Há um exercício simples que pode fazer hoje. Quando estiver a deslizar o feed das redes sociais, não olhe apenas para a fotografia. Ouça o primeiro pensamento que lhe surge. “Parece mais velha.” “Está diferente.” “Que bom ar.” “Descuidou-se.”
Esse pensamento aparece tão depressa que quase passa despercebido; seguimos para a fotografia seguinte sem lhe dar importância. Mas aqui vale a pena parar um instante. Porque o primeiro olhar raramente é apenas sobre a outra pessoa. É muito mais sobre nós.
Ao longo da vida construímos uma espécie de régua invisível. Aprendemos, muitas vezes sem nos apercebermos, o que merece aprovação, o que é considerado bonito, bem-sucedido, aceitável ou desejável. Depois passamos a medir-nos por esses critérios.
É com essa régua que nos medimos ao espelho e, sem darmos conta, começamos também a usá-la para medir os outros.
Quem cresceu a acreditar que não podia falhar, tende a reparar primeiro no erro. Quem vive preocupado em corresponder às expectativas, reconhece depressa quem parece não corresponder. Esse olhar não nasce connosco, vai sendo apreendido e acaba por tornar-se automático.
As redes sociais e as aplicações de encontros não inventaram este fenómeno. Aceleraram-no e deram-lhe palco. Hoje, basta uma fotografia para surgirem dezenas opiniões sobre alguém que nunca conhecemos e são apresentadas como factos quando, na verdade, revelam a régua invisível com que avaliamos os outros e a nós próprios.
É um mecanismo profundamente humano este. O cérebro categoriza o que vê, identifica padrões e tira conclusões rápidas para lidar com a enorme quantidade de informação que recebe todos os dias. O problema começa quando essa primeira impressão passa a ser tratada como verdade.
É aqui que entra a metacognição: a capacidade de observarmos os nossos próprios pensamentos antes de os aceitarmos como factos. Esse pequeno intervalo pode ser suficiente para percebermos que nenhuma fotografia mostra uma vida inteira e que um comentário revela mais sobre quem o faz do que sobre quem o recebe.
Da próxima vez que estivermos prestes a avaliar alguém, talvez valha a pena parar por um instante e perguntar: “Porque é que foi precisamente isto que me chamou a atenção?”
A resposta pode dizer muito pouco sobre essa pessoa e muito sobre cada um de nós.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.