Os estereótipos e os papéis sociais estão em causa na peça
Uma Mulher sem Importância, de Oscar Wilde, um clássico da literatura britânica, que sobe agora à cena no Teatro Maria Matos, numa produção da Truta. O feminino em palco num texto que, segundo o encenador Joaquim Horta, é daqueles que dão ao ator um imenso “prazer”. O prazer da palavra, da escrita dos diálogos, eivados de uma profunda “ironia”, com o escritor a criticar a sociedade londrina do seu tempo. “Critica a distinção das classes sociais, como os que têm mais poder não se preocupam com o modo como as suas decisões podem afetar os outros”, salienta o encenador. “Também aponta a divisão do mundo entre homens e mulheres e é isso que tentamos explorar no espetáculo”. Isto porque “houve uma enorme evolução ao longo dos tempos, muitas coisas não são como eram na época de Wilde, mas apesar de se passarem de maneira diferente hoje, essas divisões continuam a existir”.
Daí que na sua encenação Joaquim horta não tenha optado por uma transposição para o mundo contemporâneo. Nem carece, de tal forma a temática permanece “atual”. “Uma Mulher sem Importância passa-se em Inglaterra, numa casa de campo, e no cenário e no guarda-roupa, procurámos sobretudo que não fossem datados, porque a peça tanto podia acontecer no séc. XIX como nos dias de hoje”, explica. O que acentuou foi justamente a “intemporalidade”, mostrando como as questões da divisão, da discriminação de género são culturais.
Também pesou na escolha da peça a intenção de juntar várias atrizes anteriormente convidadas pela Truta para os seus espetáculos. A interpretação é de Cláudia Gaiolas, Joana Bárcia, José Mata, Lia Gama, Maria João Abreu, Miguel Damião, Miguel Costa, Paula Diogo, Raul Oliveira, Rita Durão e Ruben Tiago. “Gosto de ter grupos de trabalho heterogéneos, com percursos e experiências diferentes em que se misturem muitas maneiras de pensar o teatro”, diz o encenador. “Existe essa diversidade neste elenco e isso foi bom para o espetáculo que estamos a construir”. E recorre à própria peça para sublinhar a importância dessa diversificação de vivências, de não “viver em grupinhos”, como um caminho para uma “sociedade melhor, que aceite as diferenças”. “Às vezes andamos a fazer as coisas cada um para seu lado e só temos a ganhar quando nos reunimos e partilhamos várias visões”.
Uma ideia de “encontro” e de “união” porventura ao arrepio dos tempos que correm, mas que sempre foi orientadora do projeto da Truta, que aposta também em espetáculos diversificados. “Não procuramos afirmar-nos nesta ou naquela estética, neste ou naquele grupo. Queremos trabalhar com pessoas diferentes e crescer a fazer teatro”, diz Horta.
A companhia surgiu há uma dúzia de anos em Lisboa, funcionando com alguma intermitência, com poucos espetáculos por ano. Neste caso com um grande elenco, o que a conjuntura pode não aconselhar, mas esse é o caminho da Truta, “contra a corrente”, e em coletivo, já que não assenta numa figura tutelar, mas numa direção artística dividida por quatro: Joaquim Horta, Tónan Quito, Raul Oliveira e Ruben Tiago, todos da mesma turma no Conservatório e que quando acabaram o curso, decidiram fundar a associação. Um projeto que mantêm juntos, apesar de simultaneamente seguirem outros caminhos teatrais.
Uma Mulher sem Importância, que tem cenografia de Fernando Ribeiro, figurinos de José António Tenente, desenho de luz de Daniel Worm D’Assumpção, está em cena de 10 a 19 de setembro.