Há doenças cujo maior risco está precisamente no silêncio com que evoluem. As hepatites virais são um exemplo claro: podem permanecer anos sem diagnóstico, progredindo de forma silenciosa até causarem lesão hepática grave, fibrose, cirrose, insuficiência hepática ou cancro do fígado. Quando os sintomas surgem, muitas vezes já se perdeu um tempo precioso para intervir, aumentando o risco de morte e a necessidade de cuidados complexos. A este silêncio soma-se outro, o social: as hepatites B e C estão frequentemente associadas a comportamentos de risco (consumo de drogas injetáveis ou a transmissão sexual), o que gera estigma e discriminação com efeito direto na saúde pública, levando ao adiamento do teste, à ocultação do diagnóstico e ao afastamento dos cuidados de saúde por medo do julgamento.
Os números confirmam o custo destes silêncios. De acordo com os dados da Coligação Global para a Eliminação das Hepatites, em 2024 contavam-se 287 milhões de pessoas com infeção crónica pelos vírus da hepatite B (HBV) ou da hepatite C (HCV), o que corresponde a 3% da população mundial; dos 240 milhões que viviam com HBV, 73% desconheciam a sua infeção e 95% não receberam tratamento, e dos 68 milhões de pessoas elegíveis para tratamento de VHC desde 2014, 80% não foram tratadas.
A estes dados juntam-se as estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), que referem que, em 2022, a cirrose e o cancro do fígado relacionados com a hepatite causaram 1,3 milhões de mortes, o equivalente a mais de 3.500 mortes por dia, o que faz da hepatite B e C das principais doenças infecciosas em todo o mundo, com uma mortalidade crescente. Em Portugal, os dados revelam que quatro em cada 1000 pessoas têm hepatite B crónica e que a taxa de diagnóstico da infeção por hepatite C não vai além dos 8 por cento. Números que se tornam ainda mais alarmantes quando se sabe que grande parte destas mortes seria evitável, não só porque existe uma vacina segura e eficaz contra a hepatite B, como existem tratamentos eficazes que permitem a cura da hepatite C.
Em Portugal, como noutros países, o desafio não é apenas clínico. É também um desafio de organização, de acesso, de literacia e de prioridade política.
O impacto clínico deste problema é o mais óbvio. Mas as hepatites virais impactam ainda a qualidade de vida, perpetuam a transmissão na comunidade e geram custos muito significativos para o sistema de saúde, que se multiplica quando as pessoas não são diagnosticadas e tratadas a tempo.
Mas como se pode combater uma doença silenciosa? A resposta passa pelo uso de ferramentas que vejam o que os sintomas não mostram. É aqui que entram as campanhas de informação e sensibilização, a prevenção, o rastreio e o diagnóstico precoce.
Quando falamos de prevenção, estamos a falar da eliminação de comportamentos de risco, mas também da vacinação, no caso da hepatite B, e do acesso a informação clara, sem a qual não se pode agir para prevenir.
Depois, vem o rastreio, hoje muito mais simples do que no passado, que assenta em análises ao sangue amplamente disponíveis e em estratégias de testagem que podem e devem ser implementadas nos cuidados de saúde, aproximando o diagnóstico das pessoas. O diagnóstico atempado proporciona a oportunidade de ação precoce e reduz o risco de complicações como cirrose, cancro do fígado e da transmissão contínua na comunidade.
Mas diagnosticar, por si só, não basta. Um diagnóstico só tem valor se estiver ligado a um percurso assistencial rápido, claro e bem articulado. Por isso, falar de hepatites virais é também falar de referenciação e da continuidade de cuidados. Circuitos bem estruturados garantem que a pessoa com hepatite viral chega ao especialista certo o mais rápido possível; a continuidade de cuidados evita perdas no seguimento e melhora a adesão a um tratamento que, graças aos avanços científicos, tem mudado significativamente o prognóstico da doença. No entanto, ainda que a inovação terapêutica seja real, só cumpre plenamente o seu propósito quando há acesso equitativo e oportuno para quem dela precisa.
Tratar uma hepatite viral não é apenas tratar um indivíduo; é investir em saúde pública: o controlo e a cura da doença reduzem a transmissão, as complicações clínicas e os custos futuros para o sistema de saúde. Por isso, tratar as hepatites virais deve ser uma prioridade. E é um objetivo que já tem um horizonte definido. Com os tratamentos atuais, a possibilidade de eliminar o vírus da hepatite C tornou-se uma realidade, de tal forma que, em 2016, a Organização Mundial de Saúde estabeleceu a primeira Estratégia Global do Setor da Saúde com metas ambiciosas para a eliminação do VHC até 2030, visando reduzir as novas infeções em 90% e as mortes relacionadas com este vírus em 65%.
A eliminação das hepatites virais é um objetivo alcançável, desde que exista um compromisso consistente e ação coordenada. E isso exige políticas públicas alinhadas, investimento sustentado e uma integração efetiva entre prevenção, rastreio, diagnóstico, referenciação, tratamento e monitorização em torno dessa meta, já que apesar de ser um desafio clínico, não deixa de ser também organizacional, social e político.
Para ajudar os países nesta caminhada até à erradicação, a OMS lançou um guia e um manual de implementação sobre as hepatites B e C, que reúne mais de uma década de recomendações baseadas em evidências para gestores de programas, decisores políticos, profissionais de saúde, entre outros, e que visa traduzir as recomendações normativas em ações concretas.
Neste cenário, todos são importantes: dos profissionais de saúde que rastreiam e tratam, aos decisores políticos que desenham os circuitos, passando pelos parceiros da indústria farmacêutica, cujo papel pode ir além do desenvolvimento terapêutico, contribuindo também para a capacitação, promoção da literacia e na identificação de necessidades não satisfeitas.
O que ainda falta fazer para que ninguém fique por diagnosticar, referenciar ou tratar? Perante a evolução silenciosa das hepatites virais, a resposta não pode ser a inação. É urgente reforçar a prevenção, promover o rastreio e garantir diagnóstico e tratamento atempados. Só com uma resposta conjunta, informada e coordenada será possível reduzir a carga da doença e avançar, de forma efetiva, para a sua eliminação até 2030.
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