Possible Love (Ga-neung-han Sa-rang), de Lee Chang-dong, é cinema sem sublinhados. Uma pequena obra-prima construída a partir de coisas aparentemente pequenas, dessas que se tornam enormes quando alguém sabe realmente olhar para elas.
Mi-ok, extraordinária Jeon Do-yeon, é uma mulher prática, determinada e inquieta, casada com Ho-seok (Sul Kyung-gu), antigo trabalhador que perdeu o emprego depois de descobrir um brutal plano de reestruturação e que nunca recuperou verdadeiramente nem do despedimento nem da repressão violenta das greves. Ela tenta continuar. Quando Ye-ji (Cho Yeo-jeong), documentarista, decide fazer um filme sobre os trabalhadores despedidos, entra na vida do casal acompanhada pelo marido, Sang-woo (Zo In-sung), rico, elegante e suficientemente indecifrável para trabalhar quase tanto com os silêncios como com as palavras. Lee Chang-dong começa então a fazer aquilo que melhor sabe: aparentemente quase nada.
O desemprego mata devagar
A relação entre Possible Love e Sem Alternativa, de Park Chan-wook, existe: ambos partem de uma Coreia marcada pelas reestruturações empresariais e pelos despedimentos em massa. Mas Lee segue outro caminho. Interessa-lhe aquilo que fica depois: a perda de identidade, da dignidade, do lugar no mundo. Ho-seok perdeu o emprego, mas perdeu sobretudo o lugar onde alguém sabia quem ele era.
Foi precisamente de despedimentos em massa e da repressão violenta de uma greve que nasceu o projeto. Lee chegou a abandoná-lo durante anos, questionando o direito de transformar em ficção aquele sofrimento. A dúvida acabou por entrar no próprio filme através de Ye-ji, cineasta que pretende contar a história dos outros. Até que ponto uma câmara testemunha e quando começa a apropriar-se? Onde acaba a empatia e começa o vampirismo cultural disfarçado de consciência social? Lee não responde. Coloca a pergunta no sítio certo.
Mas Possible Love não fica por aí. Começa por parecer um filme sobre dois casamentos mais ou menos estruturados. Depois percebemos que é também sobre duas classes sociais. Mais tarde torna-se um filme sobre desejo e, perto do fim, sobre a dificuldade de continuarmos humanos num mundo em que o capital resolveu colocar até a felicidade numa folha de cálculo.
Estamos habituados aos amores impossíveis porque dão melhor melodrama. Lee pergunta precisamente o contrário: que amor ainda é possível? O conjugal, o amor pelos filhos, por alguém que deixou de ser a pessoa que conhecíamos, por uma vida diferente. Talvez até o amor entendido como o direito de desejar liberdade quando trabalho, dinheiro, classe e família determinam quase tudo.
Mi-ok é o coração dessa ideia. Jeon Do-yeon dá-lhe uma energia permanentemente à beira da explosão. Sorri, avança, improvisa soluções, cuida do marido e tenta acreditar que amanhã será melhor. Não interpreta a emoção: deixa-a acontecer. Sul Kyung-gu responde-lhe com uma representação quase toda interior, carregando culpa, vergonha e ressentimento. Ho-seok parece um homem fisicamente presente numa vida da qual já foi despedido.
Na Coreia come-se, canta-se e as crianças percebem tudo primeiro
A Coreia atravessa o filme até nas coisas aparentemente banais. Nos filmes coreanos come-se muito e grande parte da vida acontece à mesa: discute-se, mente-se, reconcilia-se e apaixona-se enquanto se come. O karaoke também regressa, esse espaço onde aquilo que não se consegue dizer pode finalmente ser cantado. No cinema de Lee nunca é apenas cenário: é o lugar onde as personagens conseguem fazer alguma coisa com sentimentos que passaram o resto do tempo a esconder. E as crianças percebem quase sempre tudo antes dos adultos. Aqui também. Enquanto os mais velhos discutem desemprego, dinheiro, desejo, casamento e liberdade, a criança observa. Não é decoração narrativa. O filho do casal de sobreviventes é uma das chaves da história.
Também por isso a presença de Kieślowski se sente sem nunca transformar o filme numa citação. Durante algum tempo especulou-se que Possible Love seria uma nova versão de Dekalog: Nine, de Krzysztof Kieślowski. Não é. Lee reconhece apenas um diálogo temático. A influência do cineasta polaco sente-se sobretudo na forma de olhar: moral sem moralismo, gestos banais transformados em precipícios emocionais e a recusa em explicar aquilo que podemos descobrir sozinhos.
Lee conduz-nos lentamente numa direção e, quando pensamos saber onde estamos, muda um olhar, prolonga um silêncio ou deixa acontecer aquilo que julgávamos improvável. A natureza acompanha esse movimento — árvores, água, vento, praia, luz — enquanto o mundo continua tranquilamente a existir e aquelas quatro pessoas sentem que o seu pode desmoronar-se. É cinema feito de tempo. E exige tempo.
Netflix e o cinema de autor
Outro pormenor nada secundário: Possible Love é Netflix. Lee afirmou ter recebido um grau quase total de liberdade criativa e disse nunca se ter sentido tão confortável numa produção. Convém guardar a declaração para a próxima reunião em que alguém decidir que os espectadores só suportam filmes de 87 minutos, explicados de sete em sete, para não olharem para o telemóvel. Possible Love tem 164 minutos. E precisava realmente deles. A Netflix faz aqui uma aposta séria no cinema de autor e, evidentemente, na temporada de prémios. A Coreia do Sul já escolheu o filme para a corrida ao Oscar de Melhor Filme Internacional. E o Leão também começou a rondar.
Chegados praticamente a meio da 83.ª Mostra de Veneza, começa a inevitável modalidade paralela do festival: fazer prognósticos quando ainda faltam muitos filmes por ver. Pois bem: Possible Love está seriamente na corrida ao Leão de Ouro. Não porque seja um filme “importante”, mas porque soa a verdadeiro. Lee Chang-dong filma pessoas contraditórias, frágeis, egoístas, generosas, cruéis e belas. Não oferece vilões convenientes nem vítimas puras. Existe uma sociedade que esmaga e quatro personagens a perguntarem-se se a vida que têm foi aquela que escolheram ou apenas aquela que conseguiram. Possible Love começa no desemprego e chega ao desejo. Parte da desigualdade e desemboca na intimidade. Apresenta dois casamentos e termina a perguntar o que entendemos, afinal, por liberdade e felicidade. Sem longos discursos ou diálogos. Sem música a mandar-nos chorar. Apenas pessoas, corpos, silêncios, comida sobre a mesa, uma canção num karaoke, uma criança que percebe mais do que parece e a possibilidade — difícil, mas ainda possível — de continuar a amar quando quase tudo o resto falhou. Se Possible Love ganhar o Leão de Ouro, ninguém ficará surpreendido. Se não ganhar, vai ser preciso um filme extraordinário para lhe passar à frente.