Há 50 anos, um golpe militar instaurou uma das ditaduras mais brutais da América Latina. Com o apoio tácito dos EUA, à semelhança do que tinha acontecido três anos antes no Chile, um grupo de oficiais derrubou o governo eleito democraticamente, sob o pretexto de pôr fim a uma era de instabilidade política na Argentina. Meio século depois, já poucos se recordam das peripécias que ocorreram naquele país da América do Sul durante a Presidência que Isabel Perón − eleita vice-presidente pelo voto popular − assumiu após a morte do marido. Mas durante todos os anos seguintes foi difícil esquecer as atrocidades cometidas pela ditadura militar que controlou a Argentina, de forma brutal, até 1983 – quando teve de se “retirar” na sequência da derrota na Guerra das Malvinas/Falklands, frente ao Reino Unido.
Durante anos, foi lembrada a resistência das mães que, todas as quintas-feiras, se concentravam na Praça de Maio, em Buenos Aires, a reclamar pelo paradeiro dos seus filhos desaparecidos. Ao fim de várias investigações e inquéritos, com muitos sobressaltos pelo meio, foi possível chegar ao consenso de que a “guerra suja” da ditadura argentina provocou cerca de dois mil mortos e, oficialmente, 8 690 desaparecidos – embora diversas organizações de direitos humanos calculem que o número verdadeiro de desaparecidos chegue aos 30 000. Sabe-se também que milhares desses desaparecidos foram atirados para o mar, ainda vivos, de aviões, nos chamados “voos da morte”. Também ficou fundamentada a morte e o sequestro de bebés, das famílias vítimas da repressão, com alguns a serem adotados pelos militares.
Logo em 1985, com a restauração da democracia, iniciou-se o julgamento dos diversos integrantes das juntas militares, levando à condenação de muitos deles, num processo que foi considerado exemplar pela comunidade internacional – o ditador Jorge Videla seria mesmo condenado a prisão perpétua, morrendo na sua cela em 2013, depois de reconhecer muitos dos seus crimes, mas sem demonstrar qualquer arrependimento.
Desde que Javier Milei chegou ao poder, em 2023, essa narrativa oficial, até então consensual, começou a alterar-se. Nas suas intervenções públicas duvidou abertamente do número de desaparecidos e, aos poucos, começou a tentar impor a versão de que todos os assassínios e raptos tinham uma justificação: a “guerra” contra a guerrilha esquerdista. Ao mesmo tempo, retirou importância à Secretaria de Estado de Direitos Humanos, cortou apoios aos grupos da sociedade civil que se dedicavam à preservação da memória daqueles tempos e tornou inoperacional a comissão que ainda procurava localizar as crianças raptadas durante a ditadura.
Em Portugal, felizmente, ainda não atingimos este nível de reescrita da História. Mas vemos acumularem-se, todos os dias, diversos sinais no mesmo sentido e várias tentativas para procurar impor uma nova narrativa em relação ao 25 de Abril e a tudo o que esse dia significou para o País.
Num tempo de indignações à pressão, em que podem soltar-se números sem contraditório ou fazer afirmações sem o mínimo de sustentabilidade histórica, a tática é a de sempre: procurar desfazer o grito unido de “liberdade” que em 1974 ecoou por todo o País – fazendo, por isso, cair uma ditadura esclerosa – e impor uma narrativa de confronto, destinada a criar confusão e a aumentar a divisão.
Nestes tempos em que tantos procuram reescrever a História, é cada vez mais importante conservar os mecanismos que nos permitem manter a memória preservada. É para isso que são fundamentais os museus, as bibliotecas, mas também tudo o que seja arquivo físico, com os documentos e testemunhos que marcaram cada época. Tudo aquilo que, no fundo, possa servir de prova para desmentir aqueles que tentam impor uma narrativa “alternativa”, destruir consensos estabelecidos e, na verdade, atacar a liberdade e a democracia.
É por isso que a batalha pela preservação da memória do 25 de Abril não é um sintoma de saudosismo, mas sim um plano para salvaguardar o futuro. Mais urgente do que nunca. Em nome da democracia, mas também da verdade histórica.