Na primeira pessoa: “Eu tenho uma doença, tenho dores 24 horas por dia. Várias vezes preferi morrer a ter de viver assim”

Foto: Lucília Monteiro

Na primeira pessoa: “Eu tenho uma doença, tenho dores 24 horas por dia. Várias vezes preferi morrer a ter de viver assim”

Nós somos feitos de afetos e de emoções ou da falta deles. Nada nos põe mais à prova do que uma doença. Há outros eventos traumáticos dificílimos de superar, mas que o tempo vai afastando, vai diluindo nas nossas vivências. Já uma doença que não se cura é algo que não sai, não se afasta, não se dilui no tempo e, assim, o que se acumula são tristezas, amarguras e sofrimento.

Eu tenho uma doença. Tenho dor crónica. A causa não é certa, porque a medicina nem sempre nos dá certezas absolutas, mas tudo indica que foi uma bactéria que se chama Borrelia e que nos infecta numa picada de carraça. As minhas dores são nos pés e agravam-se quando estou sentado ou de pé.

Consigo fazer alguns desportos que não impliquem posturas que agravem as minhas dores, mas o resto do dia passo-o deitado na cama. Para mim, é estranho vivê-lo e, para quem está à minha volta, é estranho compreender. E isso mata-me. Já volto a este ponto.

A paixão pelo exercício da medicina e a vontade de acreditar num mundo melhor levaram-me a dez das piores guerras dos nossos dias: Síria, Congo, Iémen, Sudão do Sul, Afeganistão, Iraque, entre outras. Vi de tudo. Sofri com tudo. Estiquei a absorção de tristeza, miséria e morte a limites que a maioria pensa não existir, e sobrevivi emocionalmente. Fez mossa, mas sobrevivi. Achava-me forte, vivido e, até certo ponto, invencível. Como estava enganado. A minha doença matou-me, e é uma doença que não mata. Matou-me nos afetos e nas emoções, aquilo de que somos feitos. Não em desespero, não em raiva, não em fúria… Várias vezes preferi morrer a ter de viver assim.

Com dores 24 horas por dia, sem conseguir trabalhar, com muito pouca vida social e uma nuvem negra de tristeza desde o acordar ao deitar. Não faço o exercício, certamente injusto, de comparar sofrimento. Mas uma doença invisível, mal entendida, que nos sabota a vontade de viver a cada dia e que não tem fim anunciado é absolutamente destrutiva.

A doença afasta as pessoas. A tristeza não é atrativa. O sofrimento torna-nos um produto tóxico que ninguém quer ter nas suas mãos. Entramos numa bola de neve, em crescendo de emoções negativas, que parece só poder acabar no abismo. E para esse abismo levamos quem mais queremos neste mundo

“Vai tudo correr bem”, “Acredita que Deus trata de tudo”, “Tens de tentar medicinas alternativas” são frases-tipo que fazem de mim um potencial assassino em série, porque se baseiam na tentativa de simplificar o que é altamente complexo, e é imensamente nocivo para quem está a sofrer.

A doença afasta as pessoas. A tristeza não é atrativa. O sofrimento torna-nos um produto tóxico que ninguém quer ter nas suas mãos. Entramos numa bola de neve, em crescendo de emoções negativas, que parece só poder acabar no abismo. E para esse abismo levamos quem mais queremos neste mundo, porque sofrem, sem saber mais o que fazer, ao ver-nos sofrer. Já há muito que pedi ajuda, claro. E muita ajuda me têm dado.

Sou humilde e ouço com atenção quem pode e me quer ajudar. Se, por um lado, vivo com incontáveis desilusões de quem nada tentou fazer por mim quando me apetecia morrer, por outro, conheci pessoas lindas e maravilhosas, que me foram buscar ao fundo do mar, me trouxeram à tona e me juraram que estariam sempre ali ao lado, para me salvar. A esses devo o mundo e a vida. Devo a vida e a vontade de viver. Porque me constroem com afetos e emoções… aquilo de que somos feitos.

Eu não tento ensinar ninguém a viver, mas se as minhas palavras forem úteis, ficarei contente. É por isso que escrevo. Nada mais.

“Há tantos em quem podemos tocar!”

Afetos e emoções. A quem é que eu quero dar? Em boa verdade, a toda a gente, mas isso não consigo. Posso ir tentando. A minha mãe ensinou-me quase tudo o que sei na vida, mesmo sem querer, mas há algo especial em que ela tem um doutoramento honoris causa dado por todas as universidades do mundo: a magia das relações humanas. A arte de fazer sorrir um desconhecido. A nobreza de dar sem querer nada em troca. E eu, humildemente, aprendo ao estar ao lado do ar que ela respira.

A nossa visão de mundo depende muito do mundo, mas depende muito mais da nossa visão. Da nossa perspetiva. Da forma como afinamos a nossa lente. Eu desfoquei-me por completo com a minha doença, com as minhas dores, com o que a vida me tirou de sonhos e expectativas. E, agora, estou a tentar voltar a focar, porque pouco ou nada posso mudar o mundo, assim como pouco posso mudar na minha doença, mas posso trabalhar na minha lente.

Cada um deve ter o seu foco, a sua visão, o seu sentido de vida – que é mutável, mas este depende, apenas e só, de nós. O meu foco vem dos meus afetos e das minhas emoções, vem de um mundo que vi e senti e a que gostaria de acrescentar alegrias.

Sou ateu, mas acredito numa coisa que não sei se existe ou se fui eu que inventei: a taxa de felicidade global. Somos oito mil milhões. Há tantos em quem podemos tocar! E não sei bem como, mas sei que, apesar da minha doença, posso contribuir para que esta taxa aumente, começando por mim, cuja felicidade, em boa medida, vem da felicidade que posso acrescentar aos outros.

Não me tira as dores, mas faz-me muito bem à saúde tentar, seja de que forma for, tocar na vida de alguém, dar-lhe um sorriso, aquecer-lhe o coração, pôr-lhe os olhos a brilhar e, quem sabe, ir buscá-lo ao fundo do mar, como alguns me fizeram a mim.

A minha doença tirou-me muito, tirou-me quase tudo. Mas não me tirou os afetos e as emoções. Em boa medida, mexeu com eles. Misturou-os, baralhou-os e, agora, estão a ser reorganizados, de forma que a lente com que eu vejo o mundo seja bonita, assim como as emoções que eu quero que habitem dentro de mim.

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