Logo que terminou a missa nos Mosteiro dos Jerónimos, onde apelou aos bispos portugueses que ouçam as vítimas de abusos na Igreja Católica, o Papa deu o exemplo ao clero nacional e recebeu 13 dessas pessoas. O encontro na Nunciatura Apostólica, em Lisboa, terá começado pelas 19 horas, desta quarta-feira, e durado cerca de pouco mais de uma hora, segundo Matteo Bruni, o responsável pelo gabinete de imprensa do Vaticano, num breve comunicado que enviou aos jornalistas credenciados junto daquele Estado.
Junto com as 13 vítimas esteve a psicóloga Rute Agulhas, a coordenara do Grupo VITA, entidade que a Igreja criou para acompanhar quem sofreu abusos sexuais na Igreja, e ainda Pedro Strecht, responsável pela Comissão Independente que estudou este fenómeno e o divulgou num relatório em fevereiro, onde se apontava para um universo de 4800 de pessoas a quem terão sido infligidos tais abusos.
“Esta noite [de quarta-feira], após concluir os seus encontros institucionais e eclesiais, o Papa Francisco recebeu na Nunciatura um grupo de 13 vítimas de abusos por parte de membros do clero, acompanhados por várias organizações eclesiais comprometidas com a proteção dos menores”, adiantou Bruni, que revelou ainda que aquele encontro aconteceu numa “atmosfera de escuta intensa e durou mais de uma hora”. As vítimas terão saído do edifício do corpo diplomático do Vaticano pelas 20h15.
Francisco terá pedido a cada uma das vítimas que relatasse o seu caso, sendo que pediu perdão pelo mal que a Igreja lhes infligiu.
O gesto do Papa não deixa de ser um sinal de crítica contra a Igreja Católica Portuguesa, já que as vítimas nunca tinham sido recebidas num encontro por nenhum alto responsável do clero nacional. Mas também porque ocorreu logo que o líder máximo dos católicos chegou à Nunciatura, vindo do Mosteiro dos Jerónimos, onde deu um puxão de orelhas aos bispos portugueses pela sua inação e a quem pediu que “ouçam as vítimas”.
Ali, em Belém, o Papa admitiu que pode haver “um cansaço” ou “fadiga” perante o que está a acontecer. “Um cansaço quando nos parece que só temos redes vazias nas mãos. É um sentimento bastante difundido em países de antiga tradição cristã, afetados por muitas mudanças sociais e culturais, e cada vez mais marcados pelo secularismo, pela indiferença para com Deus e por um distanciamento crescente da prática da fé”, disse, apontando o dedo aos bispos. “Muitas vezes, isso é acentuado pela decepção ou raiva que alguns sentem em relação à Igreja, em alguns casos por causa do nosso mau testemunho e dos escândalos que desfiguraram o seu rosto, e que exigem uma purificação humilde e constante, a partir do grito de dor das vítimas, que devem ser sempre acolhidas e ouvidas“, defendeu.
“Quando nos acostumamos e ficamos entediados, e a missão se torna uma espécie de ‘trabalho’, é hora de dar lugar a esse segundo apelo de Jesus, que nos chama de novo, sempre”, pediu, tendo perto de si Manuel Clemente, cardeal patriarca de Lisboa, e José Ornelas, bispo de Fátima e líder da Conferência Episcopal Portuguesa.
O Papa endereçou ainda o clero nacional que é preciso ter uma outra atitude, de modo a chegar a todos. “Não tenham medo, lancem as redes. Não vivam a acusar ‘isso é pecado’, isso aqui que ‘não é pecado’. Venha o mundo todo, depois conversamos […] Por favor, não façam da Igreja uma alfândega: aqui entram os justos, os que estão bem, os que estão bem casados e todos os outros, por aí. Não. A Igreja não é isso. Justos e pecadores, bons e maus, todos, todos, todos“. concluiu.