“Tenho a certeza de que a maioria dos portugueses concorda com Guterres. O mais triste é o Ocidente falar na defesa das regras internacionais, mas nada fazer para que Israel as cumpra”

“Tenho a certeza de que a maioria dos portugueses concorda com Guterres. O mais triste é o Ocidente falar na defesa das regras internacionais, mas nada fazer para que Israel as cumpra”

O que ganhou Israel com a campanha militar iniciada após os atentados terroristas do Hamas, a 7 de outubro? Como entender a estratégia vingativa do governo Netanyahu contra os palestinianos? Quais a razões para o primeiro-ministro israelita recusar um cessar-fogo e prolongar um conflito que compromete a imagem internacional do Estado criado em 1948? Formado na universidade de Cambridge, Michael Scott-Baumann tem uma longa experiência enquanto docente e investigador e é ainda membro do Projeto Balfour, uma ONG que tem por objetivo reconhecer a responsabilidade do Reino Unido na defesa dos direitos, liberdades e garantias para todos os que, desde há mais de um século, vivem em Jerusalém e na Terra Santa. A sua obra A Mais Breve História de Israel e da Palestina (editora Ideias de Ler) é um precioso instrumento para entender em que medida o terrorismo palestiniano e judaico, nos anos 40, a expansão dos colonatos ou o fracasso dos acordos de Oslo podem ter contribuído para o que se passa atualmente em Gaza.

O seu livro foi escrito originalmente em 2021. Com a guerra iniciada a 7 de outubro e o ambiente de polémica, polarização e propaganda entretanto instalado, atrever-se-ia a publicar uma nova obra sobre Israel e a Palestina?
Depois de ter enviado o livro para traduzir, em Portugal, reescrevi o epílogo, tendo já em conta os acontecimentos dos últimos meses. E aí, obviamente, abordo uma vez mais a necessidade de se chegar a um acordo de paz. Trata-se de uma tentativa de chamar a atenção para a relevância da atual crise.

No final desse epílogo, escreve que existe a crescente perceção de Israel como um Estado não democrático, um “Estado de apartheid”. Quer justificar?
A conclusão não é minha. É o que dizem a B’Tselem [ONG israelita], a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch ‒ convenhamos, três entidades bastante prestigiadas. Permita que, a esse propósito, destaque uma vez mais a situação na Cisjordânia, em que o sistema legislativo e judicial é completamente díspar para israelitas e palestinianos. Em diferentes domínios. Israel tem o controlo absoluto de todos os aquíferos e do abastecimento hídrico. Os residentes nos colonatos têm sempre água ao longo do ano e, mesmo no pino do verão, podem manter as suas piscinas cheias. Em contrapartida, nas cidades e nas aldeias palestinianas existe um forte racionamento, limitado a algumas horas diárias. Sim, em muitos aspetos, o quotidiano na Cisjordânia é um apartheid similar ao que existiu na África do Sul. Os palestinianos estão a ficar gradualmente confinados a centros residenciais ou a ser expulsos do campo por colonos “militantes”.

Uma das suas estratégias no livro foi incluir os testemunhos de dirigentes israelitas e palestinianos, como de muitas figuras anónimas. Com que objetivo?
Eu estava muito interessado na dimensão humana. Queria que esta obra se distinguisse de um livro de História convencional. E dar também voz, em discurso direto, a quem viveu e marcou estes 100 anos.

Esta guerra entre o Hamas e Israel já fez mais de 25 mil mortos e dois milhões de deslocados. Estamos a assistir a uma nova Nakba [catástrofe, em árabe, e forma como as populações árabes da Palestina se referem ao êxodo resultante da criação do Estado de Israel, em 1948]?
Diria que começa a assemelhar-se. Dá medo aos palestinianos. Mesmo que os egípcios lhes abrissem as fronteiras ‒ e não me parece que o governo do Cairo esteja interessado em fazê-lo, por recear uma desestabilização do país pela chegada em larga escala de migrantes ‒ muitos dos habitantes de Gaza estão decididos a ficar no enclave. Não o querem abandonar, a maioria é já descendente de refugiados expulsos dos territórios que deram origem ao Estado de Israel. Não querem voltar a viver o mesmo. É compreensível que falem de uma outra Nakba. Estão assustados com a possibilidade de serem sacrificados pela comunidade internacional.

