Chegou a altura do ano em que o ritmo abranda e os dias longos e amenos prometem uma disposição mais animada, enquanto tons rosáceos tingem o céu e as pessoas põem a conversa em dia nas esplanadas e nos cafés, ao som do grasnar das gaivotas que sobrevoam entre o mar e a terra. E é sempre esta sensação de que talvez a exaustão que temos vindo a sentir possa ser um pouco aliviada nestes dias pelas promessas do verão.
O termo “Férias” vem do latim feriae, os dias sagrados no calendário romano que eram consagrados aos deuses e em que o trabalho era suspenso. Com o tempo, perdeu-se essa ligação religiosa e evoluiu de dia de culto religioso para designar simplesmente período de descanso. Para o povo, o direito ao descanso só era permitido nos dias de festividades religiosas, mas a elite tinha direito ao lazer e ao ócio e, sempre que o clima o exigia, viajava para locais mais resguardados.
Sobreviveu nos dias de hoje o conceito de férias como o período que reservamos para viajar, para abandonar a casa e as rotinas, procurando o alívio da mente e dos sentidos, algo que faça o stresse desvanecer-se.
Nestas alturas, vem-me sempre à mente o estilo seco do livro de Alain de Botton escrito no início deste século, A Arte de Viajar. Seduzido pela imagem de praias brancas, céu azul e palmeiras, decide viajar para Barbados, apenas para concluir que a mudança de cenário não afasta a ansiedade e as constantes preocupações pelo futuro. Descobre que as discussões com a companheira de viagem, as neuroses, as irritações profundas e obsessões não ficam para trás no aeroporto, mas viajam com ele para todo o lado.
É natural sentirmos que outros locais distantes, longe de casa, parecem mais encantadores. Para muitos turistas, as pastelarias de Lisboa, onde vivo, estão repletas de charme, ao passo que um lisboeta já só vê o mesmo conceito repetido em todas as pastelarias e lojas direcionadas para turistas. A única coisa para a qual um lisboeta consegue prestar atenção na sua cidade é como está a ficar descaracterizada, cara e menos autêntica. Mas tenho a certeza de que, como turistas em Paris, Praga, Roma ou Amesterdão, estaríamos certamente muito mais cativados pelo charme e pela beleza e teríamos o nosso olho mais negligente para aspetos menos positivos. Afinal estamos de férias e queremos regressar a casa para contar como a experiência foi maravilhosa.
A verdade é que nesta época de instabilidade e precariedade em tantas zonas do globo, começa a ser um desafio encontrar sítios para onde viajar que não nos lembrem como o mundo se tornou um local opressivo em termos económicos ou mesmo perigoso, seja por ação de nações em guerra ou por efeito das alterações climáticas (que não deixam de ser também causadas por ação humana).
Mas mesmo que alguém escolha não viajar, e opte por fazer férias simplesmente como espaço de fuga do quotidiano, férias onde impera um convívio familiar mais atento e a promessa de desligamento, esse desligamento – o modo offline – nunca é total e há sempre algo a roubar-nos a nossa atenção, especialmente com as tecnologias atuais. O telemóvel continua no bolso, da mesma forma que a ansiedade de Botton viajava na sua mala.
Talvez o conceito de férias esteja a caminhar a passos largos no sentido de ficar obsoleto e tenhamos de reinventar o tempo de descanso e ócio. Planeamos férias para maximizar a experiência da vida que julgamos que deve ser vivida sem trabalho constante, e poder sentir algum bem-estar, mas não é incomum chegarmos ao final das férias com os níveis de ansiedade a regressarem aos picos, porque sabemos que essa pausa transitória está a terminar e vão voltar a rotina, os aborrecimentos, as pressões, problemas por resolver e logística esmagadora.
Botton mostrou-nos que nas férias não conseguimos escapar a nós próprios. E, como vimos, também não há lugares que possam ser disfarçados de paraíso, nem tempo que consigamos separar do resto da vida. Talvez precisemos de recuperar o carácter sagrado das férias, como no tempo dos romanos, a ideia original de suspensão. Apenas um gesto quase ritual de interromper o tempo, sem outro propósito que não seja esse mesmo interromper.