O equilíbrio de forças entre empregadores e trabalhadores está a mudar, e está a mudar a favor dos profissionais. Num momento em que estamos perto do pleno emprego e em que inúmeros setores sentem escassez de trabalhadores, como atuar nesta luta pelo talento? O que querem os profissionais, e o que podem e devem as empresas fazer para a captação e retenção dos melhores colaboradores? Estes foram alguns dos temas que estiveram hoje em debate na “Manhã em Exame”, em parceria com o ManpowerGroup Portugal.
Fruto da paralisação de muitos trabalhadores, aliada à procura de competências em nível recorde, em várias geografias, a verdade é que temos hoje duas entidades em confronto: empregadores e trabalhadores. “Uns querem talento e os outros querem decidir para onde querem ir trabalhar, com cada vez maior poder na tomada de decisão”, nota Pedro Amorim, Managing Director da Experis e Corporate Sales Director do ManpowerGroup. A boa notícia, diz, é que o problema não é só nosso, “é global”.

Comecemos por Portugal. De acordo com o mais recente inquérito ManpowerEmployment Outlook, os empregadores nacionais projetam um aumento de 37% para a criação líquida de emprego no terceiro trimestre. São mais 9 pontos percentuais (pp) face ao trimestre anterior e mais 23 pp em relação ao homólogo. Pedro Amorim nota que, nesta equação, não estão incluídos os possíveis impactos da atual guerra na Ucrânia, um fator potencial de agravamento da atual tendência de deslocalização de muitos centros de serviços partilhados e centros tecnológicos do centro para o sul da Europa.
Tecnologias da Informação, Telecomunicações e Media surge à cabeça como o setor com maiores intenções de contratação (46%) nos próximos três meses. “É, desde há muito anos, o setor que tem tido maior crescimento. A pandemia veio acelerar este mercado. Vários estudos apontam para a antecipação de investimentos e processos de digitalização, que estavam planeados para os próximos 10 anos, e que as empresas foram forçadas a concluir em dois”, revela o responsável. Segue-se o setor da banca, finanças e seguros (43%) e restauração e hotelaria (40%). “Aqui o problema não é só de falta de mão de obra, mas também de qualidade de mão de obra. Existe uma enorme dificuldade na contratação. A pandemia levou a que muita gente saísse do setor, encontrasse outras ocupações com maior estabilidade – com horários mais regulares e uma maior capacidade de work life balance, que é algo que os trabalhadores valorizam muito na sua tomada de decisão – e agora muito dificilmente irão regressar”. E, apesar do grande domínio das micro e pequenas empresas no tecido empresarial nacional, são as médias e grandes empresas que sentem maior pressão para encontrar talento.
A tendência é global. O estudo inclui 40 países, dos quais apenas a Grécia não projeta intenções de criação líquida de emprego para o próximo trimestre. O México lidera o ranking, com Portugal em 14º lugar.
Já se analisarmos a escassez de talento neste mesmo lote de países, Portugal é segundo na dificuldade em encontrar talento para preencher as vagas de que necessita. “Pela primeira vez em 16 anos, atingimos o valor mais alto naquilo que é a dificuldade em encontrar talento. E Portugal bate todos os recordes. Diria que é preocupante”, aponta o Managing Director da Experis. Ainda assim, “e olhando na perspectiva do copo meio cheio, diria que traz desafios, que têm a ver com a nossa capacidade de criar soluções que sejam inovadoras e possam ir de encontro às expectativas dos trabalhadores”.
E afinal o que querem os trabalhadores?
- Flexibilidade: possibilidade de escolher horários de trabalho e ter opções de local de trabalho completamente flexíveis;
- Modelos híbridos e remotos: 4 em cada 10 querem ter a possibilidade de escolher os dias em que vão trabalhar remotamente e ter a flexibilidade de alterar esses dias em cada semana;
- Saúde mental: 3 em cada 10 trabalhadores querem ter mais dias dedicados à saúde mental para prevenir o burnout;
- Cultura: 7 em cada 10 acreditam que o trabalho que realizam é importante para a organização e querem que as lideranças reconheçam o seu contributo;
- Ativismo: 64% dos trabalhadores querem trabalhar para organizações com um propósito, que acrescentam valor à sociedade, e tenham valores próximos dos seus.
“Antigamente pensávamos que tinhamos o plano certo para todas as pessoas: salários, planos de carreira, os mesmos modelos de trabalho. Mas não é isso que os trabalhadores hoje querem. A individualidade emergiu, claramente, como um fator indiscutível no processo de tomada de decisão. Eu decido o que quero e a organização tem de me acompanhar. É isto que os trabalhadores hoje pensam e é essa a pressão que estão a colocar sobre as organizações. Esse é grande desafio que temos hoje enquanto organizações”, diz Pedro Amorim.
Mas também do lado das empresas existem mudanças no que é o perfil procurado, com as soft skills a ganharem peso no fiel da balança. No Top 5 estão a resiliência e adaptabilidade; fiabilidade e disciplina; trabalho em equipa e colaboração; capacidade de iniciativa; e a capacidade de resolução de problemas. Todas ganham uma nova leitura à luz do que são hoje os novos modelos de trabalho.
Nas palavras de Jonas Prising, Chairman e CEO do ManpowerGroup: “Agora é o momento de reimaginar um futuro melhor e mais promissor para os trabalhadores – mais qualificado, mais diverso, e mais orientado para o bem estar do que alguma vez poderíamos ter imaginado”.
Estes dados serviram de mote ao debate, com a participação de Cláudia Celestino, Diretora de Recursos Humanos da Nokia Portugal; Glória Araujo-Woermann, Diretora de Recursos Humanos da Bosch Car Multimedia Portugal; Hugo Paiva, Diretor de Recursos Humanos da DPD Portugal; Pedro Amorim, da Experir; e Vítor Antunes, Managing Director Manpower.