Há ainda alguém capaz de promover negociações de paz? António Guterres e a ONU? Biden e os EUA? O Egito e os países árabes?
Vamos tentar contextualizar desde 1967, desde a Guerra dos Seis Dias, quando Israel se apropriou de Gaza e da Cisjordânia, impondo uma administração militar. É uma ocupação ilegal, os colonatos violam a legislação internacional, e as Nações Unidas, em diversas ocasiões, tentaram repor a legalidade. Durante mais de meio século, as resoluções do Conselho de Segurança têm sido bloqueadas ‒ vetadas ‒ pelos EUA, com o apoio do Reino Unido…

E também de alguns países da União Europeia…
Sim, sim. Vou dar outro exemplo. Quando houve eleições na Faixa de Gaza, em 2006, o Hamas venceu com o voto da maioria, em virtude do trabalho social que empreendera, tal como os apoios em matéria de educação e de saúde. Logo a seguir a essa vitória, houve tentativas para formar um governo de unidade nacional, com a participação da Autoridade Palestiniana [instalada em Ramallah, na Cisjordânia], mas Israel disse logo que não. Alegou que não podia permitir a instalação de um governo de terroristas, posição imediatamente secundada pelos EUA e pela UE, que suspenderam os financiamentos para a Autoridade Palestiniana.

E o Hamas acabou por envolver-se num conflito fratricida com a Autoridade Palestiniana e a governar Gaza sozinho…
Dois dias depois dos horrendos ataques terroristas do Hamas, ouvi um comentador israelita, que trabalha em Nova Iorque, num projeto em prol da paz, afirmar que 7 de outubro é também fruto da postura de Israel e do apoio que tem vindo a receber dos EUA, do Reino Unido, da UE. Nós, no Ocidente, temos repetidamente bloqueado as tentativas para se cumprir a lei internacional na questão israelo-palestiniana. Os palestinianos viram reconhecido o seu direito à autodeterminação ‒ pela própria ONU, em 1947 ‒, mas continuam sem ter um Estado. Diversos países já reconhecem o Estado da Palestina, algo que os EUA, o Reino Unido e a maioria dos Estados da UE recusam fazer. Seria um ato simbólico.

Como se sai deste impasse?
Os europeus vão atrás da posição norte-americana, a UE parece muito relutante em apelar a um cessar-fogo. Tenho a certeza de que boa parte dos portugueses concorda com António Guterres e com a necessidade de parar com as hostilidades. A Alemanha, por razões históricas, não quer criticar Israel. Depois, temos a campanha e as eleições nos EUA. Não creio que a América seja capaz de pressionar para que haja avanços. Antony Blinken [o chefe da diplomacia dos EUA] diz que apoia a “solução de dois Estados”. Só que, para isso, tem de convencer os israelitas a aceitar. E, depois, ainda há que definir que tipo de “solução de dois Estados”.

Na Cisjordânia, dezenas de milhares de pessoas têm sido ilegalmente colocadas sob detenção administrativa, sem acusação nem julgamento. Outras tantas foram presas por tribunais militares

Já não acredita nesse cenário?
Se for um Estado baseado na Cisjordânia, completamente dividido por estradas e postos de controlo de segurança a cargo de Israel, inundado de colonos e de colonatos, como é que se pode falar num Estado autónomo, independente e viável?

Se Trump vencer em novembro, vamos continuar a ouvir falar em “acordos do século”, sem que a vida dos palestinianos mude. No entanto, o número de Estados a reconhecer a Palestina aumenta. São já 140 (Vaticano incluído) e a Espanha pode ser o próximo. Será que Israel, desta vez, tende a perder apoios internacionais?
Sem dúvida. Será interessante vermos se Portugal e outros países da UE seguem esse exemplo. É preciso muita pressão para que os EUA e o Reino Unido reconheçam um Estado palestiniano. O mais triste é o Ocidente falar na defesa da ordem e das regras internacionais, mas nada fazer para que Israel as cumpra.

