Em Hollywood, um homem pode voar, trepar paredes, salvar Nova Iorque e enfrentar criaturas interdimensionais. O que continua a parecer verdadeiramente inverosímil é ter uma namorada mais alta. É este o pequeno milagre sociológico por detrás de Zendaya e Tom Holland, que regressam juntos em Homem-Aranha: Um Novo Dia: ela mede cerca de seis centímetros mais do que ele; na verdade não chega ao palmo anunciado pela imaginação popular, mas basta para a Internet tratar o casal como se Peter Parker estivesse casado com a Torre Eiffel.
A diferença nunca pareceu incomodá-los. Durante a promoção de Homem-Aranha: Sem Volta a Casa, os dois recordaram uma cena em que saltavam de uma ponte. Pela lógica habitual do super-herói, Peter deveria aterrar primeiro e amparar MJ, o seu grande amor. Pela lógica da gravidade, Zendaya chegou antes ao chão e acabou praticamente a apanhar o Homem-Aranha. Holland contou o episódio a rir, ela também, e o mundo sobreviveu à descoberta de que uma mulher pode ser mais alta sem o companheiro se transformar imediatamente num bonsai emocional.
Homem-Aranha com tamanho humano
Conheceram-se na rodagem de Homem-Aranha: Regresso a Casa, atravessaram Homem-Aranha: Longe de Casa e Homem-Aranha: Sem Volta a Casa, protegeram durante anos uma relação que o público insistia em transformar numa série paralela e chegam agora ao quarto filme juntos, entretanto já como marido e mulher. Tom Holland confirmou publicamente o casamento, embora ambos continuem a guardar os pormenores da cerimónia longe do circo mediático, uma raridade num tempo em que até as luas-de-mel parecem ter de ser publicitadas.
O filme chama-se oficialmente em Portugal Homem-Aranha: Um Novo Dia e estreia esta semana, nas salas portuguesas. O título não podia ser mais adequado: Peter Parker tenta recomeçar num mundo que já não se lembra dele, enquanto Tom Holland continua a provar que não é preciso ter a chamada “altura de galã” para vestir o fato de super-herói.
Há uma espécie de justiça física e poética nisto tudo. Holland interpreta um herói cuja verdadeira força nunca foi a imponência física, mas a agilidade, a vulnerabilidade e a capacidade de cair mal e voltar a levantar-se. Zendaya, por seu lado, construiu a carreira recusando encolher-se: começou na Disney, tornou Rue de Euphoria uma das personagens mais devastadas da televisão, comandou o jogo erótico e emocional de Rivais (ou Chalengers) e tornou-se uma estrela que ocupa uma passadeira vermelha como quem toma posse de território. Ele balança-se entre prédios; ela entra numa sala e altera-lhe logo a arquitetura.
As caixas onde o ego subia
A verdade é que o cinema clássico não lidava com estas diferenças com a mesma tranquilidade. Quando Humphrey Bogart contracenou com Ingrid Bergman em Casablanca, a solução não foi aceitar que ela era mais alta: recorreram-se a sapatos elevados com saltos altos, posições calculadas e enquadramentos destinados a salvar Rick Blaine da terrível humilhação de olhar Ilsa de baixo para cima. Bogart voltaria a encontrar uma mulher ligeiramente mais alta em Lauren Bacall, a sua parceira em Ter ou Não Ter e À Beira do Abismo e, depois, mesmo na vida real. A química entre ambos, não sofreu com isso. O patriarcado, aparentemente, precisou apenas de mudar o plano.
Décadas mais tarde, Nicole Kidman e Tom Cruise formaram um dos casais mais fotografados do mundo e contracenaram em Dias de Tempestade, Horizonte Longínquo e De Olhos Bem Fechados. Ela era visivelmente mais alta; ele era Tom Cruise, o que significa que Hollywood dispunha de plataformas, ângulos, marcações no chão e provavelmente um departamento inteiro dedicado a garantir que a masculinidade americana não perdesse centímetros diante de Stanley Kubrick. O título português do último filme conjunto do casal permanece, aliás, uma boa definição para a atitude da indústria perante estas diferenças: de olhos bem fechados.
Diane Keaton também era mais alta do que Woody Allen em Annie Hall e Manhattan, embora aí a diferença de estatura fosse talvez o aspeto menos estranho da relação. No cinema e fora dele, várias mulheres altas aprenderam a chegar às fotografias de sapatos rasos, a dobrar ligeiramente os joelhos ou a evitar tacões para não “diminuírem” o homem ao seu lado. Diminuírem é a palavra certa: não a altura dele, evidentemente, mas a ficção segundo a qual o masculino deve ocupar sempre mais espaço.
O homem alto protege; a mulher baixa é delicada. Ele domina; ela cabe debaixo do braço. Um manual romântico escrito por alguém que confundiu amor com a arrumação das malas no porta-bagagens. E quando a realidade não respeitava a hierarquia, o cinema corrigia-a: levantava o ator, baixava a atriz, cavava um pequeno buraco no cenário ou aproximava a câmara até os centímetros desaparecerem. A montagem fazia pela virilidade aquilo que o Photoshop viria mais tarde a fazer pelas rugas.
A medida de um casal
Zendaya e Holland são interessantes porque não transformam a diferença num manifesto solene. Limitam-se a existir dentro dela. Ela usa tacões quando lhe apetece, ele não aparece disfarçado em cima de um estrado e ambos brincam com o assunto antes que o assunto os transforme numa tese universitária ou gossip de ocasião. Essa naturalidade é mais eficaz do que muito discurso bem-intencionado. Não se preocupam por desobedecer ao modelo; comportam-se como se o modelo já tivesse caducado.
Também ajuda que Zendaya seja uma estrela com presença física, elegância e autoridade, enquanto Holland nunca tentou compensar a estatura com a habitual musculatura do ego. Nos filmes, MJ — ou Mary Jane Watson, a ruiva namorada do Homem-Aranha nos originais da Marvel e num dos romances mais icónicos e duradouros da cultura pop — não precisa de parecer mais pequena para Peter Parker ser herói. Na vida, Zendaya também não precisa de descer do salto para o marido parecer homem. Pode parecer uma conquista modesta, mas Hollywood passou mais de cem anos a escavar buracos para atrizes e a construir estrados para atores.
Homem-Aranha: Um Novo Dia chega, portanto, também com uma lição inesperada por baixo da teia digital. O tamanho importa muito, mas quase sempre apenas a quem tem medo de não estar à altura. Tom Holland não é menos Homem-Aranha porque Zendaya chega primeiro ao chão. E Zendaya não é menos romântica porque precisa de inclinar ligeiramente a cabeça para o beijar. No fim, talvez o casal funcione precisamente porque nenhum dos dois exige que o outro se encolha. Em Hollywood e na vida, isso sim continua a ser um verdadeiro superpoder.