O Comboio Histórico do Vouga percorre a Linha do Vouga, a única linha ferroviária de via estreita ainda em operação em Portugal. Entre Aveiro e Macinhata do Vouga, passando por Águeda, leva centenas de passageiros a descobrir uma ferrovia centenária e um território onde o património, a paisagem e as pessoas continuam ligados pelos carris.
À medida que o comboio deixa para trás a cidade de Aveiro, a paisagem transforma-se lentamente. Os edifícios dão lugar aos campos verdes, onde o milho cresce alto sob o calor do verão. Entre árvores, pequenos caminhos rurais e algumas fábricas que recordam a tradição industrial da região, surge um território onde convivem dois tempos. De um lado, a ruralidade tranquila dos campos; do outro, as enormes colunas de betão que sustentam a autoestrada, símbolos de uma engenharia contemporânea que cruza esta paisagem antiga sem lhe retirar o encanto.
Desde a sua inauguração, no início do século XX, a Linha do Vouga aproximou comunidades e impulsionou o desenvolvimento económico da região. O primeiro troço abriu em dezembro de 1908, ligando Espinho a Oliveira de Azeméis, e o ramal para Aveiro entrou em funcionamento em setembro de 1911. Construída em bitola métrica, tornou-se uma das mais importantes linhas de via estreita do País e hoje é a última sobrevivente desse vasto património ferroviário português.
Foi precisamente para preservar essa memória que a CP criou, em 2017, o Comboio Histórico do Vouga. A composição reúne carruagens de madeira construídas entre 1908 e a década de 1930, fabricadas na Bélgica, Alemanha e Portugal, rebocadas por uma locomotiva diesel da série 9000, símbolo da modernização ferroviária dos anos 70. Cada viagem é uma homenagem à história do caminho de ferro português.
Mas o verdadeiro património desta linha continua a ser humano. Na viagem vai Rosa Santos, de 82 anos, acompanhada pelo marido, Francisco Santos. Os olhos de Rosa brilham como os de uma criança quando o comboio inicia a marcha. “Eu adoro comboios desde pequena”, conta, sorrindo.
O pai trabalhava na estação de Nelas, e foi entre plataformas e locomotivas que cresceu. Graças ao passe ferroviário dos trabalhadores, viajou praticamente por todas as linhas do Norte.
“Naquela altura havia muitas linhas. Nós podíamos passear porque o meu pai era ferroviário e não pagávamos bilhete. Mas viajávamos sempre na terceira classe”, recorda, entre risos. Depois olha em volta para a confortável carruagem onde segue agora e acrescenta, divertida: “Hoje vou na primeira classe… mas desta vez tive de pagar.”
Apesar de tantas viagens ao longo da vida, ainda guarda um sonho. “Só me falta conhecer o Algarve de comboio. Nunca lá fui… mas ainda vamos fazer essa viagem.”
Há uma ternura especial nestas palavras. Rosa não fala apenas de destinos. Fala da liberdade que encontrou nos carris, da infância, da família e do tempo em que viajar era uma aventura simples, feita de paisagens observadas pela janela.
Durante o verão, entre julho e agosto, o Comboio Histórico do Vouga volta a encher-se de apaixonados pelos caminhos de ferro e de curiosos que querem experimentar um comboio de outros tempos. A maioria são portugueses em férias, famílias, avós com netos, fotógrafos e amantes da história ferroviária.
A experiência vai muito além da viagem. Em Macinhata do Vouga, os passageiros são recebidos pelo grupo de foclore local, um pastel de Águeda, e a visita ao Museu Ferroviário, preservando a memória de uma linha que marcou gerações. Em Águeda, o percurso permite descobrir o património urbano da cidade e, durante julho, a animação do AgitÁgueda, que enche as ruas de cor e criatividade.
No regresso a Aveiro, quando o sol começa lentamente a descer sobre os campos, percebe-se que o Vouguinha transporta muito mais do que passageiros. Transporta lembranças, histórias de vida e uma forma de viajar que resiste à velocidade do presente.
Talvez seja esse o segredo do seu encanto. Num mundo onde quase tudo acontece depressa, este pequeno comboio continua a ensinar que algumas viagens merecem ser feitas devagar. Porque há paisagens que precisam de tempo para serem contempladas, há memórias que só despertam ao ritmo dos carris e há pessoas, como Rosa e Francisco, que nos recordam que o verdadeiro destino nunca é apenas o lugar onde chegamos, mas todas as histórias que levamos connosco ao longo do caminho.
Comboio Histórico do Vouga regressa com nove viagens entre julho e 29 agosto.
Viagem sábado, Aveiro (13h45) a Macinhata do Vouga (20h07), inclui paragem em Águeda. Bilhetes CP disponíveis; inclui património, cultura local e feira em Macinhata.