Que pode ser feito para que Israel aceite negociar? Nem se percebe qual a estratégia de Benjamin Netanyahu…
Quando ele afirma que esta guerra tem de ser ganha, e que se vai prolongar, está também a dar mais tempo a si próprio. Enquanto o conflito se mantiver, creio que os israelitas não vão querer iniciar uma batalha para o destituir. Como sabemos, em período de guerra, as pessoas tendem a manter-se unidas. No entanto, mesmo que este governo e o primeiro-ministro caíssem, o que viria a seguir? Que mudanças haveria?

Quer dar-nos a resposta?
Creio que Israel quer manter o controlo de Gaza e da Cisjordânia. Uma parte significativa da população israelita está traumatizada com os acontecimentos de 7 de outubro. Perto de 200 mil estão deslocados, no Sul do país, junto a Gaza, e no Norte, na fronteira com o Líbano, devido às intermitentes escaramuças com o Hezbollah. Portanto, não me parece que haja grandes desenvolvimentos em breve. Há uns dias, o primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak, afirmou que o Reino Unido apoiaria os bombardeamentos dos EUA contra as bases dos hutis, no Iémen, por estes violarem as leis internacionais de forma impune…

Mais uma vez, a duplicidade…
Há mais de 56 anos que Israel viola a legislação internacional na Cisjordânia. Dezenas de milhares de pessoas têm sido aí colocadas, ilegalmente, sob detenção administrativa, sem acusação nem julgamento. Dezenas de milhares foram presas por tribunais militares. Dezenas de milhares perderam as suas casas. Sim, o Reino Unido tem sido cúmplice desta situação e há um século que adota posições dúplices, enganadoras.

Ao decidir o envolvimento militar britânico no Iémen, ainda por cima sem o consentimento do Parlamento, Sunak aceitou que o conflito de Gaza se convertesse numa guerra regional…
Não me parece que os EUA e o Irão estejam interessados numa escalada bélica, num confronto direto. Se houvesse um acordo de paz para Gaza, julgo que o Hezbollah iria parar as ofensivas no Norte de Israel e que os hutis acabariam com os ataques no mar Vermelho. Não estou a par do que está a acontecer entre o Irão e o Paquistão, mas creio que não iremos assistir a uma guerra em todo o Médio Oriente. Só que estamos num momento de grande desestabilização. E, claro, a Ucrânia tem menos atenção e apoios.

E quanto ao futuro de Gaza?
Tem de haver um processo negocial que garanta a paz. A reconstrução deve ficar a cargo da ONU. Temos uma organização com a experiência, o conhecimento e as pessoas para essa tarefa: a Agência das Nações Unidas de Apoio e Trabalho em prol dos Refugiados Palestinianos [UNRWA, na sigla em inglês, criada em 1949]. O grande desafio é a segurança. Quem fica responsável?

Um ponto sensível, sobre o qual ninguém se entende…
Israel quer manter o controlo e a segurança de Gaza. Os EUA dizem que isso pode ser feito através de uma renovada Autoridade Palestiniana. Só que esta perdeu toda a credibilidade na Cisjordânia, é vista como uma entidade fraca, corrupta, como um agente de Israel. Seria interessante que existisse o envolvimento da ONU, talvez com o apoio da Liga Árabe ou de alguns países como o Egito ou a Jordânia. Mas acho que estes dois últimos não vão concordar, a não ser que os EUA lhes peçam expressamente.

Se tivermos em conta que Netanyahu já se dá ao luxo de não atender os telefonemas de Biden, este impasse pode ser dramático.
A liderança israelita sabe que o Congresso dos EUA está incondicionalmente do seu lado. Recordemo-nos do que ocorreu durante a presidência de Barack Obama [2009-2017], e com as tentativas de celebrar um acordo de paz. Netanyahu ignorava a Casa Branca, era convidado a discursar no Congresso e aplaudiam-no de pé!

A sociedade civil israelita tem dado mostras de resistência face à deriva autocrática do governo.
Sim, a mobilização que houve durante largos meses contra a reforma judicial ‒ e agora pela libertação dos reféns. Mas é preciso destacar que praticamente não se ouviram vozes contra a ocupação dos territórios palestinianos.

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