O mesmo Presidente dos EUA que há menos de dois meses ameaçou “fazer recuar o Irão até à Idade da Pedra” e “destruir uma civilização numa noite” apresentou-se na semana passada em Pequim como um estadista contido e até modesto. Durante as 43 horas em que esteve na capital chinesa, Donald Trump evocou Confúcio, manifestou “grande respeito pela China” e disse que o anfitrião, Xi Jinping, é “um grande líder”. Este equiparou o movimento MAGA (Make America Great Again) ao processo de “rejuvenescimento nacional” em curso na China e no banquete que ofereceu à delegação americana, no Grande Palácio do Povo, uma banda militar tocou uma das músicas que animavam os comícios eleitorais de Trump. Cúmulo da cortesia, Xi acompanhou o homólogo americano na visita ao Templo do Céu, um dos mais famosos monumentos de Pequim, e mostrou-lhe os jardins de Zhongnanhai, o antigo parque imperial onde vivem e trabalham os líderes chineses. Trump quis saber se os outros líderes que visitavam a China também eram convidados a conhecer aquele local. “Muito poucos”, respondeu Xi. Aparentemente tocado pela distinção, Trump observou que as rosas ali plantadas eram as maiores que alguma vez viu. Xi prontificou-se a enviar algumas sementes para Washington.
Numa conjuntura mediática focada na rivalidade entre as duas maiores economias do planeta, o que se viu e ouviu na cimeira de Pequim foi surpreendente. A superpotência em ascensão e a superpotência estabelecida não estarão, afinal, condenadas a entrar em guerra pela hegemonia mundial, e apostam agora numa “construtiva relação de estabilidade estrangeira”. Foi “uma das coisas que os chineses enfatizaram” e com a qual os EUA “concordam”, disse Marco Rubio, acerca do “novo paradigma nas relações entre grandes potências” sugerido por Xi Jinping.
Os relatos oficiais sobre as conversações são bastante diferentes. O governo chinês realçou os temas políticos, e em particular a “questão de Taiwan”, que Pequim considera “a mais importante”. “Se for gerida de forma adequada, a relação bilateral gozará de estabilidade geral. Caso contrário, os dois países enfrentarão atritos e até mesmo conflitos, colocando toda a relação em grande risco. Independência de Taiwan e paz entre os dois lados do estreito são tão incompatíveis como o fogo e a água”, advertiu Xi Jinping. A Casa Branca destacou que “as duas partes debateram formas de reforçar a cooperação económica, incluindo a ampliação do acesso das empresas americanas ao mercado chinês e o aumento do investimento chinês nas indústrias dos EUA”.
As primeiras informações acerca de negócios acordados durante a cimeira, nomeadamente no campo da aviação civil e da agricultura, partiram também de fontes americanas. O ministério chinês do Comércio confirmou, um dia depois, que os dois países “chegaram a acordo” sobre a compra de aviões, mas não precisou se seriam os “200 Boeing” referidos por Trump.
Em 2023, quando perguntaram a Joe Biden se considerava Xi Jinping um “ditador”, o antecessor de Trump não teve dúvidas: “É um ditador no sentido em que é um tipo que dirige um país comunista.” Confrontado agora com a mesma pergunta, Trump respondeu: “Não penso nisso. Respeito-o. Ele é muito inteligente. Ama o seu país.” Sobre Taiwan, a ilha onde se refugiou o antigo governo chinês depois de os comunistas terem ganhado a guerra civil no continente, em 1949, a sua postura também difere da “ambiguidade estratégica” cultivada em Washington.
Pequim defende a “reunificação pacífica”, mas ameaça “usar a força” se a ilha declarar a independência. Sem afirmar explicitamente que se opõe à independência de Taiwan, Trump disse que não estava à procura de guerras, muito menos a mais de 10 000 quilómetros do seu país. Não mencionou a agenda separatista do atual Presidente de Taiwan, mas alertou: “Não estamos a procurar alguém que diga ‘Vamos tornar-nos independentes, porque os EUA nos apoiam.’” O jornal Global Times, um tabloide neonacionalista do grupo Diário do Povo, o órgão central do PC chinês, viu logo o alcance daquela frase: “Trump avisa Taiwan de que não espere um cheque em branco dos militares dos EUA.” A presidente do principal partido da oposição de Taiwan, Cheng Li-wun, também deu uma ajuda, divulgando uma entrevista em que acusava as “forças pró-independência” da ilha de serem “o fator mais perigoso”.
No aeroporto, ao despedir-se de Trump, o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, resumiu assim a perceção chinesa: “A parte americana compreende a posição da China, valoriza as preocupações da China e, como a comunidade internacional, não reconhece nem aceita a independência de Taiwan.”
Trump e Xi voltarão a encontrar-se em setembro, desta vez em Washington. Ver-se-á então se a nova “relação construtiva de estabilidade estratégica” vingou e se as rosas de Zhongnanhai conseguiram ou não florescer nos jardins da Casa Branca.
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