Caetano Veloso tem alguma coisa que o impele para ser de todos os tempos. Muitos artistas dizem respeito a um certo instante de esplendor, sem vigência para depois senão por referência ao passado, inscrição histórica ou nostalgia. Já Caetano é outra coisa. Não há idade para ele, há apenas tempo, tradução de maturidade e conhecimento. Suas são todas as gerações. É um menino com quase 80 anos de experiência.
Meu escudo de super-herói contra pandemias é a arte. Estou em casa intensificando a presença dos artistas que são uma multidão contra qualquer solidão. Entre as presenças mais constantes, amigo que verdadeiramente circula em meu redor à força de um fascínio tão antigo, está Caetano, que agora ouço obstinadamente acompanhado por esse Ivan Sacerdote. Que elegância pode acontecer no som, que modo de educar o que se levanta sobre o silêncio. Que mágica coisa que nos atribui humanidade e parece tanto transcendente, tolerância dos deuses para connosco, uma generosidade do divino no mundo torpe dos mortais.
A obra de Caetano Veloso regressa numa intimidade ainda maior, já não basta que seja nossa própria identidade, ela vira meditação sobre si mesma, o que nos ensina a meditação também, a auscultação do que significamos, o que fazemos do tempo, o que sabemos do tempo.
Depois de tantas estatísticas, tanto susto e tristeza, começo a chegar a um confinamento apaziguado com a solidão. Talvez esqueça um pouco a rua e me sinta cada vez melhor com isto de estar comigo, exatamente pela força da arte, dos artistas, esta vastidão de emoções que nos propõem as obras, e a arte pode ser uma ficção mas a emoção jamais. Tenho escrito que a solidão é um espelho. Levanta diante de nós aquilo que somos porque não nos podemos evitar. Os dias estão entregues à equação da nossa própria vida, e para os vencermos ajuda muito que nos sintamos justificados no cômputo geral das nossas conquistas e das nossas perdas.
Estou para lá de tudo quanto imaginei poder ter. Cresci tão à distância de qualquer glória que não me passaria pela cabeça ter, ou ser, o de hoje. Assim, encaro como uma dádiva a possibilidade de ainda estar aqui, ainda pensar sobre ciências e emoções, poder ainda mudar minhas convicções e, sobretudo, prestar homenagem ao que, já antes ou desde agora, merece minha paixão. Estou convicto de que a vida conta sua glória pela quantidade de paixões. Quem não ferve desse misto de desejo e angústia, desse misto de querença e perigo, não se experimentou, não se conheceu.
Podemos consumir o tempo todo em paixões nas condições mais carcereiras. A pessoa fechada não está impedida de tamanho algum de amar. Ou deixariam de amar os que são detidos, os que partem, os que demoram. Gostar pede a proximidade, mas eu nunca deixaria de gostar por distância alguma. Deve ser por habituar meu modo de felicidade à aceitação e à coisa espiritual que é a arte.
Passo os dias desta pandemia a ouvir Caetano Veloso e a pensar como ele se tornou uma negociação entre mim e qualquer dificuldade. Primeiro plano para lidar com o desafio, sua voz abrindo na casa, como se pássaro subitamente cantasse pelo interior, mas sem perder voo nem o céu inteiro. Sei muito mal explicar porque me salva que cante. As paixões são outra razão, para a qual ainda não foram inventadas palavras. Mas é verdade que o disco com Ivan Sacerdote parece brotar de pérola na concha em que a casa se tornou. Na casa agora fechada, as paredes brancas, a voz de Caetano maturou preciosa, pérola, perfeita. Nem estou sozinho nem estou injustificado. Glorifico, privilegiado, a vida. Mais me levantam minhas paixões. Estão vivos os discos, os livros, os quadros que pendurei nas paredes e me acompanham profundamente.
Na depuração deste novo disco, Caetano está reconduzido ao essencial, o que no seu caso é verdadeiramente uso do mais irrepetível: sua própria voz. No magnífico acompanhamento de Ivan acontece a voz sublinhada, exposta numa nudez luminosa. Não é estranho, o traço de génio tem a propriedade do diamante, ele é inequívoco na sua mais ínfima parte, ele não se perde em tamanho algum, não se perde na solidão. É o que Caetano representa. Nada vai deixá-lo sem sentido. O mais absoluto sentido já vem com ele, é de sua natureza: sua voz e sua palavra.
Ficar em casa, sem mais sobressalto, é um modo de amar. Alguém para corresponder ao nosso amor chega de muita maneira. Maneira mais poderosa contra pandemia é a de colocar um disco a tocar. Eu, lúcido, sinto que ouço amado também.
Cárcere com Caetano Veloso
Caetano Veloso e Gilberto Gil. no Cool Jazz.
FOTO PAULO PETRONILHO
Primeiro plano para lidar com o desafio, sua voz abrindo na casa, como se pássaro subitamente cantasse pelo interior, mas sem perder voo nem o céu inteiro