatozov (1903-1973). A Cinemateca Portuguesa já a mostrara em 2009, mas esta é a sua entrada no circuito comercial, com 62 anos de atraso e imagens capazes de envergonhar metade das novidades em cartaz.
Kalatozov não era apenas um funcionário do regime – vencera a Palma de Ouro em Cannes com Quando Passam as Cegonhas, em 1958, e, ao lado do diretor de fotografia Sergei Urusevsky, libertara o cinema soviético da câmara aparafusada ao chão. A encomenda pedia Fidel Castro em mármore. Ele entregou uma ópera tropical de gruas, cabos, película infravermelha, suor, açúcar e mortos que parecem cair diretamente para dentro da História.

A câmara que queria ser ave
O filme organiza-se em quatro histórias: Maria, jovem pobre que adopta o nome Betty num cabaré; Pedro, camponês que perde a terra; Enrique, estudante que combate a ditadura de Fulgencio Batista; e Mariano, homem comum que se junta à guerrilha. O arco é transparente como um cartaz: da exploração à consciência e da revolta à revolução. O capital bebe à beira da piscina; o povo sofre e marcha para a serra. Um comício comunista acharia obviamente o filme excessivamente bonito. E é.
É precisamente aí que Soy Cuba deixa de obedecer aos patrões. A propaganda manda-nos olhar para a mensagem; Kalatozov e Urusevsky obrigam-nos a olhar para o cinema. A câmara sobrevoa palmeiras, entra numa festa num terraço, atravessa corpos, desce pela fachada e mergulha numa piscina como se o operador tivesse guelras. Mais tarde, acompanha o funeral de um estudante, atravessa uma fábrica de charutos, sai pela janela e flutua sobre a multidão. Em 1964, estes homens fizeram a câmara voar com engenho — e sem drones —, cabos, força física e uma dose apreciável de loucura soviética.
O preto e branco de Urusevsky não arrefece os trópicos, antes incendeia-os. A vegetação torna-se quase branca, como se Cuba fosse um negativo da História. O filme não regista Havana. Possui-a. Pode acusar-se Soy Cuba de simplismo, excesso, kitsch e grandiloquência. Convém apenas não o acusar de prudência. É um filme que prefere cair de uma varanda a descer pelas escadas. Quando acerta, inventa imagens ainda hoje impossíveis; quando falha, falha com tal convicção que quase transforma o erro num estilo.
Uma revolução sem estrelas
O filme não foi construído para vender vedetas, mas para fabricar um povo cinematográfico. Sergio Corrieri, Luz María Collazo, José Gallardo e Raúl García tornam-se rostos de uma narrativa coletiva; Raquel Revuelta dá voz à própria Cuba. O paradoxo é delicioso. A obra destinada a glorificar a união entre Cuba e a União Soviética desagradou aos dois lados. Para muitos cubanos, a ilha era demasiado russa; para os soviéticos, demasiado tropical, sensual e formalista. Chamaram-lhe, com malícia, No Soy Cuba. A revolução encomendara um espelho e recebeu um espelho convexo. Como acontece frequentemente com os regimes autocráticos, não gostou da imagem e culpou o vidro.
Empurrado para o esquecimento, o filme reapareceu nos EUA no início dos anos 90. A distribuidora Milestone recuperou-o e Scorsese e Coppola associaram-se à sua apresentação. Dois homens que tinham reinventado o cinema americano olhavam boquiabertos para uma obra soviética rodada trinta anos antes. O fóssil mexia-se. Pior: corria mais depressa do que os vivos.
A ironia histórica é perfeita. Um filme concebido contra o imperialismo norte-americano precisou de dois padrinhos de Hollywood para regressar ao mundo. O capitalismo distribuiu o grande poema comunista que o comunismo escondera. Vitória do cinema: uma imagem pode trair a encomenda e sobreviver ao Estado que a financiou.
Obra-prima ou catálogo de proezas formais agarrado a uma dramaturgia rudimentar? As duas coisas. A voz poética torna-se pomposa e a marcha final aproxima-se da mensagem revolucionária, mas reduzir o filme a propaganda seria tão limitativo como desculpar-lhe tudo porque a câmara sobe paredes. A mensagem envelheceu; a forma continua em curso.
Três paraísos com a morte escondida
Soy Cuba ocupa o centro de um mini-ciclo que o Cinema Ideal inicia este dia 6 com A Saga de Anatahan, prossegue a 13 e encerra a 20 com A Piscina. Junta-se uma ilha no Pacífico, a Cuba revolucionária e uma villa perto de Saint-Tropez porque Agosto exige calor, água e corpos. Mas os três filmes começam em lugares próprios para um folheto turístico e revelam prisões morais. O paraíso é apenas o inferno com melhor iluminação.
Em A Saga de Anatahan, derradeiro filme de Josef von Sternberg (1894-1969), marinheiros e soldados japoneses permanecem isolados numa ilha, incapazes de aceitar que a Segunda Guerra Mundial terminou. Keiko, interpretada por Akemi Negishi, é a única mulher entre homens que transformam disciplina, desejo e medo numa sociedade em miniatura. Com Tadashi Suganuma, Kisaburō Sawamura e Shōji Nakayama, torna-se território, poder e pretexto para inventarem outra guerra quando a verdadeira já acabou.
A Piscina de Jacques Deray (1929-2003) troca a selva pela Riviera Francesa e a guerra militar pela guerra dos corpos. Alain Delon e Romy Schneider são Jean-Paul e Marianne; Maurice Ronet chega como antigo amante dela, acompanhado pela filha, interpretada por Jane Birkin. Aqui, o elenco é a matéria inflamável. Delon e Schneider levam para o ecrã a memória da relação real e transformam cada olhar numa recaída, cada silêncio numa acusação. Ronet acrescenta o sorriso do rival e Birkin perturba tudo com inocência, desejo e cálculo. A piscina é azul, o sol impecável e toda a gente parece saída de uma campanha de perfume. Naturalmente, alguém acabará morto.
Vista em conjunto, a programação propõe três maneiras de perder a inocência: pela guerra em Anatahan, pela revolução em Cuba e pelo desejo em Saint-Tropez. Atores japoneses convertidos em arquétipos de clausura, rostos cubanos transformados em comunidade e estrelas europeias usadas como armas eróticas. Três obras onde a beleza não consola: denuncia, seduz e prepara o crime.
Num mês em que os cinemas respondem ao calor com ar condicionado e produtos refrigerados, o Cinema Ideal abre as portas a três filmes que ainda queimam. Soy Cuba é o mais monumental e contraditório. Queria ser a voz de um país. Acabou por ser a voz de uma câmara. E essa, ao contrário de muitas revoluções, ainda não se calou.