Pagam-te a viagem, o hotel, o almoço, o jantar… e talvez mais um cachet. Em troca, sorris para a câmara em Telavive e dizes que Israel é uma democracia.
Enquanto isso, as pessoas de Gaza não conseguem sair do território, porque Gaza é uma prisão. Há um muro a crescer e um território a encolher. Há um cessar-fogo que mata diariamente crianças.
Mas os influencers portugueses que lá foram não viram nada disso. O negócio é levá-los a ver outras coisas.
São tão incultos que nem percebem que são manipulados para mentir. Ou se percebem, não se importam.
Israel desta vez não apostou em políticos. Convidou um grupo de influencers portugueses a visitar o país. Israel sabe que um influencer jovem a postar stories de férias parece mais espontâneo do que um político, que gera mais desconfiança. Assim não parece propaganda, mesmo sendo paga. É a chamada hasbara, que substitui o porta-voz oficial por uma pessoa aparentemente normal, que se parece connosco.
Israel aumentou o investimento na hasbara para 730 milhões de dólares em 2026, mais do que quadruplicando o orçamento do ano anterior, que já era vinte vezes superior ao que gastava antes do 5 de outubro. Cerca de 40 milhões desse orçamento foram para levar 400 delegações estrangeiras a Israel, entre parlamentares, pastores, influencers e reitores de universidades. Uma fração significativa vai para influencers, com pagamentos que chegam aos 7 mil dólares por publicação. Não sabemos quanto custou a viagem destes portugueses.
Mas que é um escândalo, é.
Porque há uma lei do Código da Publicidade que obriga à identificação clara e inequívoca de qualquer conteúdo comercial ou patrocinado. Será que uma viagem paga por um Estado estrangeiro para promover a sua imagem política cabe nesta lei? Talvez seja uma lacuna conveniente.
Certo é que um estudante em Gaza, que ganhou uma bolsa Erasmus, não consegue sair do território para a usar, tal como não consegue sair quem precisa de cuidados de saúde urgentes – pessoas deixadas para trás a morrer. Há um cessar-fogo assinado desde 23 de outubro de 2025 durante o qual Israel já matou mais de 800 palestinianos, uma grande parte crianças. Israel controla hoje mais território em Gaza do que controlava no dia em que assinou o acordo. Na Cisjordânia, colonos armados roubam terras, incendeiam casas, expulsam os seus habitantes e intensificam o processo de ocupação que dura desde a Nakba em 1948, quando o Estado de Israel se fundou sobre a expulsão e desapropriação do povo palestiniano, e que se agravou com a ocupação da Cisjordânia e Gaza a partir de 1967.
No entanto, Portugal e a Europa mantêm relações diplomáticas e comerciais com este estado genocida e há tontos que conseguem viver a fingir que não veem nada disto.
A história tem boa memória para estas coisas. Fica registado quem esteve do lado da propaganda enquanto o resto do mundo desviava o olhar. Se a sociedade civil tiver a decência mínima, também ela saberá virar a cara a quem se vendeu.
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