Eu nem contava voltar aqui a falar do Henrique Raposo tão cedo, mas ele parece que me obriga. É que voltou a escrever uma crónica tão indigente mental e xenófoba, que me custa não aproveitar este meu espacinho para comentar.
Um atentando homofóbico matou uma pessoa e feriu outras 16, em Berlim. Nos comentários das notícias, uma quantidade absurda de pessoas a festejar o sofrimento alheio, o regozijo por aquela morte, apenas porque quem está a sofrer tem a ousadia de não ser heterossexual. E posto todo este entorno, o que é que aquela mente tão brilhante quanto uma maçaneta de porta resolve escrever? Por exemplo, isto:
“A esquerda faz manifestações de braço dado com muçulmanos radicais como este terrorista de Berlim. Não sei se é para rir ou chorar, mas a esquerda – por causa de Israel – legitima o seu pior inimigo “.
Até a sopa da pedra tem menos coisas enfiadas lá para dentro só para encher. A verdade é que por detrás da imbecilidade do parágrafo, o propósito é simples: juntar toda a esquerda ao islamismo radical. Será que alguma vez vamos ver o Henriquinho a encostar toda a direita, por exemplo, ao neonazi Breivik que matou dezenas de miúdos? Não. Até porque era profundamente estúpido e injusto. Mas é o que ele está a fazer com a esquerda e o terrorista deste atentado. Também lhe podíamos tentar explicar porque é o extremismo islâmico está mais perto de qualquer extremismo de direita do que de esquerda, mas provavelmente não ia entender.
Outra coisa engraçada é que o Henrique acha que somos todos parvos, e que ninguém se lembra de todas as coisas que escreve e diz. Mas como mesmo muito gente não se esquece, torna-se um embaraço que alguém que prima há anos pela LGBTfobia venha agora fingir-se preocupado com a comunidade, quando só está a usá-la como véu para a xenofobia que cobre todo o seu discurso em relação a muçulmanos.
E viram a menção ali a Israel? Diz ele que alguém que se oponha ao genocídio em curso está a legitimar o extremismo islâmico. Tem a mínima lógica? Não. Mas não é por isso que o vai deixar de escrever. E, já agora, sabemos que para o Henrique, o seu pior inimigo são as pessoas trans, o wokismo e, outras papões da cabeça dele. Já o Estado genocida de Israel, ele não só aprova como branqueia, como se pode ver no parágrafo seguinte:
“Em segundo lugar, Israel e as comunidades judaicas no ocidente são espaços de abrigo e promoção da cultura homossexual. Uma das razões para o ódio geral a Israel no Médio Oriente é o facto de cidades como Telavive mostrarem o que é a pujança de uma sociedade que dá liberdade a mulheres e homossexuais e isso tira do sério todos os reacionários e radicais do mundo muçulmano.“
O adjetivo “patético” não seria suficiente para o descrever. Falar da liberdade de Israel nesta altura, é como dizer que na Alemanha nazi a qualidade do ar era ótima, mas todos sabemos de que lado estaria o Henrique há 80 anos.
Convido-vos a irem ler a crónica toda, que é muito pior do que aqui estou a relatar, e é mesmo das crónicas mais burras que alguma vez na li na vida. Mas tem um propósito, tem uma agenda.
E isto é tudo risível, mas é também muito triste. É que são exatamente pessoas como o Henrique Raposo (ou o Miguel Morgado, que chamou “ataque islâmico” ao atentado) que andam há anos a alimentar a xenofobia e LGBTfobia, e que contribuem para o ambiente de violência que vivemos atualmente contra estas minorias, mesmo quando usam falsas preocupações com uns para atacar outros.
Nós é que não somos burros e percebemos o joguinho.
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